Média de dois aportes por mês: como o dinheiro dos aposentados no Rioprevidência foi escoado para tentar salvar o Master

Média de dois aportes por mês: como o dinheiro dos aposentados no Rioprevidência foi escoado para tentar salvar o Master

 

Fonte: Bandeira



“Saindo do Senado. Qual o endereço?”, escreveu o então governador do Rio, Cláudio Castro (PL), numa terça-feira de dezembro de 2024, ao banqueiro Daniel Vorcaro, que o aguardava em sua residência em Brasília. Naquela noite, minutos após dar entrevista no Congresso alegando que o Rio “não se endividou em nenhum real” sob sua gestão, Castro encontrou-se com o dono do Banco Master para alinhar o primeiro de uma série de R$ 2 bilhões em aportes em fundos geridos por Vorcaro. O valor, que se somou a outros R$ 970 milhões pagos anteriormente, caracteriza uma operação com “ausência de racionalidade econômico-financeira”, segundo a Polícia Federal.

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Os aportes, com verba do Rioprevidência, expõem a atuação bilionária de Castro e aliados, durante dois anos — entre 2023 e 2025 —, para irrigar o ecossistema de Vorcaro com dinheiro que deveria pagar aposentadorias no estado. As investigações da PF apontam que o esforço se intensificou após o Master afundar em problemas de liquidez e em paralelo a encontros festivos entre Castro e Vorcaro, que incluíram uísque, feijoada e cerveja. Castro foi alvo de operação da PF, na segunda-feira, que apura sucessivos aportes do Rioprevidência, dos quais R$ 2,9 bilhões tiveram suas datas mapeadas pela PF. O Master foi liquidado por gestão fraudulenta no fim de 2025, o que traz incerteza sobre a devolução dos recursos.

A sangria do Rioprevidência começou em outubro de 2023. Na ocasião, segundo mensagens obtidas pela PF, o operador financeiro Ricardo Siqueira Rodrigues — que chegou a ser preso pela Lava-Jato por atuar em fraudes com fundos de pensão — explicou a Vorcaro que o instituto estadual tinha um “dono” e disse que era preciso alinhamento político para a liberação de recursos. Vorcaro, à época, buscava mais liquidez para seu banco. O Rioprevidência aportou, entre os dias 1 e 10 de novembro, R$ 120 milhões em letras financeiras do Master. No dia 6 daquele mês, mensagens obtidas pela PF mostram que Castro e Vorcaro marcaram um encontro na casa do banqueiro, em São Paulo.

De letras para fundos

Um ano depois, na ida de Castro a Brasília, o objetivo de Vorcaro era outro, de acordo com as investigações: atrair investimentos para fundos sob gestão do Master. À época, o Ministério da Previdência havia alertado fundos de pensão sobre o risco de comprar letras financeiras de bancos da mesma estatura do Master, em um recado velado contra o negócio. Àquela altura, o Rioprevidência já tinha R$ 900 milhões em letras do Master, e fez ainda uma última aquisição, de R$ 70 milhões, dois dias depois do alerta do ministério.

“Na hora que entra banco médio na história, realmente passa a ter uma série de critérios, um negócio absurdo”, reclamou Rodrigues, o operador financeiro, em diálogo com Vorcaro. “Indiferente do trabalho com a LF (letra financeira) seguir, acho que a gente precisa de alternativas para encerrar esse ano com pelo menos mais 1 bi (R$ 1 bilhão), 1 bi e meio (R$ 1,5 bilhão)”.

A alternativa apareceu no dia 19 de dezembro de 2024, dois dias após Castro deixar o Senado para encontrar Vorcaro. Naquela data, o Rioprevidência fez um primeiro aporte, de R$ 50 milhões, no fundo Arena, que havia sido criado pelo Master no dia anterior. Nos meses seguintes, o instituto estadual, sob o guarda-chuva de Castro, figurou como único cotista desse fundo, cuja rentabilidade era pior do que a da caderneta de poupança — fator que o Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ) considerou uma evidência do “desvio de finalidade” na aplicação financeira.

Veja linha do tempo dos aportes feitos pelo Rioprevidencia no Master e dos encontros entre Vorcaro e Cláudio Castro

Editoria de Arte

Três dias depois da benesse de Castro, Vorcaro elogiou um vídeo em que o governador do Rio cantava numa missa. “Canta demais! Arrebentou”, escreveu o banqueiro. “Você é meu amigo”, respondeu Castro.

