Marina Lima fala sobre libido aos 70 anos: 'Não fico sensualizando, está em outro lugar'

 

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O próximo sábado promete ser catártico: uma das artistas mais emblemáticas do cenário pop nacional subirá ao palco da Fundição Progresso, no Rio. Na turnê “Marina Lima 70”, que começou em Porto Alegre, chega à capital fluminense no dia 25 e vai passar por cidades como São Paulo e Curitiba, a cantora e compositora carioca celebra quase cinco décadas de carreira e o novo álbum, “Ópera Grunkie”, lançado em março. A artista, que completou 70 anos em setembro de 2025, tem vivido altas doses de emoção na ribalta. Reúne seguidores das antigas e é acolhida com entusiasmo pela Geração Z, que a reconhece como pioneira em questões relacionadas a gênero e diversidade. “Minha carreira tem longevidade para uma pessoa que era ‘meio diferente’”, diz. “Hoje enxergo os shows como encontros. Preciso mostrar o amor pelo público. É o meu muito obrigada, minha retribuição. Ser a trilha sonora de um monte de gente não é brincadeira, não”, diz ela, que planeja cantar hits, como “Fullgás”, e novas canções.

A inteireza da compositora chama a atenção. Durante uma hora e meia de conversa, Marina falou sem travas sobre assuntos leves, como a alegria de estar a mil em cena e a nova música alto-astral “Olívia”, e assuntos delicados, como uma crítica negativa e a morte do irmão, poeta e parceiro Antonio Cícero, em outubro de 2024, por suicídio assistido, na Suíça. “Aconteceu um tsunami na minha vida. A coragem dele foi tanta que fui tomada por isso. Precisei expressar o que estava acontecendo comigo, falar ao mundo que o amo e o entendo, e que desejo continuar. O novo disco é sobre isso”, frisa. Outros lutos, como a morte da cantora e prima Preta Gil, em julho do ano passado, e do músico e amigo Alvin L, no começo deste mês, entram nessa elaboração: “Minha conta de perder gente, por enquanto, já deu”.

Na conversa, Marina discorre sobre tudo isso e a retomada do casamento com a advogada Lídice Xavier. A seguir, os melhores trechos da entrevista:

O GLOBO - De que maneira nasceu o novo álbum?

MARINA LIMA - Precisei atravessar aquele mar, da morte do meu irmão, para estar aqui. Ele colocou o sarrafo lá em cima... Eternizei tudo isso musicalmente, que é minha aptidão. O disco é uma grande homenagem ao Cícero. Também quis abraçar quem fica. Gosto da vida e sigo com a tocha.

Como recebeu a notícia de Antonio Cícero ter optado pelo suicídio assistido?

Tenho sorte de vir de uma família de intelectuais, de gente que batalha pelas ideias. Cícero estava elaborando a escolha há muito tempo. Se houvesse no Brasil, teria feito aqui. Devido à doença de Alzheimer, ele não estava feliz por não ser mais dono de suas faculdades, o que tinha de mais brilhante. Meu irmão me ligou na véspera para avisar. Ao mesmo tempo que fiquei surpresa, entendi na hora. Disse que aceitava e que o amaria para sempre. O problema da morte para mim, que fico, é saber que não terei mais pessoas da minha família para abraçar e beijar. Éramos eu, meu pai e minha mãe, e dois irmãos. Ele era o último (o economista Roberto Correa Lima morreu em 2002). Ele deixou uma filha, mas não a vejo muito por morar em Brasília. A decisão de Cícero foi totalmente racional. E digo mais: se houver vida depois da morte, vai ser um susto para ele, que era 100% ateu.

Acredita que a morte de seu irmão abre um debate sobre morte assistida no Brasil? O tema, assim como o aborto, enfrenta resistências.

O aborto considero ainda mais complicado por ser referente às mulheres. Os homens querem controlar, por meio de leis, o nosso corpo. A eutanásia também envolve religião, vida e morte. Já existem entidades no Brasil que defendem esse direito. Uma delas, chamada Eudecido (eudecido.org.br), me procurou. Eu, assim como o viúvo do Cícero, Marcelo (Pies, figurinista), virei membro dessa organização. Vivi outras perdas nesses anos: a Pretinha (Gil), que queria tanto viver. Alvin L, um cara super de bem com a vida e que não estava doente, morreu dormindo. Mas não me deprimi. Carrego todos eles comigo.

