Mangueira e Portela levam Sacaca e Custódio para a Sapucaí; conheça as histórias dos homenageados
A Estação Primeira de Mangueira e a Portela, as mais tradicionais escolas de samba do carnaval do Rio, passarão pela Marquês de Sapucaí neste domingo apostando em homenagens para a disputar o título de 2026. As agremiações desfilam em sequência, o que proporcionará uma viagem do Rio Amazonas ao Guaíba na Avenida. Enquanto a Verde e rosa apresentará o enredo "Mestre Sacaca do encanto Tucuju - O Guardião da Amazônia Negra", a Águia de Madureira levará para a Avenida "O mistério do príncipe do Bará — a oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande".
As escolhas colocam no centro da Marquês de Sapucaí duas lideranças negras de grande relevância histórica e religiosa nos extremos do Brasil: o amapaense Mestre Sacaca e o príncipe Custódio, do Benim, fundador do Batuque no Rio Grande do Sul.
Guardião da Amazônia Negra
Mestre Sacaca nasceu em 21 de agosto de 1926, no Beco do Abieiro, na região central de Macapá, no Amapá. Seu parto foi realizado pelas mãos da parteira "Mãe Luzia", figura muito conhecida na região. Batizado como Raimundo dos Santos Souza, cresceu acompanhando a mãe, Joaquina Emiliana dos Santos, nas matas próximas.
O contato precoce com a natureza o aproximou dos encantados — entidades guardiãs da mata amazônica e fundamentais nas cosmologias indígena e ribeirinha — e dos conhecimentos xamânicos de diferentes etnias indígenas locais. No entanto, sua primeira professora foi a própria Dona Joaquina.
— A mãe entrava na mata para buscar lenha para o fogão e Sacaca ia junto. Nessas andanças a mãe ensinava quais eram cada planta e erva que encontravam pelo caminho, mas ele tinha um dom. É como se ao descobrir os nomes, ou ter contato com as ervas, ele lembrasse de algo que sempre soube — explica Fabio Sacaca, neto do homenageado.
Depois de aprender com a mãe durante anos, o ainda Raimundo decidiu aprofundar os saberes, buscando diferentes etnias indígenas da região para estudar e desenvolver suas capacidades.
Depois de muito estudo nas artes xamânicas, começou a ajudar amigos, parentes e vizinhos próximos com seus medicamentos, garrafadas e perfumes. Com o tempo, suas habilidades foram ganhando novos ouvidos e cada vez mais pessoas começaram a pedir suporte a Raimundo. Inclusive, figuras importantes da cidade, como a empresária Sarah Zagury.
Foi ela a responsável pelo "nascimento" de Sacaca. Após acompanhar o preparo de um medicamento, Sarah comentou com Raimundo que ele "era um verdadeiro Sacaca".
— Ele preparou um remédio para ela, enquanto ela acompanhava o processo. No final, ela disse que ele era um Sacaca, ou seja, um conhecedor das práticas das ervas, um doutor da floresta. Desde então, esse nome foi ganhando força e ficou — revela Fabio.
Conselheiro espiritual e comunitário
Além de um novo nome, Mestre Sacaca também precisou lidar com o aumento de procura pelos seus produtos. Assim, construiu um laboratório dentro de casa, onde produzia todo material utilizado em seus trabalhos. Também se tornou um conselheiro espiritual e comunitário. E, segundo a família, não cobrava pelos seus atendimentos: sua dedicação era movida pelo amor e pela empatia. O sustento ele tirava do seu emprego na Prefeitura de Macapá e das aulas de técnicas agrícolas que ministrava.
Sacaca casou-se com Madalena, com quem teve 14 filhos e 35 netos. Embora a família tenha o sobrenome Souza, a fama do patriarca fez com que o nome Sacaca passasse a identificar também seus parentes.
Em cima: José Antônio, José Raimundo, Maria José, José Carlos, Marilene, Nilson José. Embaixo: Maria de Fátima, José Aluízio, Madalena (Esposa), Maria Souza, José Rosemiro. Agachada: Lídia Maria
Arquivo pessoal
Mesmo após sua morte, em 19 de setembro de 1999, o reconhecimento de seu trabalho para comunidade amapaense continuou. Em 2018, Mestre Sacaca recebeu a mais alta condecoração da Divine Académe Française des Arts Letteres et Culture por seus conhecimentos medicinais. Teve ainda três livros com suas receitas publicados.
