Maranhão: aliados de Dino apoiarão PSD em disputa contra sobrinho do governador se candidato pedir voto a Lula

 

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Em meio à disputa pelo apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o grupo aliado do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino, formado por integrantes do PT e de outros partidos de esquerda no estado, articula uma chapa conjunta com o ex-prefeito de São Luís Eduardo Braide (PSD). Ele é o pré-candidato ao governo do Maranhão que aparece à frente nas pesquisas de intenção de voto. Do outro lado está o atual governador Carlos Brandão (sem partido), que é próximo de Lula e trabalha para ter o sobrinho Orleans Brandão (MDB) como sucessor.

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Integrantes do grupo político próximo ao ministro do STF, que foi governador do Maranhão entre 2015 e 2022, quando teve Carlos Brandão como vice, avaliam que falta apenas a confirmação de que o ex-prefeito irá pedir votos para Lula para que o apoio da esquerda à candidatura de Braide seja selado. A possibilidade da composição de uma chapa com o PSD foi confirmada ao GLOBO por Felipe Camarão (PT), vice-governador do estado que atualmente também é pré-candidato ao governo.

— No meu caso, só não existe possibilidade de fazer aliança com o sobrinho do governador. Meu diálogo está francamente aberto para uma composição com o Braide já no primeiro turno. Cogito ser candidato ao Senado, pela Casa Legislativa ser a prioridade do PT e do Lula nesta eleição — diz Camarão.

Já Brandão esteve na posse de José Guimarães na Secretaria de Relações Institucionais, em abril, e aposta na boa relação com o agora ministro para consolidar o apoio de Lula ao sobrinho.

— Além de fazer essa relação com a Câmara e o Congresso, ele (José Guimarães) também será responsável pela com os governos dos estados. Já temos uma agenda marcada para debater as parcerias que nós temos com o presidente Lula para que a gente possa avançar e tirar do papel tudo aquilo que a gente acordou com o governo federal — disse Brandão no dia da posse do ministro.

Ruptura selada

A ruptura entre os grupos de Brandão e de Dino foi selada no ano passado. Mas, o desgaste não é recente: o atual governador, inclusive, não foi convidado para o casamento de Dino, que reuniu políticos, como Camarão, e autoridades, incluído os então colegas da Suprema Corte Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso, em 2024, no Maranhão. Uma das razões da escalada do conflito envolveu o preenchimento de duas vagas no Tribunal de Contas do estado (TCE), no início de 2024 e de 2025. As indicações foram impedidas por duas ações em tramitação no STF sob relatoria do magistrado. As cadeiras não foram ocupadas até o momento.

O estopim para o rompimento definitivo, como revelou a coluna do GLOBO de Malu Gaspar, foi a divulgação de três gravações de conversas de aliados do ministro do STF com um interlocutor não identificado. Em uma delas o deputado federal Rubens Jr. (PT-MA) cobra a gestão de Brandão a cumprir acordos políticos na eleição municipal de 2024 para “liberar o TCE”. À época, o atual governador acusou interlocutores do ex-aliado de usarem o processo no STF para “chantagem”, enquanto parlamentares próximos a Dino alegaram terem sido alvos de “garimpos” do governo do Maranhão.

O racha no estado foi criticado pelo presidente Lula, que chegou a pedir aos dois campos que tivessem “responsabilidade” e evitassem “brigar dentro de casa”. O petista também argumentou, durante entrevista à TV Imirante, que o distanciamento poderia “dar aos adversários a chance de ganhar”. Apesar da insistência de Lula para que Brandão disputasse uma cadeira no Senado na eleição de 2026, o governador optou, no fim do ano passado, por permanecer no Executivo estadual, posição que agravou a tensão com Camarão.

