Maratona de beijos: como curtir o Carnaval sem descuidar da saúde bucal

 

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No carnaval, o beijo vira quase um idioma oficial. Entre bloquinhos, festas e madrugadas quentes de verão, a troca de olhares costuma terminar em troca de saliva e muita gente encara isso como parte do roteiro da folia. Mas, no meio da euforia coletiva, vale lembrar: beijar é delicioso, mas também é biológico. E a saúde da boca pode dizer muito sobre como a Quarta-Feira de Cinzas vai começar.

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“A boca é uma das regiões mais vascularizadas e expostas do corpo humano. E mesmo que o organismo tenha anticorpos capazes de combater boa parte dos invasores, não dá para contar com a sorte o tempo todo. Durante o Carnaval, o risco de transmissão de doenças pelo beijo aumenta drasticamente”, alerta o cirurgião-dentista Anderson Bernal, especialista em Odontologia Estética e Reabilitação Oral.

Em outras palavras: o beijo é democrático, mas vírus, bactérias e fungos também são.

O que pode ser transmitido no beijo?

Entre as doenças mais associadas à troca de saliva estão a mononucleose (conhecida como “doença do beijo”), o herpes labial (HSV-1) e a sífilis, especialmente quando há feridas na boca. Problemas bucais como cáries transmissíveis, gengivite e periodontite também entram na lista.

Apesar dos benefícios físicos e mentais, o beijo pode trazer problemas de saúde

Freepik

O cirurgião bucomaxilofacial Gabriel Campolongo explica: “Sim, varias doenças podem ser transmitias pela saliva ou pela presença de alguma ferida na cavidade bucal, por isso precisamos tomar cuidado. Inclusive existem lesões que nem a pessoa sabe que tem, por isso, o ideal é prevenir-se e ter cautela mesmo em épocas de festa como essa.”

Ele detalha ainda quais quadros inspiram mais atenção: “As doenças mais comuns são como mononucleose, herpes labial ou sífilis, principalmente quando existe algum ferimento na cavidade bucal. Se houver feridas expostas mesmo que internamente há risco até de HIV quando existe sangramento na cavidade bucal, ou seja, o vírus não é transmitido pela saliva.”

Ou seja: a saliva, sozinha, não transmite HIV. O risco está associado à presença de sangue e lesões abertas.

Copo compartilhado? Melhor não.

Marca do copo térmico que virou objeto de consumo em diferentes grupos sociais circula nos blocos do Rio desde o pré-carnaval deste ano

Hermes de Paula / Agência O Globo

No calor do bloco, dividir lata, copo, garrafa ou até o canudo pode parecer inofensivo. Mas não é.

“O vírus pode sobreviver fora do corpo humano por isso é importante evitar compartilhamento de objetos que tenham tido contato com a saliva. Sendo assim é preciso evitar o compartilhamento de latas, copos, canudos, garrafas e talheres, sim!”, afirma Campolongo.

Além dos vírus, bactérias responsáveis por infecções bucais também podem circular nesses objetos — especialmente em ambientes quentes e com pouca higiene.

Beijar várias pessoas aumenta o risco?

A dúvida é comum e faz parte do imaginário carnavalesco.

“Uma contaminação cruzada é mais difícil, pois o vírus não se desenvolve rapidamente para um novo hospedeiro ser um novo contaminante, a possibilidade mais fácil nesta situação seria alguém que já tem a doença contaminar várias pessoas”, explica o especialista.

Ainda assim, quanto maior for a exposição, maior a probabilidade estatística de entrar em contato com alguém infectado. Some a isso desidratação, lábios rachados pelo sol e noites mal dormidas, e o cenário fica mais vulnerável.

Dá para se proteger?

Escovar os dentes entre um bloco e outro ajuda na higiene, mas não é escudo contra vírus.

“Não, pois a contaminação já vai ter acontecido. É claro que a higiene bucal é essencial com a escovação acontecendo ao longo do dia, mas isso não vai te proteger de uma contaminação”, pontua Campolongo.

Isso não significa relaxar com os cuidados. Pelo contrário: manter a saúde bucal em dia é parte fundamental da prevenção. Evitar beijar pessoas com lesões aparentes (como herpes ativa), prestar atenção a sinais de febre ou mal-estar e confiar na própria intuição são atitudes simples que fazem diferença.

“Para reduzir os riscos, é recomendado evitar compartilhar bebidas e estar atento a sinais de infecção (como herpes ativa) na outra pessoa antes de beijar. Além disso, o bom senso é primordial, ainda mais na época atual, sem falar nas transmissões virais que temos por contato sem máscara, lembrando que o Covid ainda está aí e suas mutações”, reforça.

E quando o beijo evolui?

O alerta também vale para o sexo oral. “Além disso, tem que tomar cuidado com o sexo oral, algumas doenças como HPV, gonorreia, clamídia e candidíase oral podem ser transmitidas ou adquiridas por esta via de contato. Ainda, é preciso evitar o uso de garrafas que deixam o canudo ou superfície em que vamos encostar a boca exposto. A exposição do canudo pode ser a origem de outras doenças, principalmente bacterianas, e a transmissão viral só irá ocorrer se este canudo for compartilhado”, diz o especialista.

O uso de preservativo segue sendo indispensável.

Carnaval com saúde é mais gostoso

Em meio à liberdade e à celebração, informação também é poder. Beijar faz parte da experiência, mas não precisa vir acompanhado de arrependimento ou consultório lotado depois da folia. Como resume Anderson Bernal: “A saúde começa pela boca!”.

No fim das contas, o melhor look de carnaval ainda é aquele que combina brilho, autoestima e responsabilidade. Porque beijar muito é ótimo. Beijar bem, e com segurança, é melhor ainda.