Manifestantes e polícia entram em confronto durante marcha contra o governo da Bolívia em La Paz

Manifestantes e polícia entram em confronto durante marcha contra o governo da Bolívia em La Paz

 

Fonte: Bandeira



Manifestantes de oposição ao presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, entraram em confronto com a polícia na capital, La Paz, em meio a uma marcha para exigir a renúncia do atual governo. Há seis meses no poder, Paz enfrenta uma crescente pressão social, principalmente de povos indígenas, agricultores e mineiros, que mantêm bloqueios de estradas há três semanas, em meio à pior crise econômica do país em quatro décadas.

Contexto: Presidente da Bolívia anuncia que fará mudanças em gabinete em meio à pressão de protestos e bloqueios nas ruas

Entenda: Vice-secretário de Estado dos EUA diz que protestos na Bolívia configuram tentativa de golpe contra presidente

Vestidos com capacetes ou ponchos, os manifestantes, muitos deles carregando bandeiras indígenas, avançaram em direção ao centro da cidade em meio ao barulho de rojões. Os acessos à praça de armas, em frente ao palácio do governo, foram protegidos por grades e vigiados por centenas de policiais de choque. Muitos comércios fecharam as portas, e vendedores ambulantes recolheram suas mercadorias por medo de saques.

— Seis meses de governo e ele não conseguiu resolver o básico, os preços da cesta básica. Temos que escolher entre comprar carne ou comprar leite — disse à AFP Melina Apaza, de 50 anos, da região mineradora de Oruro, no sul do país.

Perto das barreiras que protegiam o centro da cidade, a tensão no ar se traduziu em pedras, bombas de gás e granadas de efeito moral. Transeuntes, incluindo crianças, correram para escapar da confusão e se abrigaram em prédios e lojas. O trânsito na área foi completamente bloqueado. Não houve registro de pessoas feridas ou presas.

Após falta em audiência: Julgamento de Evo Morales por suposto tráfico de menor é suspenso na Bolívia

Em meio à convulsão social, o governo anunciou nesta semana que reorganizaria seu Gabinete com funcionários com “capacidade de escuta”. Na primeira mudança, nomeou um novo ministro do Trabalho. Ao assumir o cargo, Williams Bascopé prometeu abrir canais de diálogo com os manifestantes, afirmando que vai conversar com “todos os líderes que, de forma aberta e sincera, apresentarem propostas que sejam obviamente razoáveis”.

— Precisamos nos sentar e ouvir como podemos colaborar e onde falhamos, sempre colocando os interesses do país e de seus cidadãos em primeiro lugar. Não precisamos de arrogância, precisamos de humildade e sinceridade — disse, ressaltando que, embora o direito de protesto seja respeitado, ele “tem várias condições”. — Precisamos aprimorar essa prática. Precisamos sentar e conversar; não podemos nos ferir mutuamente.

O tom foi semelhante ao adotado por Rodrigo Paz, que, na quarta-feira, disse que não dialogaria com “vândalos”, mas que manteria as “portas abertas” para “aqueles que respeitam a democracia”. No mesmo dia, o ministro das Relações Exteriores do país, Fernando Aramayo, denunciou os grupos que participam dos protestos por buscarem enfraquecer o governo e alterar a “ordem democrática e constitucional”. Bascopé substitui o ex-ministro Edgar Morales, que apresentou sua renúncia para “pacificar o país”.

Combate ao narcotráfico: Bolívia retoma erradicação de plantações de coca após quase um ano de paralisação

As reivindicações iniciais por aumentos salariais, combustíveis de qualidade e estabilização da economia se radicalizaram com o passar dos dias. Agora, os manifestantes pedem a saída do presidente, que pôs fim a 20 anos de governos socialistas liderados por Evo Morales (2006-2019) e Luis Arce. O governo, por sua vez, alega que os protestos são orquestrados por Morales, um foragido da justiça por um caso de suposto tráfico de crianças.

Cerca de 50 bloqueios foram registrados nas estradas do país nesta sexta-feira, segundo dados oficiais. O governo informou que quatro pessoas morreram por não conseguirem chegar a tempo a centros médicos. Nos últimos dias, o governo foi obrigado a implantar uma ponte aérea, com voos de Santa Cruz (leste) e Cochabamba (centro) para abastecer a cidade com carnes e vegetais. Também anunciou um futuro “corredor humanitário” nas estradas. Nesta sexta-feira, um grupo de manifestantes bloqueou o acesso a aeroporto de El Alto, que serve a capital boliviana, impedindo a entrada e a saída de passageiros. A situação foi normalizada no início da tarde.

A Bolívia atravessa sua pior crise econômica desde a década de 1980. O país esgotou suas reservas em dólares para sustentar uma política de subsídios aos combustíveis, que o presidente Paz eliminou em dezembro, e sua inflação anual atingiu 14% em abril.

Crise: Bolívia tem novos confrontos entre polícia e manifestantes em meio a pressão por renúncia de presidente

Em meio à tensão, o Ministério das Relações Exteriores anunciou na quarta-feira a expulsão da embaixadora colombiana, Elizabeth García, por considerar que o presidente Gustavo Petro se envolveu em “interferência direta” nos assuntos da Bolívia. Petro descreveu os protestos como uma “insurreição popular” e, à rede colombiana Caracol Radio, reagindo à expulsão da embaixadora, afirmou que a Bolívia está “caminhando rumo ao extremismo”.

— A Bolívia, como está neste momento, merece se abrir para um grande diálogo nacional (...), ou a consequência poderá ser um massacre da população — acrescentou o presidente colombiano.

Na terça-feira, o governo Paz, um novo aliado do presidente Donald Trump, recebeu apoio público dos Estados Unidos. O subsecretário de Estado Christopher Landau expressou sua solidariedade, afirmando que a Bolívia está enfrentando um “golpe de Estado”. Em março, os EUA anunciaram o Escudo das Américas, uma aliança de segurança com 17 países da região, incluindo a Bolívia, para enfrentar o crime organizado.

A ascensão de Paz ao poder pôs fim a 20 anos de administrações socialistas lideradas por Morales e Luis Arce (2020-2025).