Mapa astral de viagem: astrologia vira ferramenta para escolher onde morar ou passar férias
Josh Rubin leva uma boa vida com seu marido, Evan Orensten. Eles estão juntos há 27 anos. Moram em Beacon, no estado de Nova York, com seu sealyham terrier, Rory. O trabalho deles na empresa de consultoria e mídia que fundaram, Cool Hunting, os leva a viajar pelo mundo inteiro.
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Ultimamente, eles vêm considerando começar um novo capítulo, possivelmente fora dos Estados Unidos. Eles têm uma lista de destinos em potencial, incluindo Paris, Berlim e Cidade do México. Mas querem ter certeza de que essa mudança permitirá que prosperem pelos próximos anos. Então decidiram experimentar algo novo para ajudar na decisão: astrocartografia.
— É uma forma de explorar quem você é de um jeito mais profundo e significativo”, diz Rubin, de 52 anos, que ouviu falar disso pela primeira vez por meio de um amigo. — É muito oportuno, porque Evan e eu temos conversas constantes sobre onde queremos envelhecer.
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A astrocartografia afirma funcionar examinando a posição dos planetas no momento do seu nascimento para determinar lugares do mundo mais favoráveis para alcançar seus objetivos. Ela é inspirada em matemática e astronomia, mas entra em conflito com a ciência moderna, religiões organizadas e céticos que zombam da ideia de que o movimento dos planetas possa afetar os planos de vida de alguém.
Ainda assim, vem se tornando cada vez mais popular entre empreendedores instruídos e de alta renda, profissionais do setor financeiro e até corporações.
Recorrer aos astros para planejar viagens, trabalhar ou escolher um lugar para morar está cada vez mais comum
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— A maioria dos meus clientes é do setor corporativo— diz a astróloga Clarisse Monahan, que mora em Berlim, que deixou um emprego na área financeira e o doutorado em 2019 para ingressar nessa área.
Em 2020, ela foi contratada como astróloga residente da Soho House. Segundo ela, não é algo tão distante de sua vida anterior.
— A astrocartografia é como finanças: você está mitigando riscos— afirma. — Se alguém está planejando uma mudança, isso é algo enorme. Eu apresento opções e mostro como será determinado lugar.
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Cerca de 30% dos adultos americanos consultam horóscopos, cartas de tarô ou videntes, segundo o Pew Research Center. Dentro desse grupo existe um amplo espectro: desde pessoas que apenas dão uma olhada no horóscopo diário até aquelas que pagam centenas de dólares por hora por consultas privadas regulares.
Para muitos, acreditar totalmente nisso nem é o ponto principal; usam como entretenimento ou escapismo. Outros recorrem à astrologia para obter uma sensação de estrutura em tarefas como comprar imóveis ou planejar férias.
—A maioria de nós também sofre bastante com fadiga de decisão, então qualquer coisa que possa simplificar, agilizar, orientar e até legitimar ou justificar nossos processos de tomada de decisão pode ser atraente— diz Michelle Pfeffer, historiadora da Universidade de Oxford que está escrevendo um livro sobre como a astrologia perdeu prestígio na cultura intelectual no século XVI.
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Os aplicativos de astrologia movimentam cerca de US$ 3 bilhões, valor que deve triplicar nos próximos cinco anos, segundo um estudo independente da Allied Market Research. O aplicativo Co-Star afirma ter 30 milhões de usuários registrados no mundo, sendo os EUA seu principal mercado. Monahan lançou o Maphrodite, um aplicativo proprietário de astrocartografia, em 2025.
Millennials e integrantes da geração Z impulsionam esse crescimento, especialmente mulheres: quase 45% das mulheres entre 18 e 49 anos dizem acreditar em astrologia, enquanto 20% dos homens na mesma faixa etária afirmam o mesmo, de acordo com o Pew.
"Uma crença profundamente enraizada no ocultismo, incluindo ao menos uma aceitação parcial do que o horóscopo prevê, coexiste com a vantagem tecnológica dos millennials em relação às gerações anteriores”, escreveram os coautores Samriddhi Chauhan e Eswara Prasad no relatório da Allied.
Embora antigamente fosse tabu admitir que você busca orientação nos astros, mais pessoas do que nunca estão abertas a isso, segundo astrólogos, terapeutas e acadêmicos. Eles atribuem isso aos tempos caóticos, à incerteza política e econômica que dificulta o planejamento de longo prazo, e ao fato de viajar estar cada vez mais imprevisível e caro. Para esses usuários, mesmo que os planetas não forneçam respostas capazes de satisfazer a todos, oferecem algo: orientação.
