Marido de mulher baleada por PM em SP questiona demora no resgate; atraso será investigado

 

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O marido de Thawanna Salmázio, morta durante uma ação policial na Zona Leste de São Paulo no último dia 3, esteve na sede do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) para depoimento nesta sexta-feira (10). Em fala à imprensa, Luciano Gonçalves dos Santos criticou a falta de urgência no atendimento à esposa e disse que se sentiu “de mãos atadas” ao vê-la pedir socorro. O possível atraso no resgate também é alvo de investigação pelas autoridades.

Reportagem de O GLOBO mostrou que Thawanna aguardou cerca de 32 minutos por atendimento após ser baleada pela policial militar Yasmin Cursino Ferreira, de 21 anos. O episódio ocorreu após os agentes desembarcarem da viatura para abordar o casal, depois de atingirem Luciano com o retrovisor do veículo enquanto ele estava na rua com a esposa.

— Eu acho que ele não relatou a gravidade da situação quando chamou a ambulância. Se tivesse dito que era uma emergência, talvez o socorro tivesse vindo com mais rapidez — afirmou Luciano, antes de depor. — Eu fiquei de mãos atadas. Só queria socorrer minha esposa — completou.

Imagens da câmera corporal do policial Weden Silva Soares, obtidas pela TV Globo, mostram o momento em que ele aciona o resgate:

— Copom, Rua Edimundo Audran, aciona o resgate — diz o agente.

Enquanto presta os primeiros socorros, ele pede que o chamado seja reiterado.

Para Luciano, no entanto, o que ocorreu não pode ser tratado como fatalidade, mas como um ato de crueldade.

— Ele disse que a gente estava bêbado, que estávamos brigando. Não é verdade. Falou que eu tropecei, mas eu não tropecei. Minha mulher não me empurrou em momento algum. A gente só estava indo para casa, comemorar o feriado — disse.

— A verdade vai aparecer para o Brasil inteiro. Nós não estávamos errados. Foi um ato de crueldade, não uma fatalidade — acrescentou. — Foi uma abordagem desnecessária. Ele bateu no meu braço, voltou e ainda me chamou com palavras ofensivas.

Procurada, a Secretaria de Segurança Pública informou, em nota, que “todas as circunstâncias são investigadas com prioridade pelo DHPP e por meio de Inquérito Policial Militar, com acompanhamento das corregedorias das instituições envolvidas”.

O caso

Imagens de câmera corporal mostram que a abordagem ao casal começou por volta das 2h58, quando a viatura entrou na Rua Edimundo Audran, em Cidade Tiradentes. Após a discussão com o casal, a soldado Yasmin efetuou o disparo contra Thawanna da Silva Salmázio, de 31 anos. O atendimento médico só chegou às 3h30.

Durante esse intervalo, o policial que dirigia a viatura tentou prestar os primeiros socorros. Ainda assim, um dos pontos que passam a ser analisados é o tempo entre o disparo e a chegada do atendimento, além de quando, exatamente, o socorro foi acionado.

Versões conflitantes e pontos em aberto

A investigação também busca esclarecer contradições sobre o início da abordagem. As imagens indicam que o retrovisor da viatura atingiu o braço do marido da vítima, o que deu início à discussão. A partir daí, há versões divergentes.

Testemunhas e familiares afirmam que Thawanna não iniciou agressão e que a policial desceu da viatura já em confronto com a vítima antes do disparo.

— Chegou oprimindo ela, deu um chute. Nisso que ela deu um chute, o policial estava com a mão na minha cabeça, com olhos arregalados. Teve disparo. Eu pensei que era bala de borracha — disse o marido à TV Globo.

Já a versão apresentada pelos policiais no Boletim de Ocorrência sustenta que o casal discutiu com a equipe, apresentava sinais de embriaguez e que Thawanna teria partido para cima da soldado, desferindo tapas, incluindo um no rosto. A policial afirma que o disparo ocorreu ao tentar se defender.

Outro ponto que ainda não está claro é a atuação da equipe após o tiro. As imagens mostram que uma segunda viatura chegou ao local poucos minutos depois, enquanto o resgate demorou mais de meia hora.

A ausência de câmera corporal na farda da policial que efetuou o disparo — por ser recém-formada — também limita a reconstituição completa dos fatos.

O caso é investigado pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) e também é alvo de um Inquérito Policial Militar (IPM). Os policiais envolvidos foram afastados das funções operacionais.

"A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP) informa que a ocorrência foi registrada no 49º Distrito Policial e encaminhada ao DHPP, que conduz investigação independente sobre os fatos.

Os policiais envolvidos foram afastados de suas funções e a PM que realizou o disparo teve a arma apreendida.

O caso também é alvo de IPM, onde inclusive, são apuradas as oitivas de outros agentes que foram acionados para prestarem apoio. As circunstâncias são apuradas com prioridade absoluta pelas polícias Civil e Militar, com acompanhamento das respectivas corregedorias. As investigações incluem a oitiva de testemunhas, análise de imagens captadas por câmeras corporais e a elaboração de laudos periciais, que já integram o conjunto probatório.

A SSP reforça que toda irregularidade é rigorosamente apurada e punida nas esferas administrativa e criminal e reafirma seu compromisso com a legalidade, a transparência e a proteção da vida."