247 – Diante do estado de mobilização permanente mantido pela oposição, o governo federal precisa estabelecer uma estratégia de comunicação constante com a população, sem redefinir todo o processo do zero a cada eleição. A análise é do publicitário Raul Rabelo, responsável pelo marketing da campanha à reeleição do presidente Lula (PT), em entrevista ao jornal O Globo.
A necessidade de prestar contas à sociedade sobre o mandato foi o motivo apontado por Rabelo para defender o foco no legado durante a primeira etapa da disputa. Na visão do marqueteiro, o movimento inicial das urnas acabou afetado por acontecimentos externos, como o desdobramento da crise do Banco Master, o que gerou desmobilização e faltas entre os eleitores de Lula ao criarem a falsa sensação de que o pleito estava ganho.
O resultado do primeiro turno acendeu o sinal de alerta no comando governista após a liderança alcançada por Flávio Bolsonaro (PL). A virada no segundo turno ocorreu por meio de um ajuste rápido na condução da campanha e de uma postura mais assertiva.
Essa mudança contou com a chegada de reforços na coordenação política — como o senador Camilo Santana (PT), o governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), e o senador eleito Rui Costa (PT) — sob a liderança do presidente Lula e a coordenação de Edinho Silva, presidente do PT. “O susto trouxe uma mobilização com mais força.
Foi natural que a gente reagisse com energia. No primeiro programa de TV do segundo turno, trouxemos aquela molecada que estourou de voto, como a Camila Jara, Ana Elisa, Guilherme Cortez.
Essa juventude começou a levar a campanha à frente. Houve também o movimento dos estudantes.
Tudo isso acendeu a fagulha”, explicou Rabelo. O marqueteiro rechaçou a tese de que a vitória tenha sido motivada unicamente pela rejeição ao adversário, sustentando que as urnas confirmaram o apoio ao projeto do presidente.
“Foi um ‘sim’ ao Lula. Mas é claro que do outro lado há uma rejeição.
É um modelo oposto a tudo que o Lula representa”, declarou. Sobre o confronto direto, Rabelo ponderou: “o adversário não foi só Flávio Bolsonaro.
Era a tentativa de criar um antiLula. Não foi tentativa de subestimar, mas de enfrentar quem estava no jogo.
Claro que, com o legado deixado pelo pai, o processo de comparação fica mais fácil. Se fosse um outro candidato, talvez fosse outra conversa”.
A intensificação do tom na reta final também respondeu ao interesse crescente do eleitorado e ao contraste entre as duas gestões. Questionado sobre a participação do ministro Sidônio Palmeira, Rabelo justificou a saída tardia do governo por conta das entregas da gestão que precisavam ser mostradas.
Em relação à presença da primeira-dama Janja na campanha, Rabelo negou qualquer orientação para reduzir sua aparição e destacou sua atuação nos bastidores. Foi Janja, segundo ele, quem auxiliou Rafael Fonteles a convencer Lula a gravar vídeos no formato de selfie para as redes sociais.
Já sobre a integração do deputado André Janones (Rede-MG) e a criação do grupo “Exército do Lula”, o publicitário afirmou que a iniciativa foi alinhada com o setor digital da campanha para manter o engajamento até a votação. “Ele tinha autonomia.
Criou o ‘Exército’ e colocou à disposição do presidente. Combinamos com ele muitas vezes: ‘vamos falar das perdas que o povo brasileiro pode ter’.
Havia linhas estratégicas”, disse. Sobre o bloqueio de links difundidos pelo parlamentar por determinação da Justiça Eleitoral, Rabelo negou o uso deliberado de conteúdos falsos.
“Nunca trabalhamos com desinformação. Sempre tinha alguma comprovação por trás, como reportagens.
O compromisso com a verdade é decisivo para o processo eleitoral. Se teve, em algum momento, alguma coisa que saiu, não foi por intenção de fazer fake news.
Pode ter sido um erro”, afirmou. Para o futuro da comunicação institucional do Poder Executivo, o marqueteiro defende a ocupação permanente dos debates públicos e o combate direto à desinformação, apontando a regulação das redes digitais como medida central.
“Essa temperatura alta é muito desgastante. Não dá para aguentar essa pressão toda.
Mas o governo precisa disputar as pautas. A desinformação é o que mais atrapalha.
Regular as redes sociais é um processo importante para qualquer democracia”, avaliou. E completou: “é sempre salutar ampliar a comunicação com a população.
Não dá para chegar de quatro em quatro anos e recomeçar todo o processo. A experiência da campanha serve para que o campo progressista possa ter uma comunicação mais perene e constante”.
Ao avaliar os fatores que consolidaram a aprovação da maioria do eleitorado, Rabelo apontou que a vitória resultou de um conjunto de medidas do governo — como o reajuste do Bolsa Família e as regras para apostas virtuais — somado a pautas aprovadas pelo Legislativo, a exemplo do fim da escala semanal de seis dias de trabalho por um de descanso.
Por fim, descartou qualquer possibilidade de assumir cargos na administração federal: “não tenho perfil. Não passa pela minha cabeça”.
Brasil 247