Manchas em formato de borboleta na face? A ciência mostra como a dieta ajuda a prevenir e tratar o melasma
Manchas escuras na pele, especialmente no rosto, afetam a autoestima e a interação social, com impacto na qualidade de vida e no bem-estar emocional. Em muitos casos, essas alterações podem persistir mesmo com tratamentos dermatológicos e o uso constante de protetor solar.
Essas manchas, conhecidas como melasma, são uma das formas mais comuns de hiperpigmentação da pele. Aparecem principalmente em mulheres adultas e são mais frequentes em populações com maior pigmentação cutânea e regiões de alta exposição solar. Isso ajuda a explicar sua elevada prevalência em países tropicais como o Brasil.
Por décadas, o melasma foi explicado principalmente pela exposição solar, por alterações hormonais e pela predisposição genética. Esses fatores continuam centrais para a compreensão do problema. Há também relação, direta ou indireta, com estresse e depressão. Ainda assim, revisões recentes sobre a fisiopatologia do melasma indicam que esses fatores não são suficientes para explicar todos os casos observados na prática clínica.
Nos últimos anos, pesquisadores passaram a examinar outros fatores biológicos associados ao surgimento dessa hiperpigmentação. Entre eles estão a inflamação, as alterações metabólicas e o estresse oxidativo. Esses processos podem influenciar a atividade dos melanócitos, células responsáveis pela produção de melanina. Estudos recentes também indicam que a ativação de mastócitos — células de defesa da pele — e o aumento de substâncias inflamatórias como a histamina podem agravar a inflamação local e favorecer o desenvolvimento do melasma.
A partir dessas descobertas, uma pergunta começou a ganhar espaço na literatura científica: a alimentação também poderia interferir nesses mecanismos e influenciar o desenvolvimento do melasma?
A participação dos hormônios e da genética
O melasma é mais frequente em mulheres, sobretudo em fases de variação hormonal, como a gravidez, o uso de anticoncepcionais e, em alguns casos, a terapia de reposição hormonal — embora a maioria dos casos surja na fase reprodutiva. Revisões científicas indicam que estrogênio e progesterona podem estimular a melanogênese, processo de produção da melanina, pigmento natural que dá cor à pele, aos cabelos e aos olhos e ajuda a protegê-los da radiação ultravioleta. A predisposição genética também está envolvida em cerca de 30% dos casos, e o histórico familiar frequente entre pacientes reforça a participação de fatores hereditários.
Ainda assim, o quadro não se explica apenas pelo aumento da produção de melanina, mas por uma rede mais complexa de interações biológicas. Esse contexto ajuda a entender por que o melasma compartilha características com outras condições sensíveis à influência estrogênica, como endometriose e lipedema, que também podem ser agravadas por ambientes inflamatórios no organismo.
Durante muito tempo acreditou-se que o melasma resultava principalmente da hiperatividade dos melanócitos (células produtoras da melanina). Hoje é sabido que o fenômeno é mais amplo. Além da síntese de melanina, entram em cena mecanismos relacionados à forma como esse pigmento é transferido e distribuído entre as células da pele. A atuação de diferentes genes e enzimas envolvidos nesse processo colabora para o surgimento da hiperpigmentação. A comunicação entre as células da pele e as respostas inflamatórias também participam do processo. Esses achados ampliaram o escopo da investigação sobre o melasma ao incluir outros fatores biológicos associados à sua formação.
O que acontece na pele
Pesquisas recentes mostram que o melasma está associado a mudanças em diferentes estruturas da pele. Além dos melanócitos, participam desse quadro os queratinócitos, fibroblastos e mastócitos — células de defesa associadas à resposta inflamatória na pele. Quando ativadas por fatores como radiação ultravioleta, alterações hormonais ou poluentes, essas células liberam moléculas inflamatórias capazes de favorecer a hiperpigmentação.
Partículas presentes na poluição ambiental também vêm sendo investigadas. Esses poluentes podem comprometer a barreira cutânea, aumentar a formação de radicais livres e estimular respostas inflamatórias, contribuindo para o desenvolvimento da hiperpigmentação.
Outro fator relevante é o estresse oxidativo. Ele ocorre quando há excesso de radicais livres — moléculas instáveis capazes de danificar estruturas celulares. Esse desequilíbrio pode favorecer a inflamação e alterações na pigmentação cutânea, contribuindo para o surgimento ou a persistência das manchas. No tecido cutâneo, sistemas naturais de defesa antioxidante ajudam a neutralizar esses compostos. Alterações nesse sistema, porém, têm sido observadas em pacientes com melasma.
Também foram descritas mudanças na matriz extracelular — estrutura que sustenta os tecidos e inclui componentes como fibras de colágeno e fibras elásticas — e na função da barreira cutânea. A camada mais externa da pele atua como um escudo protetor, reduzindo a perda de água e dificultando a entrada de poluentes e outros agentes externos. Desequilíbrios nesses mecanismos podem contribuir para a continuidade desse processo na pele.
