Os ataques começaram no fim de agosto, quando a historiadora Mary Del Priore anunciou o lançamento de “Histórias das mestiçagens no Brasil”, que ela organizou ao lado de Gian Melo, professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), para a editora da Unesp (Universidade Estadual Paulista). Eram xingamentos (alguns de caráter misógino), “uma torrente de palavrões” e até ameaças de violência física que chegavam pelas redes sociais, relata a autora. As mensagens davam a entender que a obra não deveria ter vindo à luz, que a mestiçagem não se prestaria mais a ser objeto de pesquisas acadêmicas e que os autores estariam protegidos pelo “pacto da branquitude”. 'Book charms': Livros-chaveiro que funcionam como acessórios viram aposta de editoras na Bienal de SP Marta Sanz: 'Tudo cabe na literatura: menopausa, câncer de próstata, alegria de viver' Assustada, Del Priore recorreu à Unesp, que contratou seguranças para escoltá-la durante a sessão de autógrafos na 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, encerrada no último domingo (13). Tirando um ou outro olhar torto, o evento ocorreu sem intercorrências. Em carta aberta ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), Del Priore afirmou que, ao contar aos colegas da Academia Brasileira de Letras que estava organizando um livro sobre mestiçagem no Brasil, um deles a parabenizou “pela coragem”. Depois dos ataques ao livro, ela entendeu por quê. — É gravíssimo: grupos de poder dentro das universidades querem controlar ideologicamente o que pode ser pesquisado e discutido. Meus colegas, em faculdades Brasil afora, se queixam disso o tempo todo. Muitos acadêmicos ficam em silêncio por medo dos alunos e das redes sociais — diz ela, que deixou a docência na Universidade de São Paulo em 2001 e vem se dedicando a escrever livros de História para o grande público, como biografias de José Bonifácio e de Dona Leopoldina, a primeira imperatriz do Brasil. — Me impressionou o silêncio da Universidade a respeito desse episódio de intolerância. Somos historiadores como quaisquer outros, só queremos entender melhor a nossa cultura, a nossa gente. A resposta que tivemos foi de uma violência desproporcional. Para evitar o simplismo Em nota, a Fundação Editora Unesp repudiou “qualquer tentativa de silenciamento, especialmente por meio de ameaças” e expressou “seu desagravo e sua solidariedade a Mary Del Priore, reafirmando seu compromisso com a liberdade intelectual, o respeito à pluralidade de perspectivas e o direito de pesquisadores e autores exercerem plenamente seu trabalho”. “A divergência e o debate são elementos indispensáveis à vida intelectual e a uma sociedade democrática. Nenhuma discordância, contudo, pode servir de justificativa para ameaças, intimidações ou qualquer forma de violência dirigida a autores, pesquisadores e demais participantes do debate público”, afirma a editora. Procurada pelo GLOBO, a Bienal do Livro de São Paulo afirmou que não iria comentar o caso. Ícone do terror latino: Mariana Enriquez fala de mudança para Austrália, mito da Argentina 'europeia' e função social da literatura “História das mestiçagens no Brasil” é uma obra de quase 500 páginas, voltada a leitores especializados, que reúne 17 ensaios de pesquisadores que há décadas se dedicam ao tema. “Sem explicações simplistas”, os ensaios investigam a miscigenação no país, um assunto “complexo”, “marcado por conflitos, trocas e resistências que vão muito além da genética”, informa o texto de divulgação da obra. “Em tempos de revisões históricas e debates sobre negritude, branquitude e pardismo, compreender as múltiplas raízes do Brasil é algo essencial para pensarmos no agora e no amanhã, com mais equidade, respeito e pluralidade. Assim, poderemos compreender melhor as complexidades da formação social e cultural do povo brasileiro”, escrevem os autores na apresentação. 'Nossa luta continua viva': Angela Davis fala de envelhecimento, troca intelectual com a esposa e ameaças aos direitos das mulheres Autor de um ensaio incluído no livro, um professor de uma universidade federal do Nordeste que prefere continuar anônimo disse ao GLOBO que, após o lançamento do volume, foi alvo de insultos homofóbicos de uma colega em seu local de trabalho e teve sua pesquisa desqualificada como “negação do racismo”. Segundo ele, essas “práticas agressivas nas universidades” e a “incapacidade de admitir o contraditório, o argumento divergente e o dissenso” acabam prejudicando “a luta importante, legítima e necessária contra o racismo”. Gian Melo e Mary del Priore, organizadores de 'História das mestiçagens no