Maturidade e Carnaval: quando a vontade existe, mas o corpo e a vida mudaram
Ela ama carnaval, só que não consegue mais. Por não conseguir não entenda que ela não possa, nem mesmo que ela não queira. Não há nenhum impedimento, por exemplo, fÃsico que a impeça de pular ou dançar. Nem passional, como um namorado ou marido ciumento — desses ela não consegue nem passar mais perto. Muito menos falta de vontade. No fundo, no fundo, ela quer.
E sem essa também de que o carnaval mudou, que os camarotes hoje têm funk, sertanejo e que ninguém lá está para ver as escolas. Ela lembra direitinho do tempo em que virava noites no Sambódromo e, se você perguntasse às amigas se tinham gostado mais da Mangueira, do Salgueiro ou da Beija-Flor, elas seriam capazes de perguntar quem é Salgueiro; só estavam lá para prestar atenção nos paqueras. E os blocos mudaram? O povo tem memória curta. Houve uma época, lá pelos anos 90, em que o Rio andou fraco de blocos, e por pouco não perdeu de vez o carnaval de rua para Salvador.
É que ela se lembra dos sentimentos. Daquele frio na barriga de quando foi uma mulher apaixonada, e o carinha não dava certeza se eles passariam o carnaval juntos ou não, deixando tudo no ar (era não). E depois ela o encontrava no fim de um bloco, e o coração parecia saltar da garganta. Ela não perguntava nada, ele não perguntava nada, e eles sumiam da Humanidade — só retornando ao mundo no domingo depois das campeãs.
Ela se lembra também da própria inocência. Os pais alugavam, com um esforço danado, uma casa apertada na Região dos Lagos, e a viagem era uma procissão de engarrafamentos, isopor e criança reclamando no banco de trás. A praia era a lagoa de água morna e sem onda, onde eles se esbaldavam como se fosse o Caribe — e, no fim da tarde, vinha o prêmio máximo, pastel na birosca e direito a um único refrigerante. À noite, matinê no clubinho do centro, ela fantasiada de bailarina barata, meia-calça embolando no tornozelo, morrendo de medo dos bate-bolas. Medo de bate-bola, imaginem que privilégio ter só esse medo.
Ela se lembra também do amor profundo por sua escola de samba. Uma escola que não era Mangueira, nem Portela, nem Beija-Flor: não era rica. Por que mesmo ela foi torcer por aquela? Ah, por causa do pai. O homem torcia pelo América, ou seja, era um torcedor diferente. Nunca escolhia o óbvio, os flas e flus da vida. No primeiro tÃtulo da escola, ela chorou como bebê. Ali não era só ganhar; era provar que o improvável existe. Falando nisso, ela lembra a primeira vez que levou os filhos ao carnaval. Do primeiro, fez questão de costurar a fantasia, um super-herói. Ele tÃmido, ela emocionada. Para os outros, comprou fantasias prontas; a vida ensina a praticidade.
Então por que ela não consegue mais?
Ela teme descer e não reconhecer a própria alegria. Virar fiscal do passado, comparar o agora ao antes, medir o presente com a régua da juventude. Nenhuma ruga, nenhum pé de galinha envelhecem mais do que dizer que antigamente era melhor. Era só diferente. Mas eis que escuta uma cuÃca passando bem embaixo da sua janela. Coro desafinado, risada. Ela respira fundo e só com um rÃmel, um batom e um par de Havaianas, decide se juntar aos bons.
Dizem que a maturidade traz calma, recolhimento, uma certa distância do excesso. Talvez. Mas o maior presente que ela traz é entender que a felicidade não se repete; ela se transforma. E saber que, enquanto se vive, é tempo de se jogar.