O fundo Arena angariou, até setembro de 2025, R$ 1,37 bilhão do Rioprevidência. O instituto estadual também passou a aportar recursos no segundo semestre daquele ano em outros três fundos do Master — o Revolution, o Horizonte e o Texas I —, que somaram mais R$ 641 milhões a Vorcaro.

Foram, ao todo, 41 aportes mapeados pela PF, numa média de dois por mês, entre o primeiro e o último investimento. Nesse período, Castro e Vorcaro encontraram-se ao menos 12 vezes, muitas vezes em agendas restritas, longe dos olhos do público.

“Esse cenário de eventos petit comitê prestigiados pela presença do Governador eram sucedidos de aportes massivos do Rioprevidência nas letras financeiras, ou, posteriormente, no portfólio de fundos apresentados pelo Banco Master, de modo que se infere, de maneira contundente, que dali eram concebidos os investimentos em títulos podres”, diz a PF em seu relatório.

Carnaval, feijoada e churrasco

O primeiro encontro entre Castro e Vorcaro, como noticiado ontem pelo GLOBO, ocorreu em maio de 2023, quando o dono do Master reservou para o governador uma mesa no restaurante Nusr-Et Steakhouse, em Nova York. O cartão de crédito de Vorcaro, conforme documentos obtidos pela PF, registrou uma compra de US$ 13 mil (cerca de R$ 66 mil) no restaurante naquela noite. “Amigo, foi uma experiência incrível”, escreveu Castro a Vorcaro exatamente um minuto depois de a compra ser registrada no cartão do banqueiro. O restaurante é famoso por servir bifes folheados a ouro, avaliados em cerca de R$ 9 mil cada.

No ano seguinte, em maio de 2024, Vorcaro organizou uma nova ida de Castro ao mesmo restaurante, e também convidou o governador para degustação de uísque que reuniu caciques do Centrão.

À época, os sinais de falta de liquidez do Master, que existiam desde o fim de 2023, já tinham vindo à tona. A colunista do GLOBO Malu Gaspar revelou, em julho de 2024, que gerentes da Caixa haviam perdido seus cargos depois de se oporem à compra de R$ 500 milhões em letras do Master — em documentos internos, eles avaliaram a operação como “arriscada” e citaram “alto risco de solvência”. O Banco Central, ainda em maio, havia cobrado o Master a fazer “adequação da gestão de liquidez”.

Nada disso interrompeu o escoamento de recursos do Rioprevidência para o Master. A relação entre Castro e Vorcaro prosseguiu ao longo de 2025, quando o Master já havia esgotado a emissão de letras financeiras e avançava na captação de recursos através de fundos. Em março daquele ano, no sábado de carnaval, Vorcaro convidou o então governador para uma feijoada no hotel de luxo Vila Santa Teresa, na região central do Rio. Na segunda-feira, ainda durante o feriado, Castro sugeriu um encontro com o banqueiro “lá no camarote” — Vorcaro era o responsável por um espaço na Marquês de Sapucaí, local que recebe o desfile das escolas de samba do carnaval do Rio.

“Tem alguém que meu pessoal possa falar pra não ficar ‘semi-barrado’?”, questionou Castro a Vorcaro, que prometeu enviar um assessor para buscá-lo no camarote do governo.

Na terça de carnaval, ao sondar Vorcaro novamente sobre a possibilidade de um encontro, Castro recebeu do banqueiro um convite para uma “churrascada”, mais uma vez no hotel Vila Santa Teresa. Encerrando a semana festiva, no sábado seguinte, Vorcaro sugeriu a Castro um “brunch” dentro do Parque Lage, na Zona Sul da capital fluminense, e avisou que “Ciro deve ir” — a PF suspeita que trata-se de uma alusão ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), que havia apresentado no Senado, em agosto de 2024, um projeto conhecido como “emenda Master”, por beneficiar os negócios do banco.

“Destarte, depreende-se que o governador Cláudio Castro, com o propósito de se alinhar ao nababesco life style oferecido por Daniel Vorcaro e ainda auferir lucro, rifou e expôs a latente perigo o caixa de fundo composto pelo suor do trabalho de uma vida de professores, policiais, enfermeiros, dentre outras classes de servidores e pensionistas”, concluiu a PF.

Os aportes do Rioprevidência em fundos ligados ao Master se estenderam até o dia 1º de setembro de 2025. Dois dias depois, o Banco Central negou a tentativa do BRB, vinculado ao governo do Distrito Federal, de adquirir o Master, o que precipitou a liquidação do banco de Vorcaro e sua prisão por gestão fraudulenta.