O governador lançou a pré-candidatura do sobrinho Orleans Brandão — que atuou como secretário de Assuntos Municipalistas do Maranhão e é presidente estadual do MDB — em março, com jingle inspirado nas campanhas de Lula. “Olê, olê, olê, Orleans”, diziam os apoiadores no evento. Já Camarão afirma publicamente ser o "candidato do 13", mas aguarda uma decisão oficial do PT e vem apresentando dificuldade de decolar nas pesquisas.

Divulgada em março, a rodada mais recente da pesquisa Quaest no estado mostra Eduardo Braide a frente de Orleans Brandão e de Camarão. Em cenário de primeiro turno testado com os três nomes, o político do PSD aparece com 35%, seguido pelo sobrinho do governador, com 24%. Já o petista aparece com 7%, empatado tecnicamente com o ex-prefeito de São Pedro dos Crentes Lahesio Bonfim, do Novo, que tem 11%.

Braide também está na dianteira nos cenários de segundo turno mensurados com ele na disputa: tem 46% contra Orleans Brandão, que soma 33%, e aparece com 52% na corrida contra Bonfim, que aparece com 23%. O sobrinho do governador, por sua vez, lidera na simulação de um embate com o nome do Novo (42% contra 27%).

Possíveis afastamentos

Em meio ao cenário de indefinição sobre o caminho a ser adotado pelo PT no pleito, tanto o governador quanto o vice tiveram pedidos de afastamento dos cargos analisados pela Justiça.

Brandão é alvo de uma ação movida pelo PCdoB, sob acusação de descumprimento de decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, que determinou a exoneração de auxiliares do governo por nepotismo e nepotismo cruzado. O caso é julgado na Corte, e aguarda-se uma nova manifestação de Moraes. A defesa de Brandão afirma que a gestão estadual cumpriu as decisões e defendeu que o "rito de pedido de afastamento de um governador não passa pelo STF".

O PCdoB alega que três auxiliares de Brandão, incluindo o irmão do governador — que foi secretário de Assuntos Legislativos — continuam usando verba estadual e representando a gestão, na prática. No fim de março, a Procuradoria-Geral da República (PGR) se manifestou contra o pedido da sigla. A subprocuradora-geral Claudia Sampaio Marques afirma, no parecer, que não há elementos suficientes que comprovem o descumprimento das decisões judiciais. Ela ressalva, entretanto, que o partido apresentou fatos “inegavelmente graves” que devem ser apurados.

O julgamento é derivado de uma ação inicial apresentada pelo partido Solidariedade em 2024, que apontou a existência de 14 pessoas ligadas ao governador do Maranhão nomeadas para cargos e funções públicas que não têm natureza política. À época, a sigla tinha um grupo com proximidade a Dino. No mês passado, o Solidariedade solicitou a desistência do processo e defendeu a rejeição do pedido de afastamento de Brandão. A legenda alegou que a medida determinada por Moraes foi cumprida pelo governo estadual.

Já Camarão é alvo de investigação conduzida pelo Ministério Público estadual, que apura suspeitas de que o vice-governador teria participado de um esquema de movimentações financeiras atípicas com uso de “laranjas”. A prática envolveria ao menos R$ 6,3 milhões, além da aquisição de imóveis de alto padrão. Um pedido de afastamento do cargo de vice-governador foi feito pelo procurador-geral de Justiça do Maranhão Danilo José de Castro Ferreira, por meio de liminar, em março.

No mesmo mês, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) concedeu uma liminar para suspender a tramitação do pedido de afastamento do vice-governador. O ministro Og Fernandes apontou, na decisão, indícios de ilegalidade na condução do caso e determinou a paralisação do processo no Tribunal de Justiça do Maranhão (TJ-MA).

Camarão acusa Brandão de interferência nas instituições estaduais e classificou a investigação como parte de uma “campanha jurídico-midiática” em meio a disputa eleitoral deste ano. Ao GLOBO, o vice-governador afirmou que o antigo aliado “esperava dar um golpe jurídico” contra ele, mas “não conseguiu”.

Procurado pela reportagem, Brandão não quis comentar.