— O sistema mundial que prevaleceu no passado se deteriorou consideravelmente— diz Jane Greer, terapeuta familiar e matrimonial que atua em Nova York.
Muitos de seus clientes de alta renda usam astrologia como ferramenta para planejar negócios, investimentos, transações imobiliárias e até procedimentos médicos.
— Ser capaz de manter o foco, planejar metas e saber que podem seguir em frente com um projeto ou fazer aquela mudança é algo muito tranquilizador.
Um tipo diferente de previsão
Astrocartógrafos não afirmam ser médiuns. Eles não tentam contatar entidades espirituais nem acessar mundos paralelos. Dizem que seu trabalho é mais parecido com fornecer uma previsão do tempo: relatar condições esperadas de um lugar e momento específicos com base no mapa astral da pessoa — um retrato da posição dos planetas no dia e local do nascimento.
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Lauren Alexander é cofundadora e designer da LNA Clothing, além de cofundadora da Sistine Spritz, uma bebida de baixo teor alcoólico. Desde 2020, ela trabalha com a astróloga Rosie Cutter. No início deste ano, seguindo a orientação de Cutter, Alexander e sua irmã gêmea, Ashley Glasson — diretora de marca da LNA e fundadora da 199X Fragrances — decidiram mudar o tradicional destino anual de aniversário de Tulum, no México, para um local mais alinhado com seus mapas astrais.
— Ela tem essa habilidade rara de ser profundamente intuitiva e incrivelmente prática ao mesmo tempo, o que torna sua orientação excepcionalmente poderosa — diz Alexander, baseada em Los Angeles. “Eu não tomo nenhuma grande decisão sem antes verificar com ela o clima celestial.”
Quer abrir um novo negócio? Um astrólogo pode sugerir lançá-lo quando a influência de Mercúrio ou Júpiter estiver forte, já que esses planetas são associados à informação, transações, expansão e abundância.
Procurando amor? Talvez recomendem mudar para uma cidade alinhada a Vênus, que pode representar beleza e desejo. Não se trata exatamente de prever o futuro, mas de interpretar o ambiente. A crença subjacente é que, assim como a lua afeta as marés, a posição dos corpos celestes produz efeitos reais no mundo natural.
Astrologia usada além do horóscopo
Reprodução
— Antigamente, isso era usado para prever o tempo — diz Cutter, que realiza mais de mil sessões por ano, aconselhando clientes que vão de executivos da Fortune 500 até Dua Lipa. —Literalmente: ‘Ei, quando essa constelação aparece, costuma haver enchentes.
A astrologia remonta a milhares de anos, às civilizações que viviam onde hoje é o Iraque moderno, segundo Paul Thagard, cientista cognitivo especializado em filosofia da ciência e medicina. Gregos como Platão e Aristóteles elevaram a prática a um estudo sério no século IV a.C.; romanos e árabes a adotaram logo depois e a disseminaram por seus territórios.
No evangelho bíblico de Mateus, estrelas alertaram sábios vindos do Oriente sobre a chegada iminente do Messias. Figuras científicas como Ptolomeu e Johannes Kepler integraram a astrologia aos seus estudos.
Os primeiros almanaques agrícolas incluíam gráficos lunares e solares para auxiliar o planejamento agrícola, segundo a Morgan Library & Museum, em Nova York, que em 2024 apresentou uma exposição sobre a relação entre astrologia, política e abolicionismo durante os anos da Guerra Civil americana.
Índia e China possuem milênios de tradição contínua em sistemas como astrologia védica e BaZi. Muitas das principais universidades indianas oferecem cursos de astrologia, enquanto milhões de pessoas a utilizam para tudo, desde organizar móveis até escolher a data do casamento. O bilionário chinês Li Ka-Shing consultava o especialista em almanaques Choi Pak-lai.
Mas, até recentemente, a astrologia no Ocidente aparecia de forma intermitente na consciência popular, com momentos notáveis como a frequentemente ridicularizada relação de Nancy e Ronald Reagan com a astróloga Joan Quigley, e as diversas explorações astrológicas de John Lennon e Yoko Ono.
O setor deve crescer de US$ 15 bilhões em 2025 para US$ 27 bilhões até 2035, segundo a Market Research Future. As buscas pelo termo “astrocartography lines” aumentaram 250% no último ano, de acordo com o Google Trends.
— Comecei a ver isso crescer durante a Covid, quando todo mundo estava confinado— diz Monahan, em Berlim. —As pessoas começaram a pensar: ‘Para onde eu poderia ir se não precisasse ficar preso ao computador ou à hipoteca?’
