Maratonista do Quênia que fez história ao correr prova em menos de 2h é recebido com honras presidenciais em retorno ao país natal; veja
O maratonista Sabastian Sawe, do Quênia, foi homenageado nesta quinta-feira pelo presidente do país africano, William Ruto, após se tornar o primeiro atleta a completar uma corrida oficial em menos de duas horas. O feito histórico ocorreu no último domingo, durante a Maratona de Londres.
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Sawe, de 31 anos, cruzou a linha de chegada com o tempo de 1 hora, 59 minutos e 30 segundos, quebrando uma das marcas mais difíceis do atletismo e superando o recorde mundial anterior por mais de um minuto.
Na chegada ao Aeroporto Internacional de Nairóbi, na noite de quarta-feira, o avião que transportava o atleta foi recebido com uma saudação tradicional de jatos d’água. Em seguida, Sawe foi recebido na sede do governo, onde ganhou 8 milhões de xelins quenianos (cerca de R$ 310 mil).
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"Você não apenas quebrou um recorde. Você expandiu o horizonte do potencial humano”, disse Ruto durante cerimônia com autoridades governamentais e do atletismo. “Você fez o que muitos acreditavam ser impossível. Você tornou o impossível possível e, ao fazer isso, inspirou uma nação e o mundo.”
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O recorde anterior, de 2h00min35s, havia sido estabelecido pelo também queniano Kelvin Kiptum em Chicago, em outubro de 2023. Outro ícone do país, Eliud Kipchoge, chegou a correr a distância abaixo de duas horas em um evento especial realizado em 2019, mas a marca não foi homologada como recorde oficial.
Quem é Sabastian Sawe
Ao contrário de outros grandes nomes da maratona, o recorde histórico em Londres foi construído bem longe dos holofotes. Nascido em 1995, no Vale do Rift, no Quênia, Sawe cresceu em um dos principais celeiros de corredores de longa distância. A região, que já revelou gerações de campeões como o bicampeão olímpico Eliud Kipchoge, oferece uma combinação de sucesso, que envolve altitude, disciplina e cultura da corrida.
O vencedor da Maratona de Londres e recordista mundial da modalidade, Sebastian Sawe
JUSTIN TALLIS / AFP
Filho de agricultor de plantações de milho, ele seguiu esse caminho clássico. Correr, mesmo que sem estruturas sofisticadas, faz parte da rotina dos quenianos da região. Ele estudou na tradicional St Patrick’s High School, em Iten, uma das escolas mais associadas à formação de atletas de elite no país famoso por seus fundistas.
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Porém, diferentemente de outros compatriotas, Sawe não foi um fenômeno precoce. Ele iniciou a trajetória na corrida em distâncias mais curtas. A ida para as provas de fundo foi praticamente por acaso. Em 2019, o queniano chegou atrasado na competição e só pôde correr os 5.000 metros. E venceu. Nessa época, começou a acumular resultados mais consistentes, mas sempre de maneira discreta.
A entrada na elite, no entanto, teve seus percalços. Há seis anos, uma lesão no tendão e a pandemia pausaram sua evolução. Sawe continuou com sua rotina padrão de treinos até poder abrir as portas no mundo das Majors, enquanto ainda se destacava na meia maratona (foi campeão mundial dos 21km em 2023). A virada na carreira veio de forma certeira. Em sua primeira maratona, na prova de Valencia em 2024, ele venceu a corrida com um tempo competitivo de 2h02min05s.
As vitórias na Maratona de Londres (2h02min27s) e de Berlim (2h02min16s) no ano passado pavimentaram o caminho para chegar às ruas londrinas como um dos grandes favoritos. Mas o que ele fez no domingo não foi apenas vencer os extenuantes 42km. Sawe mudou os paradigmas do esporte, assim como Jim Hines fez nos Jogos Olímpicos do México em 1968 ao correr os 100m abaixo dos 10 segundos.
O feito não pode ser analisado sem levar em consideração a tecnologia do tênis utilizado por Sawe. Há anos, as grandes marcas do ramo buscam inovações para romper a barreira das duas horas, que por décadas foi tratada como limite fisiológico do corpo humano.
Sabastian Sawe, da equipe do Quênia, comemora com seu tênis Adidas após vencer com um novo recorde mundial durante a Maratona de Londres TCS 2026
Alex Davidson/Getty Images via Bloomberg
A Nike tentou sair na frente anos atrás com Kipchoge. Em 2019, o queniano chegou a correr abaixo das duas horas, mas o tempo não foi feito em uma prova oficial. Sawe correu com o Adizero Adios Pro Evo 3, modelo da Adidas desenvolvido para maximizar a eficiência energética. Com menos de 100 gramas, o tênis combina espuma de alta resposta e placa de carbono, criando um efeito de retorno de energia que reduz o custo fisiológico ao longo da prova de 42km.
Na prática, a tecnologia ajuda na economia de corrida (a quantidade de energia que o atleta precisa gastar para sustentar determinado ritmo). Segundo a Reuters, estudos e análises apontam que os "super tênis" podem gerar ganhos percentuais pequenos, mas decisivos em alto nível. Em uma prova de elite, uma melhora de 1% já significa alguns segundos ou até minutos de vantagem.
Ou seja, unido aos treinos de 240km por semana, a alimentação de carboidratos controlada ao longo da corrida e a hidratação perfeito, o "super tênis" deu o impulso final para uma nova era nas maratonas. Vale lembrar que os três primeiros colocados bateram o então recorde mundial de Kelvin Kiptum, com 2h00min35s.
A presença dos “super tênis” nas marcas alcançadas reacende o debate sobre os limites do desempenho esportivo. Há críticas que apontam para uma possível vantagem tecnológica, e há quem argumente que a evolução faz parte da história do atletismo. A World Athletics optou por um meio termo. A entidade passou a regular esses modelos, estabelecendo limites técnicos, mas sem impedir seu uso. Há limites de espessura e de placas de caborno nos calçados utilizados em provas oficiais.
— O tênis é muito bom, muito leve, confortável e oferece bastante suporte, além de impulsionar para frente — disse Sawe, negando que o uso da tecnologia pode ser considerado doping. — Absolutamente não, porque o tênis foi aprovado. E acho que não há dúvidas sobre isso. Então eu também não tenho dúvidas.
