Mapeando a resistência à IA

Mapeando a resistência à IA - Foto
Fonte da notícia: Valor Valor

Os Estados Unidos são tanto o berço da revolução da IA quanto um dos lugares onde as pessoas menos apreciam essa tecnologia. De acordo com o relatório “2026 AI Monitor”, da Ipsos, 85% dos entrevistados na China, 80% na Índia e 77% na Indonésia acreditam que os produtos e serviços de IA oferecem mais benefícios do que desvantagens, em comparação com apenas 38% nos EUA, com porcentagens igualmente baixas no Reino Unido, na França e na Holanda.

É provável que tais atitudes moldem a adoção da tecnologia e suas implicações de longo prazo para o crescimento. No início do século XIX, no Reino Unido, os luditas ficaram famosos por destruírem os teares mecânicos que viam como uma ameaça ao seu sustento.

O Parlamento reagiu tornando a destruição de máquinas um crime capital. O exército foi mobilizado para reprimir os distúrbios, e o Reino Unido passou a ser considerado a oficina do mundo.

Em contrapartida, na China, as guildas de artesãos barraram automação nas indústrias do algodão, da seda e em outras até a virada do século XX. Embora o fracasso da China em se industrializar ao lado da Europa tenha tido muitas causas, os economistas Klaus Desmet, Avner Greif e Stephen Parente identificam o poder dos artesãos organizados de resistir às máquinas como um fator-chave.

Como qualquer sociedade relutante em adotar uma tecnologia não colherá seus benefícios, vale a pena entender por que a revolução da IA é bem-vinda em alguns lugares e enfrenta resistência em outros. Não se trata de uma divisão Oriente/Ocidente, considerando que apenas metade dos entrevistados japoneses vê mais benefícios do que desvantagens na IA.

Na mais recente Pesquisa com Especialistas sobre o Progresso em IA, publicada em setembro, o pesquisador mediano da área atribuiu uma chance de 10% de a tecnologia causar a extinção da humanidade ou uma perda de controle igualmente grave. No entanto, pesquisadores com formação na Ásia consideraram esses riscos maiores do que aqueles com formação na América do Norte ou na Europa.

Os especialistas que lidam mais diretamente com a tecnologia, situados na região do mundo mais otimista em relação à IA, mostram-se, na verdade, ainda mais alarmados do que seus pares ocidentais. O otimismo em relação à IA não reflete uma falha em considerar o que poderia dar errado.

E quanto aos riscos econômicos percebidos? Se as sociedades mais ricas estão mais comprometidas com o status quo, elas podem ter mais a perder com as rupturas tecnológicas. Mas os americanos com maior nível de escolaridade e alta renda estão mais entusiasmados com a IA, e não menos.

Pesquisa da Quinnipiac de 2025 aponta que 60% das famílias americanas com renda superior a US$ 200 mil esperam que a IA traga mais benefícios do que prejuízos em suas vidas, em comparação com 26% daqueles com renda inferior a US$ 50 mil. Mas esse padrão se inverte em uma comparação entre países: várias sociedades de renda média estão entre as mais otimistas, enquanto americanos, alemães e canadenses estão entre os mais cautelosos.

Será que isso reflete os recentes números de crescimento, em vez dos níveis de renda? Enquanto centenas de milhões de pessoas em toda a Ásia viram suas rendas aumentar, americanos, europeus e japoneses passaram as mesmas décadas se preocupando com salários estagnados, cidades industriais em declínio e o medo de que seus filhos tenham uma vida pior do que a deles.

Stefanie Stantcheva, da Universidade de Harvard, e seus coautores constataram que, quanto mais crescimento econômico as pessoas vivenciaram ao atingir a maioridade, menos propensas elas são a ver o mundo em termos de soma zero. Se o ganho de um grupo é a perda de outro, uma tecnologia que reorganiza o trabalho é uma ameaça.

Há muita verdade nisso. Há menos entusiasmo em relação à IA em economias em rápido crescimento, como Polônia e Irlanda, do que na Espanha e Itália, que cresceram muito menos; e a Argentina e a África do Sul estão entre as mais otimistas, apesar de uma geração de estagnação econômica.

A explicação mais plausível é que a IA tem significados muito diferentes dependendo do que uma sociedade já possui. Em economias ricas, ela compete com a expertise humana, que é cara; mas, quando introduzida em outros lugares, ela fornece expertise que nunca esteve disponível.

Uma paciente em Lyon, na França, que consulta um assistente de IA está comparando-o com um médico que ela poderia ter consultado; já uma paciente no Sahel pode compará-lo a uma clínica distante ou, muito provavelmente, a nada. As consequências para o mercado de trabalho também serão muito diferentes.

Em centros ocidentais como Londres e Nova York, a principal preocupação é que a IA generativa exerça pressão sobre a renda de advogados e contadores, para quem a tecnologia torna menos escassa a expertise conquistada com muito esforço. Mas um agricultor em Bihar (Índia), que nunca viu um agrônomo, terá uma perspectiva muito diferente.

Como não gostar de um sistema de IA que monitora previsões meteorológicas, condições do solo, doenças nas plantações e preços de mercado para indicar o que plantar, quando irrigar e se uma folha amarelada é sinal de praga? A IA não substitui ninguém na fazenda. Ela oferece ao agricultor um especialista que ele nunca teve.

Talvez o mais importante seja que, ao reduzir a diferença de produtividade entre novatos e especialistas, a IA pode impulsionar uma nova onda de terceirização nos países cujos cidadãos se mostram mais entusiasmados com ela. O GPS tornou desnecessário memorizar todas as ruas, permitindo que qualquer pessoa com carteira de motorista trabalhasse para a Uber e forçando os motoristas profissionais já estabelecidos a aceitar um corte salarial de cerca de 10%.

Outros serviços profissionais agora enfrentam seu “momento Uber”, mas com uma diferença crucial: ao contrário de uma corrida de táxi, o trabalho intelectual pode ser importado. As oportunidades de arbitragem salarial podem ser enormes.

Um contador de uma das “Big Four” (EY, PwC, Deloitte e KPMG) ganha US$ 76.000 em Nova York e US$ 3.000 no Cairo. Com a tradução automática eliminando a barreira linguística que antes limitava a terceirização ao mundo de língua inglesa, o trabalho pode ir para praticamente qualquer lugar.

Já estamos vendo isso acontecer. O escritório de advocacia Clifford Chance cortou um décimo de sua equipe de serviços empresariais em Londres, citando a IA, e transferiu o trabalho para escritórios de custo mais baixo na Índia.

Os prejudicados são os jovens recém-formados no Ocidente, que são os mais pessimistas em relação à IA. Assim como os luditas, eles não são inimigos irracionais do progresso, apenas percebem que não têm nada a ganhar com isso.

Mas a Revolução Industrial e a própria experiência da China servem de lembrete de que tais sentimentos podem ter consequências duradouras. Para se beneficiarem do boom de produtividade que a IA promete, os países que a desenvolveram devem garantir que aqueles que ela ameaça também participem dos ganhos.

Carl Benedikt Frey é professor associado de IA e Trabalho no Oxford Internet Institute e diretor do Programa Futuro do Trabalho na Oxford Martin School. Copyright: Project Syndicate, 2026.

www.project-syndicate.org

Publicação Original Valor valor.globo.com
Acessar no site oficial
Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X
Curadoria e Apuração Editorial QTU Conteúdo jornalístico publicado em conformidade com os nossos Princípios Editoriais e política de transparência.
Conhecer a Redação →