Se hoje um site de comércio eletrônico é desenhado para que uma pessoa entre, pesquise um produto, compare opções e clique em "comprar", a Mastercard acredita que uma parcela crescente dessas tarefas será realizada por um novo tipo de cliente: os agentes de inteligência artificial.
Para preparar empresas para esse cenário, a companhia está lançando o Agent Connect, solução que ajuda lojistas a adaptar sua presença digital para que agentes de IA consigam acessar catálogos, interagir com sistemas e realizar pagamentos em nome dos consumidores.
A novidade faz parte de um conjunto de serviços da Mastercard voltados ao chamado comércio agêntico, no qual sistemas de IA deixam de apenas recomendar produtos e passam a executar tarefas, incluindo a conclusão de uma compra.
"Hoje, todos os sites são legíveis por humanos, mas não são legíveis por máquinas", afirma Pablo Fourez, Chief Digital Officer da Mastercard, em entrevista a Época NEGÓCIOS.
"Eles são otimizados para o consumo humano.
Você entra, clica aqui, vê os anúncios.
O agente não se importa com a imagem.
Ele precisa ter acesso ao catálogo de uma maneira específica."
A ferramenta Agent Connect funciona como uma camada de serviços e APIs que permite adaptar a infraestrutura existente da empresa sem exigir a troca do processador de pagamentos.
A proposta é reduzir a complexidade provocada pelo surgimento de diferentes agentes e protocolos.
"A ideia é fazer com que, como comerciante, você não precise se preocupar com protocolos e agentes.
O serviço cuida dessa complexidade", diz Fourez.
O desafio das médias empresas
Embora possa ser utilizado por companhias de diferentes portes, Fourez vê uma utilidade maior para médias empresas.
Grandes varejistas já perceberam a chegada do comércio agêntico e têm recursos para desenvolver suas próprias estratégias.
Na outra ponta, pequenos negócios frequentemente terceirizam boa parte de sua infraestrutura digital para plataformas de comércio eletrônico.
No meio desse caminho estão empresas que mantêm parte da operação internamente e contratam fornecedores para outras etapas.
"Se você é uma empresa muito grande, tem uma equipe de estratégia e sabe o que está fazendo.
Se é muito pequena, isso está completamente terceirizado.
Se está no meio, tem muito mais perguntas do que respostas", afirma.
Pablo Fouez, Chief Digital Officer da Mastercard.
Divulgação
Entre essas dúvidas, segundo o executivo, estão questões como a compatibilidade dos meios de pagamento e a necessidade de adoção dos novos protocolos desenvolvidos para agentes.
Por enquanto, o Agent Connect começará a ser testado nos Estados Unidos.
A Mastercard pretende posteriormente expandir a solução para outros mercados, embora ainda não tenha divulgado um cronograma.
Fourez diz acreditar que a tecnologia chegará ao Brasil e cita a familiaridade do consumidor brasileiro com serviços digitais como um dos motivos.
"É um mercado muito atraente.
A população é muito digital, usa WhatsApp, celular.
É muito fácil entender por que isso viria para o Brasil também."
O Agent Connect é mais uma peça de uma estratégia que a Mastercard vem construindo para pagamentos realizados por agentes de IA.
O problema que a companhia tenta resolver vai além de permitir que um robô clique no botão de compra.
Se um consumidor disser a um agente para comprar determinado produto, por exemplo, comerciantes e bancos precisam conseguir identificar que aquela transação realmente foi autorizada pelo cliente – e quais eram exatamente os limites dessa autorização.
Para lidar com situações desse tipo, a Mastercard vem trabalhando em diferentes camadas de segurança.
Uma delas é o Agent Pay, estrutura baseada em tokenização e autenticação.
A companhia também adotou o conceito de "conheça seu agente", em referência aos processos de KYC ("know your customer") usados pelo setor financeiro.
A ideia é que o agente não se passe pelo consumidor.
Ele deve ser identificado como uma entidade distinta, autorizada a agir em nome daquela pessoa.
Colaboração entre parceiros
Fazer agentes de diferentes empresas comprarem em milhares de sites também exige que companhias de pagamentos e desenvolvedores de inteligência artificial falem a mesma língua.
Questionado sobre as conversas da Mastercard com empresas como OpenAI, Anthropic e Google, Fourez afirma que existe uma colaboração intensa entre os diferentes participantes desse novo mercado.
Segundo ele, as companhias que desenvolvem modelos e agentes querem oferecer uma experiência na qual a IA também consiga concluir ações, sem assumir diretamente a infraestrutura e os riscos envolvidos nos pagamentos.
