Médicos são presos por tratar manifestantes no Irã, e organizações humanitárias falam em ‘campanha de vingança’
Médicos estão sendo presos no Irã por terem prestado atendimento a parte das dezenas de milhares de pessoas feridas durante a repressão do regime a protestos contra o governo. Grupos de direitos humanos afirmam que as detenções integram uma “campanha de vingança” contra profissionais de saúde que se recusaram a ignorar manifestantes gravemente feridos — alguns baleados ou esfaqueados a curta distância — e que, em certos casos, chegaram a montar centros improvisados de atendimento. Ao menos um cirurgião corre risco de ser condenado à morte.
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Um dos casos mais proeminentes é o do cirurgião iraniano Alireza Golchini, de 52 anos, da cidade de Qazvin, no centro do país. Segundo o grupo de direitos humanos Hengaw, com sede na Noruega, Golchini foi acusado de “moharebeh”, termo que significa “travar guerra contra Deus” e pode levar à pena de morte no Irã. O Departamento de Estado americano pediu sua libertação. Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, o primo do cirurgião, Nima Golchini, que vive no Canadá, relatou que Alireza foi levado de casa em 10 de janeiro.
— Ele foi preso de forma violenta, na frente da esposa e do filho, que tem apenas 11 anos. Bateram nele com tanta brutalidade durante a prisão que quebraram seu braço e suas costelas e o arrastaram para fora de casa. Minha família está apavorada — disse.
Segundo Nima, poucos dias antes da detenção, Golchini — que também havia atendido manifestantes durante os protestos “Mulher, vida, liberdade”, em 2022 — publicou uma mensagem nas redes sociais compartilhando seu número de telefone e pedindo que pacientes feridos entrassem em contato para receber tratamento.
— Tudo o que ele fez foi cumprir seu dever de salvar vidas como médico. Ele jurou salvar vidas. Como qualquer médico poderia não honrar esse juramento? — afirmou. —Estou preocupado não apenas com ele, mas também com outros profissionais de saúde que foram presos simplesmente por respeitarem o juramento que fizeram.
‘Campanha deliberada’
Golchini é um dos pelo menos nove médicos e voluntários da área da saúde presos na última semana, segundo grupos de direitos humanos e profissionais do setor. A organização Iran Human Rights (IHRNGO), também sediada na Noruega, informou que forças de segurança invadiram abrigos médicos improvisados e residências de médicos e voluntários que atenderam manifestantes feridos. Não há informações sobre o paradeiro ou estado de saúde dos detidos.
— Isso parece ser uma campanha deliberada de vingança contra médicos e equipes de saúde que se recusam a abandonar os feridos — disse também ao veículo britânico Hossein Raeesi, advogado iraniano de direitos humanos que vive no exílio.
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A IHRNGO também relatou a prisão de um socorrista voluntário que havia transformado sua casa em um abrigo médico improvisado. De acordo com a organização, ele foi detido em 14 de janeiro, após forças de segurança invadirem sua residência, onde ele prestou atendimento a mais de 20 manifestantes feridos, dois dos quais morreram depois. Fontes disseram que ele foi levado “de forma brutal e espancado com violência”. Agentes quebraram as janelas da casa, destruíram o interior e danificaram o carro do voluntário durante a operação.
As autoridades iranianas não comentaram publicamente a detenção de Golchini nem confirmaram as acusações contra ele. O chefe do Judiciário do Irã, Gholamhossein Mohseni Ejei, no entanto, pediu que não haja qualquer leniência com os manifestantes.
— Não devemos permanecer em silêncio diante daqueles que buscam explorar a situação e perturbar a segurança e a tranquilidade da população — afirmou.
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De acordo com a Human Rights Activists News Agency, organização americana cujos dados foram considerados confiáveis em repressões anteriores, mais de 6 mil mortes foram verificadas, e outros mais de 17 mil óbitos estão ainda sob investigação. Já segundo a organização Human Rights Activists in Iran, com sede nos EUA, ao menos 42.324 pessoas foram presas em todo o país, com informações limitadas sobre o destino de muitas delas. A entidade diz que o regime vem pressionando redes médicas como estratégia para reduzir o apoio aos feridos.
— Essa perseguição ao pessoal médico é mais uma dimensão dos crimes contra a humanidade cometidos pelo regime — afirmou Mahmood Amiry-Moghaddam, diretor da IHRNGO.
Em comunicado publicado no X, o Departamento de Estado dos EUA exigiu a libertação de Golchini e de “todos os médicos corajosos que ajudaram seus compatriotas”. A nota acrescenta: “O presidente Trump deixou claro que nenhuma execução deve ocorrer no Irã e que haverá consequências se o governo tomar esse tipo de medida.”