Mas, além da atuação religiosa e comunitária, foi figura central no desenvolvimento do carnaval de Macapá. Apaixonado pelos desfiles do Rio, ajudou a fundar a Boêmios do Laguinho, segunda escola mais antiga da capital amapaense, e mantinha amizade com integrantes da Maracatu da Favela, primeira escola da cidade e oriunda da Estação Primeira de Mangueira.
Mestre Sacaca também era multinstrumentista
Arquivo pessoal
A ligação com a Verde e rosa carioca nasceu dessa parte cultural. Como a escola do bairro da Favela tem origem na Mangueira, era comum a visita de sambistas do Rio ao Norte do país, que estreitaram laços com Sacaca.
Ele também foi o primeiro Rei Momo do carnaval de Macapá, posto que ocupou por 20 anos, até sua morte. Contribuiu para o surgimento de novas escolas e para a consolidação dos desfiles na cidade, além de ter sido um dos homenageados na inauguração do Sambódromo de Macapá. O evento foi marcado pelo momento em que foi feita a icônica fotografia de Mestre Sacaca ao lado de Dona Zica, importante figura mangueirense, compositora e esposa de Cartola.
Mestre Sacaca com a Rainha Moma Alice e ao lado, com vestido verde Dona Zica
Arquivo Pessoal
Mistério do príncipe do Bará
Já a Portela leva para a Sapucaí a trajetória do príncipe Custódio Joaquim de Almeida, natural do Benim, na África. Ele viveu parte da fase adulta em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, desde o início do século XX até sua morte, em 1935, aos 104 anos.
Responsável pela fundação do Batuque, principal religião de matriz africana do Sul do Brasil, Custódio era da nação Jêje (um dos ramos da religião) e seu pontapé inicial deu fruto. Atualmente, segundo o Censo de 2022, o Rio Grande do Sul é o estado com o maior percentual de adeptos de religiões de matriz africana no país. Além de importância religiosa, ele tornou-se uma figura de grande influência social e política no estado gaúcho.
— Custódio era uma figura atuante na religiosidade, na sociedade e na política também. Foi pai de santo de nomes importantes do Rio Grande do Sul, fez trabalhos para nomes como Borges de Medeiros e Júlio de Castilhos, ex-governadores do estado. Mas também tinha posses, riqueza que trouxe do continente africano e manteve aqui. Assim, ele também era um farol para os recém-libertos no Rio Grande do Sul — explica João Vitor Silveira, pesquisador e enredista da Portela.
Príncipe Custódio Joaquim de Almeida
Arquivo
A posição de liderança não era novidade. Custódio já havia experimentado a posição em Ajudá, cidade histórica que hoje corresponde a Ouidah, a cerca de 40 quilômetros de Cotonou, atual capital econômica do Benim. Lá, foi reconhecido como autoridade pelo próprio povo e, mesmo não havendo certeza de pertencer ou não à família real, a população passou a entendê-lo como seu verdadeiro príncipe.
Foi ainda na África que Custódio teve o primeiro contato com o Brasil — acredita-se que seu pai tenha sido um dos retornados, que eram os africanos escravizados conseguiram obter alforria em solo brasileiro e retornaram à África.
Ligação com a Inglaterra
Não existe documentação que constate os motivos que levaram Custódio a sair do Benim em direção ao Brasil. Mas sabe-se que chegou pela Bahia com o comprovante de ser um homem negro livre e com posses — há histórias de que ele teria cavalos para dias secos e outros para dias chuvosos. O documento tinha o selo do governo britânico da época, mas também não foram descobertos até o momento os motivos dessa ligação com a coroa da Inglaterra. Inclusive, existem boatos de que o príncipe do Bará poderia receber uma espécie de pensão do Reino Unido.
No entanto, sabe-se que constituiu família em solo brasileiro, e alguns de seus herdeiros estarão no desfile da Portela no próximo domingo. Para Marcelo David, outro pesquisador da azul e branco, embora seja possível encontrar material sobre Custódio, a quantidade de lacunas em sua trajetória são um sinal de alerta para o racismo na sociedade brasileira.
— Há uma série de inconsistências na trajetória do Custódio. Essa ausência de documentos na história de uma pessoa negra de tanta importância é uma névoa racista. Então, quando jogamos uma luz nesses fragmentos é um momento de reflexão e é por isso também que esse enredo existe — afirma Marcelo David.
Ao transformar mestre Sacaca e príncipe Custódio em protagonistas de seus desfiles, Mangueira e Portela reforçam, na Avenida, a potência das histórias negras que ajudaram a moldar religiões, culturas e identidades em diferentes regiões do Brasil, além de fortalecer o perfil pedagógico do carnaval do Rio.