É aí que entram empresas como a Mastercard.
"Elas querem entender como proteger o pagamento.
Querem trabalhar conosco e com outros.
Há muita colaboração nessa indústria", diz Fourez.
Novas ferramentas no Brasil
Foi também na Febraban Tech que a Mastercard Brasil revelou sua nova estratégia para crescer no país.
Segundo Marcelo Tangioni, presidente da empresa, o foco agora é o mercado de pagamento entre empresas.
“Os cartões de crédito têm hoje uma penetração de 57% no consumo privado.
Se adicionarmos o Pix, mais de 90% do consumo das pessoas físicas já é eletrônico.
O papel-moeda praticamente não existe mais no mercado, o que coloca o Brasil em uma posição de referência global.
Das dez maiores economias do mundo, talvez o Brasil seja o primeiro país a eliminar completamente o papel”, diz Tangioni.
Marcelo Tangioni, presidente da Mastercard Brasil
Divulgação
Nesse cenário, diz, faz sentido que a Mastercard se volte para pagamentos entre empresas.
“Se, no lado da pessoa física, somos robustos, dá para ver que as taxas de crescimento mudaram.
Continuamos crescendo, mas não tanto quanto há cinco anos.
Existe uma oportunidade gigante em uma área em que a indústria de cartões ainda é muito nascente: o mundo dos pagamentos entre empresas.
Essa é a nossa principal aposta agora.”
Segundo o executivo, os cartões de crédito movimentam R$ 4,5 trilhões anualmente no país - os números são da Abecs (Associação Brasileira de Empresas de Cartões de Crédito).
Mas apenas 9% desse valor corresponde a pagamentos entre empresas.
"Fizemos um estudo para entender o potencial dos cartões nesse universo.
Identificamos mais de R$ 3 trilhões em volume que já circula entre empresas, que podem vir a ser negociados usando cartões.
Obviamente, ainda estamos no começo e há muita coisa para construir.”
Dentro dessa estratégia, o universo das pequenas e grandes empresas é está no alvo da empresa.
Segundo Walter Pimenta, vice-presidente executivo de Pagamentos Comerciais e Novos Fluxos da Mastercard para a América Latina e o Caribe (LAC), a Mastercard desenvolveu uma nova proposta de valor para atrair esse público.
Walter Pimenta, vice-presidente executivo de Pagamentos Comerciais e Novos Fluxos da Mastercard para a América Latina e o Caribe (LAC)
Divulgação
"Analisamos a estrutura do produto PJ para pequenas e médias empresas e vimos muito rapidamente que ela era muito parecida com a do produto de consumo.
Então, decidimos criar novos benefícios", diz Pimenta.
Entre eles, está uma solução criada pelo parceiro Bee Digital.
A ferramenta faz uma análise de quão visível o negócio está no comércio eletrônico, em diferentes canais e acessos.
"Dependendo do nível de visibilidade, apresenta uma série de ações recomendadas para que o pequeno negócio se torne mais visível e se mantenha vivo no comércio digital", diz o executivo.
Outra estratégia para conquistar as pequenas e médias empresas foi proporcionar uma solução de cibersegurança, uma grande preocupação desses empreendedores.
"Temos um produto chamado My Cyber Risk que faz uma análise de quão expostos a loja ou o comércio estão a uma fraude ou a um ataque cibernético, e sugere proteções", afirma Pimenta.
Para as grandes empresas, a Mastercard está oferecendo ajuda no processo de reconciliação de pagamentos, o processo financeiro que envolve a correspondência e a comparação de registros de transação para que os pagamentos feitos ou recebidos sejam precisos e condizentes com os registros.
"Hoje isso é muito difícil para as grandes corporações, porque muitos pagamentos ainda são feitos por transferência bancária ou boleto", diz Pimenta.
A proposta da empresa é que as empresas passem a trabalhar com cartões virtuais nos pagamentos B2B.
"Nesse caso, o cartão virtual é único e específico para cada transação.
Se uma empresa A faz um pagamento para uma empresa B, consigo determinar que o pagamento é destinado a um fornecedor específico, definir o valor e a data-limite.
Todos os termos comerciais da transação podem ser incorporados ao cartão virtual", diz o executivo.
Isso permitiria uma reconciliação automática, diz, feita pelo próprio cartão.
"Também oferece garantia de pagamento ao recebedor e ajuda as empresas no monitoramento e na gestão do fluxo de caixa", completa Pimenta.
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