Como e onde a dieta pode ajudar
Essa compreensão mais ampla levou pesquisadores a analisar o possível papel da alimentação. A relação entre nutrição e saúde da pele ainda está em estudo, mas algumas linhas de investigação vêm ganhando destaque. Uma delas envolve substâncias antioxidantes presentes nos alimentos, capazes de interferir em mecanismos biológicos relacionados à pigmentação.
Essa associação é discutida no livro Nutrição Funcional na Estética (2ª edição, Ed.GEN Guanabara Koogan). No capítulo “Melasma: conexão entre pele e a teia do metabolismo e da nutrição funcional”, a nutricionista e esteticista Sheila Mustafá e a bioquímica Mika Yamaguchi reúnem estudos que analisam como compostos bioativos presentes na dieta podem modular processos ligados à formação das manchas.
Os polifenóis estão entre os compostos mais investigados. Essas moléculas antioxidantes estão amplamente distribuídas em alimentos de origem vegetal.
As catequinas do chá verde vêm sendo estudadas por seu potencial anti-inflamatório e por sua capacidade de proteger a pele contra danos induzidos pela radiação ultravioleta.
A romã é mais um alimento que tem despertado interesse nesse campo. A fruta é rica em elagitaninos e ácido elágico, substâncias antioxidantes que, em estudos experimentais, demonstraram capacidade anti-inflamatória e aumento da proteção cutânea contra os efeitos da radiação ultravioleta. Essas moléculas também estão presentes em frutas como jabuticaba, camu-camu, morango e framboesa.
A absorção e o metabolismo dessas moléculas dependem, em parte, da microbiota intestinal, responsável por transformar esses compostos em formas bioativas. Outro conjunto importante de compostos é o dos carotenoides, pigmentos naturais encontrados em alimentos como tomate, cenoura e vegetais verde-escuros. Compostos como licopeno, luteína e zeaxantina têm sido associados à proteção das células cutâneas contra danos provocados pelo estresse oxidativo.
Alterações metabólicas também vêm sendo investigadas nesse contexto. Entre elas está a chamada inflamação sistêmica de baixo grau, frequentemente associada à resistência à insulina. Esse desequilíbrio pode ser intensificado por padrões alimentares ricos em açúcares, farinhas refinadas e alimentos ultraprocessados.
Nessas condições ocorre maior formação de produtos finais de glicação avançada (AGEs). Essas moléculas resultam da reação entre açúcares e proteínas e podem afetar diferentes estruturas da pele. Estudos indicam que o acúmulo desses compostos pode favorecer a degradação do colágeno, alterações na matriz extracelular e o comprometimento da barreira cutânea.
Algumas pesquisas apontam ainda que a forma de preparo dos alimentos pode influenciar a formação dessas substâncias. Métodos de cocção em temperaturas mais altas, como fritura, grelhados e assados intensos, tendem a gerar mais produtos de glicação do que preparações como cozimento em água ou vapor.
Essas descobertas reforçam uma ideia importante: alterações visíveis na pele podem refletir processos metabólicos que ocorrem em todo o organismo.
Uma visão mais atual sobre o melasma
Avanços na pesquisa ampliaram a compreensão do melasma, que hoje é considerado uma alteração multifatorial, resultado da interação entre exposição solar, genética, hormônios, inflamação e metabolismo.
Essa perspectiva abrangente ajuda a compreender por que o tratamento costuma envolver abordagens combinadas, como fotoproteção rigorosa, acompanhamento dermatológico e orientação nutricional.
Embora ainda sejam necessários mais estudos para esclarecer plenamente a influência da dieta nesse contexto, as evidências disponíveis indicam que componentes de determinados alimentos podem interferir em mecanismos inflamatórios e metabólicos associados à hiperpigmentação.
Nesse sentido, padrões alimentares ricos em vegetais, frutas, ervas, especiarias e outros alimentos de origem vegetal — como os que caracterizam as dietas plant-based e mediterrânea — têm sido associados a um ambiente metabólico mais favorável ao equilíbrio dos processos envolvidos no aparecimento do melasma.
Cuidados alimentares desse tipo também contribuem para o controle de condições frequentemente relacionadas à hiperpigmentação, como resistência à insulina e inflamação metabólica. Esses mecanismos participam do desenvolvimento de diferentes doenças metabólicas e inflamatórias, entre elas o diabetes tipo 2.
O conjunto de pesquisas disponível levanta novas perguntas sobre prevenção e tratamento do melasma. Uma das mais importantes é compreender como as nossas escolhas cotidianas — entre elas a alimentação — podem influenciar não apenas a saúde da pele, mas os processos metabólicos que afetam o organismo como um todo.
*Eliane Contreras é Jornalista e pós-graduanda no MBA Estilo de Vida, Saúde e Longevidade, Faculdade VP
*Sheila Mustafá é Nutricionista, professora e Coordenadora da Pós-Graduação em Saúde da Mulher e Estética, Faculdade VP
*Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.