“Ópera Grunkie” ganhou uma crítica negativa da Folha de s.paulo, considerada agressiva por muita gente. Como lidou com ela?

Os homens cis vão ficar com ódio de mim, mas essa crítica passa pelo gênero feminino. As mulheres entendem que o disco é uma necessidade de falar, elaborar, não há intenção alguma de igualá-lo a trabalhos feitos 40 anos atrás. Não é nada disso. A vida, para mim, não parou. São críticos que não estão acostumados a mergulhar no feminino. Achei uma falta de interesse. Tomei um susto quando li o grau de agressividade. Escrevi no X: “Que loucura, que pena, que escroto”. E nunca mais escrevi nada. O que o crítico não poderia esperar, nem eu também, foi a reação que surgiu, pessoas indignadas. Tati Bernadi, Zélia Duncan, Cris Guterres, Ruth Manus e Elisama Santos gravaram um episódio chamado “Não ofendam a Marina Lima!”. Mulheres unidas me defendendo.

O que significa a palavra grunkie?

O Pablo Morais (ator), meu grande amigo, é fascinado pelo Kurt Cobain. Há uns 12 anos, em vez de ele falar “grungie”, disparou “grunkie”. Achei uma graça. Grunkie é alguém que acredita na vida e escolhe a leveza: ou você encara as coisas ou vai ficar naquele lugar de lamentação. É um estado de espírito, de liberdade. São pessoas reais, corajosas, que não pagam o preço da fama, leais e que gostam da vida. A Fernanda Montenegro é uma grunkie!

Como está lidando com os 70 anos?

Estou na aurora da minha vida. Está valendo a pena porque tenho saúde, não dependo de ninguém e trabalho muito. Tenho amigos novos e antigos. Nessa fase, pelo tempo adiante ser menor, é necessário filtrá-lo. Procurar uma rotina na qual ele sobre e na qual seja possível mais dedicação ao que dá prazer. Nessa idade, o trabalho é dobrado porque o corpo, a musculatura e o fôlego mudam, e olha que sempre fui muito ligada à saúde, nunca gostei de drogas e só bebo socialmente. Mas estou olhando numa boa por estar no lucro.

Você e a advogada Lídice Xavier se separaram em 2023 e reataram no ano passado. O casamento, agora, é em casas separadas?

Estamos juntas há 14 anos. Isso, para uma relação entre duas mulheres, é muito tempo. Sou monogâmica, mal dou conta de uma pessoa. Os casais heterossexuais partem para os filhos, viram outra coisa. Com 40 e poucos anos, quis ser mãe. O pai seria o Gringo Cardia (artista visual), mas não rolou e me aquietei. A separação de Lídice foi bem dura, ali corri o risco de cair em depressão. Então, joguei minha energia no trabalho. Ficamos separadas durante dois anos e voltamos, no fim do ano passado, numa viagem. Atualmente, é importante a gente se sentir inteira, em casas separadas. Mas acho que isso não vai durar muito: sinto falta do calor do dia a dia.

A cantora Catto disse numa entrevista que você é “absolutamente sexual, naturalmente sensual, sedutora e transgressora”. Que lugar a sensualidade ocupa na sua vida?

Olha, com 70 anos, naturalmente, isso não é uma coisa que predomine tanto. Tenho atração por coisas que me comovem, que passem pelo afeto. Não fico sensualizando com as pessoas, a minha libido está em outro lugar. Ela aparece quando fico muito emocionada ou impressionada com alguma coisa da Lídice, por exemplo. É uma coisa mais profunda, aí, eu pulso. Parei de fazer reposição hormonal aos 60 anos. Não por ter ficado desinteressada da vida nem por ter me “largado”. Quis entender melhor como eu seria sem aquele estímulo. Desejei encarar a velhice.

Quais são seus sonhos?

O futuro se faz diariamente. Quero ter as pessoas que amo por perto, saúde para levar a vida numa boa e fazer novas amizades. Sempre penso dez anos à frente. Estou me preparando agora para os 80.