Brasil' (Unesp) Arquivo pessoal Acadêmicos com medo Também sob reserva, outro pesquisador disse que muitos acadêmicos têm medo de sofrer represálias se vierem a público em defesa do livro. — Há muito assédio moral — diz ele. Del Priore acredita que o livro tenha causado incômodo ao afirmar que a mestiçagem não resulta unicamente do estupro sistemático de mulheres escravizadas por seus senhores, mas também de encontros entre pessoas pobres, das mais diversas origens, que formaram “famílias plurais”, preocupadas com a ascensão social e a libertação dos filhos que nasciam no cativeiro. — É importante deixar claro que nós não celebramos o branqueamento nem o mestiço em detrimento do preto — afirma a autora de “Uma história da velhice no Brasil” (Autêntica). — Só queremos mostrar, através de documentos, que, desde o primeiro censo do Império, em 1872, o pardo já parece como maioria da população brasileira. Coorganizador do livro, Gian Melo insiste que “ninguém quer recriar o mito da democracia racial” e é preciso distinguir entre a “ideologia da mestiçagem” e a mestiçagem como fenômeno popular. A primeira foi uma ideologia de Estado que realmente visava a embranquecer a população brasileira. A outra é um fenômeno popular indissociável da cultura nacional. — Quem ler a obra vai ver que, em nenhum momento, negamos a violência e o racismo. Ninguém quer reviver a ideologia da mestiçagem, que é danosa e cujas consequências sofremos até hoje — diz ele. — A história da mestiçagem é uma história de violência, de imposição do poder, mas também de adequações. Com base em documentos contextualizados, mostramos que a mestiçagem não tem a ver só com reprodução sexual, mas com a cultura como um todo: alimentação, música, religiosidade, jeitos de falar. A mestiçagem marcou tanto o Brasil que não dá para dizer o que é europeu, africano ou indígena. Mas por que a mestiçagem, um tema clássico das ciências sociais brasileiras — de Gilberto Freyre a Darcy Ribeiro —, tornou-se um assunto tão controverso? Autor de “Metamorfoses do racismo: uma história do ativismo negro nos Estados Unidos” (Zahar), o historiador Flávio Francisco (que nada tem a ver com a polêmica em torno de “História das mestiçagens do Brasil”, diga-se) afirma que, de fato, nas últimas décadas, o assunto perdeu espaço na academia, em especial a partir do avanço das políticas afirmativas, que consideram negros aqueles que se identificam como pretos ou pardos. Nos últimos anos, cresceram as discussões sobre a chamada “parditude”, a identidade dos brasileiros miscigenados que não se compreendem como negros. No entanto, esse debate às vezes é apropriado por setores reacionários que, ao afirmar a mestiçagem, querem negar as tensões raciais que marcam a experiência brasileira e combater as políticas de cotas — este, porém, não é o caso da obra de Del Priori, afirma Francisco. Professor da Universidade Federal do ABC, ele afirma ainda que muitas vezes conflitos isolados entre professores e alunos em universidades a respeito do tema acabam criando uma barulheira desproporcional nas redes sociais. E faz ainda a seguinte ressalva: — Embora não seja sempre produto de violência sexual, a miscigenação foi sempre fruto de violência simbólica, porque mesmo as relações onde havia consentimento eram marcadas pelas hierarquias raciais que não estavam desconectadas da escravidão — afirma o historiador, que acredita que as discussões sobre miscigenação continuarão crescendo no país, pois contemplam “a subjetividade de pessoas que de fato não se encaixam em categorias como ‘branco’ ou ‘negro’”. O direito de estudar Como lembram as boas práticas acadêmicas, o melhor, então, é não evitar o debate e conduzi-lo de acordo com o espírito democrático que deve orientar a pesquisa intelectual — e não reduzi-lo à polarização e a agressividade das redes sociais.
É como escreveu Del Priore ao IHGB: “A História nos ensina a reconhecer os primeiros sinais da violência coletiva: a desumanização do adversário, a transformação da diferença em ameaça, a polarização sem saída, a crença de que certos fins justificam quaisquer meios. Conhecer esses mecanismos não garante que sejamos capazes de evitá-los. Mas ignorá-los nos torna muito mais vulneráveis a eles”. “A coragem necessária hoje parece ser outra e muito mais elementar: defender o direito de pesquisar, discordar, argumentar e conhecer o passado sem medo. Quando historiadores precisam de proteção para lançar um livro e um estudante precisa de proteção para expressar uma ideia, não são apenas eles que estão ameaçados. É a própria História que começa a sangrar”, concluiu a autora.
O Globo