Medo da violência populariza 'Uber blindado' no Rio e em SP

 

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A busca por mais segurança tem tornado o que um dia já foi luxo em objeto de desejo mais alcançável. Enquanto a frota de automóveis blindados cresceu 24,6% pelas ruas do país entre 2025 e o ano anterior — são aproximadamente 43 mil novos veículos nas ruas, segundo a Associação Brasileira de Blindados (Abrablin) —, até mesmo carros de aplicativo passaram a ofertar a proteção extra: já são pelo menos três empresas oferecendo viagens mais seguras a apenas alguns cliques.

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Desde que foi assaltada em abril de 2024, a empresária Patrícia Mões de Abreu, de 36 anos, passou a optar por fazer seus deslocamentos em carros blindados. Moradora do Rio, ela conta que, mesmo tendo o próprio carro revestido, costuma usar os serviços do aplicativo Vou de Blindados RJ até quatro vezes ao mês para pequenos trajetos, como idas ao aeroporto ou eventos noturnos.

— O assalto foi desesperador, tive que entrar em luta corporal com os criminosos para tirar meu filho mais velho do carro e decidi nunca mais passar por isso na vida. Além de trocar o veículo da família por um blindado, comecei a usar o aplicativo para viagens curtas — explica Abreu, que também é mãe de uma bebê de 1 ano e, em 2025, já a bordo de um blindado, passou por mais uma tentativa de roubo, mas dessa vez fugiu do local sem prejuízos.

A médica Marcela Marchetti opta por app que oferece carros blindados em São Paulo

Edilson Dantas

O reforço na segurança, no entanto, cobra seu preço. Deslocamentos que custam em média R$ 25 em aplicativos comuns de transporte podem sair por até quatro vezes mais, a R$ 100.

Proprietário da empresa Vou de Blindados RJ, Renato Nunes já atuava no mercado de aluguel de carros com o revestimentos desde 2017. Diante do aumento na procura, ele decidiu desenvolver a nova ferramenta.

— Lançamos o aplicativo em janeiro, com 27 veículos parceiros cadastrados, e hoje já estamos com 184 carros de nível A3, que protege de eventos como balas perdidas, assaltos e casos em que os criminosos quebram os vidros dos veículos para roubar — descreve o empresário, que, por enquanto, só oferece o serviço na Região Metropolitana do Rio, mas pretende expandir para o estado de São Paulo e o Nordeste.

‘Processos aprimorados’

Além do Rio, São Paulo é o único estado no qual a reportagem localizou ofertas semelhantes, com ferramentas já existentes que permitem viabilizar uma viagem ao estilo “Uber blindado” por aplicativo, de forma dinâmica. Em outras regiões, onde é possível alugar veículos protegidos em locadoras tradicionais, o aumento da procura também foi sentido. Na Bahia, por exemplo, a Abrablin identificou que no primeiro semestre de 2025 o número médio de blindagens subiu de 22 para 35 por mês, um aumento de 60% em relação ao período em 2024.

Presidente da associação, Marino Maciel frisa que principal objetivo do veículo blindado não é evitar os incidentes de violência, mas fazer com que os tripulantes consigam fugir em segurança de situações de perigo. Para Maciel, a blindagem automotiva, antes vista como um artigo de luxo, vem transformando-se em um desejo de consumo social:

— Hoje vemos muitas pessoas optando por comprar um carro usado ou seminovo só por ser blindado. Já existem materiais mais em conta e processos aprimorados que ajudam a popularizar o serviço. O recurso se tornou um ativo na hora da compra do veículo, como um dia já foi o carro ter ar-condicionado e vidros elétricos.

A médica Marcela Marchetti, de 32 anos, opta, invariavelmente, pelo aplicativo Rhino ao sair à noite pela cidade de São Paulo. Um fator que a faz escolher o serviço blindado é ter compromissos em localizações desconhecidas:

— O que mais me agrada é a possibilidade de poder solicitar um blindado de maneira rápida. Trouxe muita facilidade para o meu dia a dia e acabou virando um hábito. Conheci o serviço através de um amigo do trabalho, que me indicou no dia em que eu voltaria para casa sozinha após participar de um evento noturno.

Ao contrário das demais plataformas de transporte no mercado, a Rhino, primeiro aplicativo de blindados lançado no Brasil, em janeiro de 2024, não cadastra motoristas particulares. Para manter o padrão e garantir a segurança dos veículos, os condutores são contratados para conduzir a frota própria, que atende os cerca de 300 mil clientes cadastrados, por ora, só na capital paulista.

— A empresa tem como proposta tornar acessível um nível de segurança e conforto que antes era restrito a quem tinha carro blindado próprio — pontua o CEO e cofundador Daniil Sergunin, que teve a ideia de criar a plataforma ao ser aconselhado a comprar um blindado assim que chegou ao Brasil vindo da Rússia.

Influenciador focado em conteúdo ligado ao mercado de luxo, Ícaro Cattin, de 25 anos, acredita que esse tipo de serviço, ao qual também aderiu pela vantagem de ser intuitivo e similar a outros apps de mobilidade, vai além da grife:

— É muito mais por uma questão de segurança e hábito do que necessariamente de status. Em cidades como São Paulo, é algo que muita gente vê como parte da rotina de proteção em si.

Não é garantia

Pesquisador em segurança pública da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e coronel PM da reserva, Robson Rodrigues pontua que só o carro blindado não é garantia de segurança. Ele destaca a importância de que o motorista seja capacitado para dirigir o veículo, tendo conhecimentos sobre os diferentes tipos de revestimento, pontos de vulnerabilidade e manobras indicadas em momentos de tensão.

— Mas quando usado corretamente, traz sim mais segurança, esse é o objetivo. E não apenas para o passageiro, como também para o motorista. A gente tem visto o aumento de crimes contra o segmento, e a busca deles por uma maior segurança no serviço pode ser um dos indicativos para o aumento da disponibilidade desse tipo de transporte — opina.

Já o coronel José Vicente da Silva Filho, ex-secretário Nacional de Segurança Pública, sustenta que não há dados estatísticos de segurança que justifiquem a corrida rumo à blindagem. Ele lembra que houve uma redução, mesmo que leve, em crimes como roubo de veículo, que caiu 6% em 2024, segundo dados do Mapa da Segurança Pública de 2025. Vicente acredita, no entanto, que o aumento da procura pode se justificar pela evolução do próprio mercado, movido pela sensação de medo:

— As pessoas estão sempre buscando novos recursos para se sentirem mais seguras. Isso aconteceu com a instalação de câmeras de segurança, com a corrida atrás de equipamentos eletrônicos de proteção e agora com os blindados.