Marcha nacionalista israelense é marcada por vandalismo, gritos de 'morte aos árabes' e confrontos em Jerusalém
Dezenas de milhares de nacionalistas israelenses tomaram as ruas de Jerusalém nesta quinta-feira durante o feriado do Dia de Jerusalém, que marca a anexação total da cidade em 1967, e é marcado por atos de vandalismo, agressões contra árabes e, neste ano, contra a imprensa do país.
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No começo do dia, o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, um dos mais radicais membros do Gabinete do premier Benjamin Netanyahu, entrou com um grupo de aliados no complexo da Mesquita do Domo da Rocha, sagrado para os muçulmanos e também para os judeus, que o conhecem como Monte do Templo.
Além de orações, Ben-Gvir estendeu ali uma bandeira de Israel, ato considerado pelo governo da Jordânia como uma “violação flagrante do direito internacional, uma provocação inaceitável e uma quebra flagrante do status quo histórico e jurídico”. Uma autoridade religiosa ligada ao governo jordaniano, o Waqf de Jerusalém, é responsável por supervisionar o local.
— Ben-Gvir não é um palhaço. Ele é Israel: 2026 — afirmou Aviv Tatarsky, pesquisador do grupo ativista Ir Amim, que prega a coexistência pacífica em Jerusalém, à rede al-Jazeera. — Ele faz parte de um governo e de uma sociedade que, apesar das guerras com o Irã e o Líbano, ainda prioriza a remoção dos palestinos, onde quer que estejam, acima de tudo.
Ministro da Segurança de Israel, Itamar Ben-Gvir, na entrada da Cidade Velha de Jerusalém
Ilia YEFIMOVICH / AFP
Nas estreitas ruas da Cidade Velha, dezenas de milhares de pessoas, incluindo muitos jovens e adolescentes, se aglomeravam para a chamada “Marcha da Bandeira”, organizada por grupos de extrema direita e conhecida pela violência extrema.
Moradores do Bairro Muçulmano, em sua maioria palestinos, fecharam as portas das lojas no começo do dia, e os que foram vistos em público foram agredidos com chutes, cadeiradas e cuspes. Palavras de cunho homofóbico foram ouvidas em quantidade, assim como gritos de “morte aos árabes”, "Maomé está morto" e “espero que seu vilarejo queime”.
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Ativistas de esquerda não escaparam dos ataques, e uma repórter do jornal Haaretz, que usava a devida identificação de imprensa, foi atingida por copos de café. Um outro jornalista teve o telefone celular roubado. Segundo a polícia, 13 pessoas, incluindo israelenses e palestinos, foram presas.
— A chamada Marcha da Bandeira sempre foi um evento violento — disse à al-Jazeera Ofer Cassif, do partido de esquerda Hadash, acusando o governo “fascista” de Netanyahu por incitar os ataques. — [A polícia não impediu] a violência, os linchamentos, a destruição de lojas, a agressão e os ataques contra palestinos na Cidade Velha e em toda a cidade.
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O chefe da polícia local, contudo, disse que a preparação para o evento foi “exemplar”, e que, com poucas exceções “tudo aconteceu em relativa calma”.
— O lado muçulmano continuará a viver no bairro e a fazer parte do seu tecido social. E quando isto terminar, a coexistência continuará, judeus e muçulmanos — acrescentou.
Nacionalistas israelenses perto do Portão de Damasco, na entrada da Cidade Velha de Jerusalém
Ilia YEFIMOVICH / AFP
O Dia de Jerusalém marca a anexação de Jerusalém Oriental por Israel, no contexto da Guerra dos Seis Dias, em 1967, e é um feriado nacional desde 1968. Mas nos últimos anos, os eventos na cidade sagrada para as três maiores religiões monoteístas do planeta se tornaram sinônimo de violência.
Os confrontos nas ruas estreitas da Cidade Velha são acompanhados pelas ofensas racistas dirigidas aos árabes, com menções a guerras nos Territórios Palestinos e episódios sangrentos. Há alguns anos, gritos de “Shuafat está em chamas” ecoaram pelas ruas, em uma referência ao adolescente palestino Mohammed Abu Khdeir, queimado vivo por colonos israelenses na cidade, em 2014.
Desde os ataques de outubro de 2023, o início da guerra em Gaza e no Líbano e, agora, a guerra suspensa contra o Irã, dizem especialistas, o evento ganhou uma camada adicional de agressividade.
— No ano passado, vimos muita violência, muita violência verbal, canções racistas, cusparadas, assédio a meninas voltando da escola — disse Nati, ativista de uma organização judaico-árabe que participou de uma espécie de cordão humano para proteger civis palestinos e suas propriedades durante a marcha, ao Haaretz. — A situação piorou. A cada ano fica pior. No ano passado, houve alguns episódios realmente assustadores.
