Marinheiros relatam medo e noites sem dormir enquanto EUA anunciam operação para liberar navios com 20 mil pessoas presas em Ormuz

 

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“Ninguém se importa com os marinheiros. O cessar-fogo não é para nós. É para as pessoas comuns.” O desabafo de Istique Alam, um comandante que está a bordo de um petroleiro dos Emirados Árabes Unidos, próximo à costa de Omã, resume a situação de cerca de 20 mil trabalhadores do mar que continuam presos no Estreito de Ormuz desde o início da escalada militar entre Estados Unidos, Israel e Irã, em 28 de fevereiro. Apesar da trégua em vigor desde 8 de abril, eles seguem impedidos de deixar a região. Ao mesmo tempo, o presidente americano, Donald Trump, anunciou uma operação, batizada de "Projeto Liberdade", para guiar as embarcações presas para fora da região.

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"Para o bem do Irã, do Oriente Médio e dos EUA, informamos a esses países que guiaremos seus navios com segurança para fora dessas vias navegáveis ​​restritas, para que possam continuar seus negócios livremente e com eficiência", escreveu o presidente, no domingo, em sua plataforma Truth Social.

Segundo Trump, a medida tem caráter “humanitário” e busca ajudar embarcações bloqueadas que enfrentam escassez de alimentos e suprimentos essenciais. A operação prevê o uso de destróieres com mísseis guiados, mais de 100 aeronaves e cerca de 15 mil militares, de acordo com o Comando Central dos EUA.

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O Irã reagiu com ameaças diretas. O general Ali Abdollahi afirmou que qualquer força estrangeira — “especialmente as forças militares americanas” — será alvo de ataques caso se aproxime ou entre no estreito. Autoridades iranianas também classificaram a iniciativa como uma violação do cessar-fogo.

Centenas de tripulações e embarcações estão retidas na região há mais de dois meses e seguem sem previsão de saída.

— Todo mundo quer voltar para casa. À noite, eu apago as luzes do meu navio porque não sabemos o que pode acontecer — relata Alam à CNN.

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Apesar da posição de comando, ele admite que sente medo.

— Sou um ser humano. Não sou um guerreiro. Sou um marinheiro — afirma.

Segundo estimativas da Organização Marítima Internacional (IMO, na sigla em inglês), agência da ONU, cerca de 2 mil navios estão parados na região, impedidos de cruzar o estreito após o fechamento imposto pelo Irã em meio ao conflito. A via marítima é estratégica para o transporte global de petróleo, e a paralisação tem impactos tanto econômicos quanto humanitários.

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O capitão afirma ter presenciado ataques de perto.

— Vi um caça atacar um drone — diz. — Muitas pessoas estão assustadas, porque não confiamos nesses líderes.

Como apelo, ele pede a reabertura da rota.

— Se querem lutar, lutem entre vocês, mas, por favor, abram o Estreito de Ormuz. Assim, a vida normal pode recomeçar — ressalta.

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Relatos semelhantes se repetem entre os tripulantes. Em entrevista à rede britânica BBC, o capitão de petroleiro Ramoon Kapoor descreveu ter testemunhado “diversos ataques, vários mísseis e explosões”, classificando a situação como “bastante tensa”. Segundo ele, a tripulação enfrenta níveis elevados de estresse e ansiedade.

Embora o cessar-fogo tenha interrompido os ataques, a incerteza persiste.

— Todos estão contando os dias [para voltar para casa] — conta Kapoor, acrescentando que muitos já começaram a arrumar seus pertences para uma possível liberação repentina.

Outro marinheiro, que conseguiu deixar a região, descreveu “caos total” e “pânico” a bordo após o início da guerra. Em depoimento à IMO, ele relatou “mísseis sendo interceptados e fogos no céu” e afirmou que a maioria da tripulação não conseguia dormir.

A situação levou países membros da ONU a condenarem formalmente a interrupção do transporte marítimo global pelo Irã, durante uma reunião em Londres. Uma resolução aprovada pela IMO afirmou que as ações do país representam risco grave à vida humana e ao meio ambiente marinho.

Apesar disso, o secretário-geral da entidade, Arsenio Dominguez, criticou o foco excessivo em debates diplomáticos, em detrimento de soluções concretas.

— Não vejo como essas discussões, procedimentos e votações ajudam os 20 mil marinheiros que estão há semanas retidos — afirma.

Enquanto impasses políticos persistem, trabalhadores do mar seguem à deriva, aguardando não apenas o fim do conflito, mas a possibilidade de, finalmente, voltar para casa.