Mandíbula torcida e dentes para os lados: fóssil de espécie desconhecida de 275 milhões de anos é achado no Nordeste brasileiro; imagens
Fósseis encontrados no Nordeste do Brasil ajudaram cientistas a identificar uma criatura pré-histórica incomum, com mandíbula torcida e dentes voltados para os lados. A espécie, que viveu há cerca de 275 milhões de anos, foi descrita em um estudo publicado nesta quarta-feira na revista científica Proceedings of the Royal Society B.
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Batizado de Tanyka amnicola, o animal pertence a um grupo primitivo de tetrápodes — vertebrados de quatro membros que deram origem a répteis, aves, mamíferos e anfíbios. Apesar de ter vivido muito antes do surgimento dos dinossauros, o próprio Tanyka já representava uma linhagem antiga naquele período, funcionando como uma espécie de “fóssil vivo”.
Segundo Jason Pardo, autor principal do estudo e pesquisador associado do Field Museum, em Chicago, o animal fazia parte de uma linhagem ancestral cuja sobrevivência até aquele momento não era conhecida. Em comunicado, ele comparou a peculiaridade evolutiva da espécie à de um ornitorrinco — um organismo moderno que também preserva características muito antigas.
Uma ilustração de como a criatura marinha poderia ter sido
Divulgação/Vitor Silva
Mandíbulas encontradas no Nordeste
A nova espécie foi identificada a partir de nove mandíbulas inferiores fossilizadas, com cerca de 15 centímetros de comprimento, encontradas no leito seco de um rio no Nordeste brasileiro. Como outros ossos não foram localizados, muitos aspectos da anatomia do animal ainda permanecem desconhecidos.
A análise revelou uma característica considerada incomum: as mandíbulas são torcidas de modo que os dentes apontam para os lados, e não para cima, como ocorre na maioria dos tetrápodes. De acordo com Pardo, os pesquisadores passaram anos tentando entender se a estrutura era resultado de deformação.
O animal incomum tinha dentes retorcidos, o que o obrigava a triturar a comida em vez de mastigá-la
Divulgação/Ken Angielczyk / Field Museum
“Ficamos intrigados com isso por anos, nos perguntando se era algum tipo de deformação. Mas agora temos nove mandíbulas desse animal, e todas apresentam essa torção. Portanto, não se trata de uma deformação, é simplesmente a forma como o animal foi feito”, afirmou.
Além disso, a parte interna da mandíbula apresenta pequenas estruturas semelhantes a dentes, chamadas dentículos, formando uma superfície adaptada à trituração. Essa anatomia sugere um modo de alimentação incomum para os tetrápodes primitivos.
Com base nas características de parentes próximos, os cientistas estimam que o Tanyka amnicola poderia lembrar uma salamandra de focinho mais longo e medir até cerca de 90 centímetros. O tipo de rocha onde os fósseis foram encontrados indica que ele vivia em ambientes de água doce, como lagos.
Fóssil encontrado no Brasil
Divulgação/Ken Angielczyk / Field Museum
Os pesquisadores levantam a hipótese de que o animal se alimentava de pequenos invertebrados ou até de material vegetal — algo raro entre os tetrápodes mais antigos, que normalmente eram carnívoros.
Na época em que viveu, o território que hoje corresponde ao Brasil fazia parte do supercontinente Gondwana. Para os cientistas, a descoberta ajuda a compreender como funcionavam os ecossistemas desse período remoto e quais espécies ocupavam diferentes nichos ecológicos. Segundo o paleontólogo Ken Angielczyk, coautor do estudo e curador do Field Museum, o fóssil oferece pistas sobre a estrutura dessas antigas comunidades e sobre as relações alimentares entre os animais.
