Mauro Paulino, ex-chefe do Datafolha: “Há uma clara tendência técnica de virada de Lula”

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

247 – Em uma análise estritamente técnica e fundamentada na evolução dos levantamentos demoscópicos, o sociólogo Mauro Paulino, que dirigiu o Instituto Datafolha por duas décadas e meia, afirmou na TV 247 que as curvas eleitorais do segundo turno consolidaram uma tendência real de ultrapassagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre Flávio Bolsonaro.

Participando do programa Boa Noite 247, Paulino conversou com os jornalistas da TV 247 sobre a mecânica dos números às vésperas da votação. Longe de qualquer triunfalismo ingênuo, o pesquisador explicou o rigor metodológico que sustenta a percepção de virada:

“Passei a vida toda dizendo que, para configurar uma tendência, é preciso ter pelo menos três pesquisas sucessivas mostrando resultados em movimento, mesmo que dentro da margem de erro. E é exatamente isso que os dados revelam.

A diminuição da distância é consistente. Há, sim, uma tendência técnica de aproximação e ultrapassagem de Lula sobre Flávio Bolsonaro.

A grande interrogação é se o tempo restante, com um aquário de indecisos cada vez mais restrito, será suficiente para consumar essa virada nas urnas.” A virada entre os jovens e a migração direta de votos

Ao dissecar as tabulações internas dos institutos, Paulino sublinhou que a recuperação de Lula não ocorreu apenas pela atração de votos nulos ou abstenções, mas por uma transferência efetiva de eleitores que antes declaravam apoio ao bolsonarismo no início do segundo turno. O sociólogo destacou a reviravolta expressiva entre as faixas geracionais mais jovens, impulsionada pela massiva presença nas ruas e pelas redes digitais:

“Entre os eleitores de 16 a 24 anos, no início de outubro, o Datafolha registrava 50% para Flávio contra 43% para Lula — sete pontos de vantagem para o adversário. Na pesquisa mais recente, o cenário inverteu completamente: Lula lidera com 47% a 42%.

Na faixa de 25 a 34 anos, Flávio caiu de 50% para 47%, enquanto Lula subiu de 42% para 46%. Isso é transferência direta de voto.

Pessoas que pretendiam votar no Bolsonaro no início do segundo turno agora escolheram Lula.” O “eleitor pêndulo” e a classe média não alinhada

Outro ponto central detalhado por Mauro Paulino foi o comportamento do chamado eleitorado independente, o “eleitor pêndulo”, que não possui fidelidade ideológica cristalizada e costuma definir o pleito nas últimas 48 horas: “O eleitorado brasileiro se divide historicamente em três terços desde 2018: um terço à esquerda, um terço à direita e um terço de não alinhados, que se concentram principalmente na faixa de renda de dois a cinco salários mínimos.

Nesse contingente, Flávio caiu de 45% para 40%. Quando esse eleitor começa a hesitar, ele primeiro transita para o voto branco, nulo ou para a indecisão, antes de eventualmente migrar para o outro candidato.

Esse movimento de descompressão já aconteceu.” Paulino explicou que o crescimento do medo em relação à volta e permanência do clã Bolsonaro no poder — aferido por pesquisas qualitativas e quantitativas — começou a superar as restrições ao governo atual, criando um ambiente favorável ao voto útil pró-democracia nesse segmento intermediário.

Precedentes históricos e o peso das últimas horas Questionado pela bancada sobre a viabilidade prática de uma eleição virar no “apagar das luzes”, o ex-diretor do Datafolha resgatou memórias históricas que testemunhou diretamente no comando do instituto:

“Não seria um fato inédito. Minha primeira eleição no Datafolha foi a vitória de Luiza Erundina contra Paulo Maluf em São Paulo, em 1988, que virou na boca de urna.

Vimos movimentos semelhantes com Mário Covas e na própria reeleição de Dilma Rousseff. A virada é um fenômeno real na história política brasileira.”

Paulino alertou, contudo, para a necessidade de prudência quanto ao fenômeno estatístico em que parcelas do voto extremista costumam ser captadas no limite inferior das pesquisas de véspera: “Para que se tenha uma certeza estatística confortável antes da abertura das urnas, a candidatura de Lula precisaria cruzar a pesquisa de véspera com cerca de dois pontos percentuais de vantagem.

Caso contrário, a apuração será tensa, voto a voto, decidida nos detalhes.” O fator do comparecimento e o papel do debate final

Por fim, Mauro Paulino listou as variáveis determinantes que vão selar o destino das urnas até às 17h do dia de votação: os reflexos do debate televisivo, a mobilização de base nas ruas e as condições climáticas e logísticas de transporte. “A abstenção no segundo turno tende a ser menor devido ao grau inédito de polarização e engajamento.

Vemos uma enorme procura por passagens rumo ao Nordeste e um envolvimento ativo da sociedade. O que vai sacramentar essa eleição são os ecos do confronto final e a capacidade de cada campo mobilizar seus eleitores para que ninguém deixe de comparecer.

A tendência de virada está desenhada; cabe à realidade das urnas confirmá-la.”

Publicação Original Brasil 247 brasil247.com
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