'Me deu todas as condições de ser o homem que eu sou': palco da infância e do começo de carreira de Zico, Quintino brilha nos cinemas; veja trailer

 

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Antes dos gols de falta que atravessaram gerações, antes dos estádios cheios e da idolatria que ganhou o mundo, havia Quintino. Um bairro da Zona Norte onde a bola corria solta entre irmãos, onde a escola era extensão de casa e onde valores como respeito e coletividade eram aprendidos no cotidiano. É desse lugar que parte “Zico, o samurai de Quintino”, documentário que estreou na quinta-feira (30) em cinemas de todo o Brasil.

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Mais do que contar a trajetória de Arthur Antunes Coimbra, o filme desloca o olhar para as origens. Quintino não aparece como pano de fundo, mas como personagem central de uma história que começa muito antes da consagração nos gramados.

Zico em frente à casa onde cresceu, em Quintino, durante as gravações do documentário; ao fundo, a equipe de produção e dois de seus irmãos

Divulgação/Vinicius Santos

— Entendemos muito rapidamente que Quintino não era só um cenário para esse filme. Era parte essencial de quem o Zico é — afirma o diretor João Wainer.

O bairro, eternizado no apelido Galinho de Quintino, deixou de ser apenas ponto de partida e assumiu o centro da narrativa.

— Acho que Quintino acabou virando protagonista do filme, inclusive por conta do casamento do Zico, de ele ter se casado com a Sandra, que também morava em Quintino, de ter começado e ter sido descoberto ali. Isso por si só já seria o suficiente, mas acabou virando uma coisa muito maior. O título foi pensado porque o Zico é uma mistura do talento, da habilidade, da ginga e do improviso que ele aprendeu em Quintino, com os irmãos, com o pai, com a mãe, jogando bola na rua, com a disciplina, a resiliência e o senso de coletividade do japonês — diz.

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Essa combinação, presente em toda a trajetória do craque, ganharia nome anos depois.

— O japonês, no final da carreira dele, chegou a entender isso e deu um nome para isso, Spirit of Zico. Mas a gente entende que, desde o começo, ele já era essa mistura, a ginga, o talento e o improviso de Quintino com a disciplina japonesa — conta.

Placa fixada na fachada da casa em Quintino marca o ponto de partida da história: “Aqui nasceu Zico”

Divulgação/Vinicius Santos

No filme, essa ideia deixa de ser conceito e se materializa em imagens e lembranças. A equipe percorreu o bairro, passou pelos lugares onde Zico jogava quando criança, encontrou a casa onde cresceu, ainda preservada, e promoveu encontros familiares que ajudam a reconstruir esse início.

— Gravamos em Quintino, conseguimos passar pelos lugares onde o Zico jogava bola quando era criança. Encontramos a casa e fizemos o encontro dos três irmãos ali. Eles contaram histórias da época — diz Wainer. — Não precisamos fazer nenhum tipo de recriação. O filme foi filmado lá, e conseguimos um material de acervo interessante de Quintino, com imagens antigas, coloridas, de películas.

Mas é na fala do próprio Zico que o peso desse lugar se revela com mais clareza. Ao relembrar a infância, ele não fala apenas de futebol, mas de formação.

— Tudo que aprendi, meus valores morais, éticos, educacionais, surgiram todos em Quintino — afirma. — Foi com meus pais e com meus professores na escola.

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A escola, aliás, ocupa um lugar central nessa memória. Mais do que espaço de aprendizado formal, era também ambiente de afeto e construção de identidade.

— Na época em que eu estudava, no primário, era a mesma professora por cinco anos. Então, ela virava quase uma segunda mãe. Você ia feliz para a escola porque recebia esse carinho — lembra. — Elas não só ensinavam a ler e escrever, mas davam esse cuidado, esse olhar. Depois fiz o 6º ano ali em Quintino mesmo. Quando saí, já estava formado nos valores, já sabia o que era certo e errado. E por isso eu sou muito grato a Quintino, porque o bairro me deu todas as condições de ser o homem que eu sou.

Esse cotidiano, entre a rua, a casa e a escola, é apresentado no filme como base de tudo o que viria depois. A formação técnica, que o tornaria um dos maiores jogadores da história, aparece inseparável da formação humana.

— A rua, a escola, a infância, isso tudo é a base dos valores do Zico. Mas tem também a família de imigrantes — explica Wainer. — Essas famílias que chegaram a Quintino tinham uma coisa muito colaborativa, de um ajudar o outro. Isso ajudou a moldar o caráter dele.

O documentário costura essas origens com o restante da trajetória sem seguir o caminho tradicional das cinebiografias esportivas. Wainer detalha que, em vez de se apoiar apenas em gols e conquistas, o filme aposta em uma abordagem mais íntima, guiada por memórias, relações e escolhas. Entram em cena depoimentos de familiares, amigos e nomes históricos do futebol, além de um vasto acervo pessoal até então inédito — com fitas VHS, filmes Super-8 e objetos guardados ao longo de décadas. Entre eles, a camisa 10 usada na final do Mundial de 1981 e um caderno com anotações detalhadas de gols.

Entre as vozes que ajudam a contar essa história estão ex-companheiros e personagens centrais do futebol como Júnior, Carpegiani, Carlos Alberto Parreira e Ronaldo Fenômeno, além de nomes do jornalismo esportivo como José Carlos Araújo, Mauro Beting e Daniela Boaventura. Também ganham espaço a família: os três filhos e a mulher, Sandra.

As filmagens começaram em 2023, ano em que o craque completou 70 anos, e passaram por Quintino, por ruas do Rio e também pelo Japão, país onde ele se tornou pioneiro no desenvolvimento do futebol, do time operário do Sumitomo à seleção, que chegou a comandar.

Os jogos, lances e momentos emblemáticos estão presentes, mas aparecem atravessados por esse olhar mais humano. Em vez de uma linha do tempo, o filme constrói uma experiência que alterna memória, emoção e reflexão.

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A proposta era clara desde o início: ir além do que já foi visto.

— Mais do que as conquistas e glórias, venho aprendendo com ele lições que vão além do futebol, como humildade, respeito e gentileza — afirma Wainer.

Para Zico, o resultado também surpreende justamente por esse deslocamento.

— É totalmente diferente. A gente começa a pensar não só nos jogos, mas nas decisões, nas dificuldades, nas superações — diz. — O filme está emocionante porque fala da minha trajetória, e não do jogador de futebol. Me fizeram chorar várias vezes na sessão. Principalmente em momentos ligados a amigos e à família.

Essa mudança de foco se reflete também na forma como o documentário aborda momentos marcantes, como a ida para o Japão, outro eixo importante da narrativa. Lá, Zico ajudou a desenvolver o futebol local e encontrou uma identificação profunda com a cultura japonesa, baseada em disciplina e determinação.

— Se tivesse que definir minha carreira com uma palavra, seria determinação — afirma. — O samurai é isso, um guerreiro que acredita, que quer superar as dificuldades. Eu me encaixei bem nessa cultura porque nunca desisti.

Ao longo do documentário, passado, presente e futuro se entrelaçam. Há o menino que jogava bola na rua, o ídolo que encantou torcidas e o avô que hoje convive com netos e alunos. Em comum, uma mesma linha de valores.

— Eu quero que as pessoas entendam que não é só sobre futebol. É sobre respeito, simplicidade, coletivo. Eu joguei um esporte coletivo. Nunca ganhei sozinho. A falta de memória sempre foi um problema do nosso país — afirma Zico. — Faltam obras sobre o futebol brasileiro. Se você não preserva o passado, você não chega a lugar nenhum.

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