Isso pode até se transformar em uma forma de terapia, já que consultas personalizadas oferecem orientação sob medida e espaço para reflexão. Durante minha sessão de 90 minutos e US$ 620 com Cutter, parecia que eu estava conversando ao mesmo tempo com uma coach, uma vidente e uma irmã mais velha.
— Berlim é um lugar excepcionalmente sortudo para você— ela diz sobre a única grande cidade alemã que eu nunca visitei. — Lá você se sente feliz em assumir riscos. Consegue navegar em um mundo dominado por homens. É um excelente lugar para iniciar novos empreendimentos.
Alguns setores corporativos estão ansiosos para capitalizar esse crescimento. A Royal Caribbean oferece “Cosmic Cruises”, ajudando viajantes a escolher destinos com base em seus mapas astrais para aumentar amor, sorte ou aventura.
Em 2024, a Delta Air Lines publicou listas de destinos elaboradas por uma astróloga residente. Retiros astrológicos na Suíça e no México oferecem leituras individualizadas; o Kilolani Spa, no Grand Wailea, oferece um programa astrológico inspirado no calendário lunar havaiano.
Impossível provar que está errado
Claro, os céticos são muitos. A astrologia era popular na República Romana — figuras como Júlio César tinham seus horóscopos elaborados — mas também enfrentava oposição de personalidades importantes da época, segundo Thagard, professor emérito de filosofia da Universidade de Waterloo, no Canadá.
“O verdadeiro problema da astrologia é que ela não é falseável: astrólogos não conseguem fazer previsões que, caso não se concretizem, os levem a abandonar sua teoria”, escreveu ele em “Why Astrology Is a Pseudoscience”, de 1978, observando que é importante notar a diferença para superar o “descaso público com a ciência genuína”.
Paul Byrne, professor associado de Ciências da Terra, ambientais e planetárias da Universidade Washington em St. Louis, concorda. Embora os corpos celestes tenham desempenhado um papel importante na marcação do tempo ao longo da história humana, ele afirma que não existe prova científica de que o alinhamento dos planetas influencie qualquer coisa na Terra além da força gravitacional.
— Não é tolice prestar atenção à posição dos planetas se você trabalha planejando trajetórias de espaçonaves— diz ele. — Mas, fora isso, considero útil apenas para apontar quais estrelas brilhantes no céu noturno são, na verdade, planetas.
Grande parte do interesse corporativo pode ser impulsionado mais pelo potencial de lucro do que por crença genuína, afirma Pfeffer.
— Minha impressão é que o motivo de o setor corporativo recorrer à astrologia é mais guiado pelo mercado— diz ela. — Pode haver muitos jovens liderando startups que levam astrologia a sério, mas eu ficaria surpresa se a crença real entre gestores corporativos fosse o único ou principal motor dessa mudança.
Representantes da Royal Caribbean e da Delta não responderam aos pedidos de comentário. Um porta-voz da Soho House preferiu não comentar.
Usuários de astrocartografia tendem a ignorar as limitações da ciência em explicar completamente sua prática. Cutter diz que usar linhas astrais para viagens funciona melhor quando você possui objetivos específicos ou uma intenção clara.
Perguntei se ela já precisou dar más notícias a clientes que já tinham planos de viagem. Não existe positivo ou negativo, respondeu ela. Tudo depende da perspectiva: uma nevasca iminente pode ser ótima para uma estação de esqui, mas representar um desafio — ou até perigo — para um esquiador iniciante.
— Se eu tiver uma linha menos agradável sobre um destino planejado, ainda assim vou viajar para lá— mas com maior consciência sobre possíveis atrasos ou problemas. Então, enquanto estiver lá, vou ser extremamente gentil com as autoridades.
— Aliás, existe uma cidade ainda mais auspiciosa para mim do que Berlim, diz Cutter. No meu mapa astral, Vênus ascende diretamente sobre Tóquio.
— Você literalmente se torna mais atraente lá. Seria um ótimo lugar para trabalhar, se você quisesse.
Estou planejando voltar. Por que não?
De volta a Nova York, depois de consultas com alguns astrólogos, Rubin e Orensten concluíram que Marselha, na França, complementa os mapas astrais de ambos. Eles planejam explorar a cidade litorânea ainda este ano.
—É difícil dedicar tempo para criar raízes em um novo lugar, mas esta é uma oportunidade de confirmar aquilo que faz sentido para nós dois como um lugar onde realmente poderíamos prosperar— diz Rubin.
