Manchado por caso Epstein e derrota eleitoral, Starmer rejeita renúncia e desafia o próprio partido no Reino Unido

 

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Já com a popularidade arranhada pelo impacto do elevado custo de vida aos britânicos e, mais recentemente, pela proximidade com os malfeitos do financista Jeffrey Epstein, o premier do Reino Unido, Keir Starmer, sofreu mais um golpe na semana passada, com a dura derrota do Partido Trabalhista nas eleições regionais. Ele garantiu que não tem planos para renunciar, mas algumas dezenas de aliados o querem fora do cargo (e até já saíram do governo), em um processo no qual a extrema direita aparece no retrovisor.

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Em reunião de Gabinete, nesta terça, Starmer disse que "o país espera que continuemos governando”, e que “é isso que estou fazendo e é isso que devemos fazer como Gabinete", de acordo com um comunicado oficial. O premier declarou que "as últimas 48 horas foram desestabilizadoras para o governo", e, em tom de desafio, afirmou que “o Partido Trabalhista possui um processo para contestar a candidatura de um líder, e esse processo ainda não foi acionado”.

Na véspera, em um discurso considerado como a “última chance” para convencer seus pares de que é capaz de comandar o país, disse que “como todos os governos, cometemos erros, mas acertamos nas grandes decisões políticas”, e que assume “a responsabilidade por não ter abandonado o barco”.

— Se não fizermos as coisas direito, nosso país seguirá por um caminho muito sombrio — completou.

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Principal figura da vitória trabalhista em 2024, Starmer não é um premier popular — segundo o instituto YouGov, sua avaliação positiva jamais superou a negativa. No ano passado, as críticas à sua administração, com ênfase no custo de vida, ganharam um tom mais grave com as revelações sobre os laços do então embaixador britânico nos EUA, Peter Mandelson, com Epstein, acusado de liderar uma rede de abusos e tráfico humano, e que morreu em 2019. Para muitos, Starmer errou ao indicá-lo ao posto, do qual renunciou em setembro passado.

— O primeiro-ministro precisa revelar toda a verdade, ou sua posição se tornará insustentável — afirmou, em fevereiro, o deputado trabalhista Steve Witherden, em entrevista ao serviço galês da rede BBC, quando novos detalhes sobre os laços entre Mandelson e Epstein eram revelados nos EUA.

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Nas semanas seguintes, Starmer tentou conter as turbulências internas (com pedidos recorrentes de renúncia), e conseguiu evitar, no final de abril, a abertura de investigação para descobrir se ele enganou o Parlamento ao defender a indicação de Mandelson. Em plenário, 335 parlamentares votaram contra o inquérito — hoje, há 403 deputados trabalhistas. No final de abril, 49% dos entrevistados pelo YouGov acreditavam que Starmer não deveria permanecer no cargo.

— Este governo está se desintegrando. Eles estão mais interessados ​​na própria sobrevivência do que na crise do custo de vida que afeta as famílias trabalhadoras — disse, no dia da votação, a líder do Partido Conservador, Kemi Badenoch.

Na semana passada, a crise de confiança foi traduzida em uma das mais duras derrotas eleitorais recentes para o partido: nas eleições para os conselhos regionais na Inglaterrra, o Reform UK, de extrema direita, conquistou 1.453 cadeiras, número quase igual ao de assentos perdidos pelos trabalhistas (1.498). Os Verdes, cuja campanha foi pautada no ativismo contra a guerra no Irã, foram outra surpresa, e agora controlam 586 cadeiras. A tendência se repetiu nas votações para os Parlamentos da Escócia e do País de Gales, realizadas simultaneamente. Nigel Farage, líder do Reform UK, disse se tratar de uma “mudança histórica na política britânica”, na qual sua sigla obteve “percentuais impressionantes em antigas áreas tradicionalmente trabalhistas”.

Nigel Farage, líder do partido Reform UK, em encontro com eleitores

CARLOS JASSO / AFP

Na visão de alguns aliados, os resultados foram a confirmação de que o mandato de Starmer chegara ao fim. Mais de 80 parlamentares trabalhistas defendem publicamente o início do processo de sucessão interna. Em carta na qual anunciou que deixaria o cargo, o agora ex-ministro da Saúde Zubir Ahmed disse ser nítido que o público "perdeu irremediavelmente a confiança em você como primeiro-ministro" — outros três membros do Gabinete se demitiram desde o fim de semana. Em um movimento contrário, 110 deputados assinaram uma carta rejeitando a mudança de comando.

“Na semana passada, tivemos resultados eleitorais devastadores. Isso mostra que temos um trabalho árduo pela frente para reconquistar a confiança do eleitorado”, afirma o texto, divulgado nesta terça-feira."Este não é o momento para uma disputa pela liderança."

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Afastar um primeiro-ministro com maioria parlamentar e sem a intenção de renunciar não é tarefa simples no Reino Unido. Um dos caminhos é retirá-lo da liderança do partido que comanda o governo. No caso dos trabalhistas, é necessário que o desafiante tenha o apoio de 20% dos deputados da sigla — 81 hoje — para se qualificar a uma disputa na qual o atual premier tem lugar garantido. Apenas os membros do partido e alguns aliados participam da votação, realizada em turnos, até que alguém atinja 50% dos votos. Jamais um trabalhista foi desafiado internamente enquanto estava no comando do país.

De acordo com a imprensa britânica, há alguns nomes cotados para a hipotética corrida.

Wes Streeting, secretário de Saúde e Serviço Social, é ligado à ala mais centrista do partido, o que não agrada os progressistas, e tem evitado críticas mais agudas ao premier. Contudo, seus laços com Peter Mandelson podem ter enterrado sua candidatura antes do lançamento — ele se reunirá com Starmer nesta quarta-feira. Angela Rayner, por sua vez, agrada a alguns na esquerda, mas tem contra si uma investigação sobre a compra de um apartamento. Já Andy Burnham, prefeito da Grande Manchester, tem uma grande base aliada, mas não ocupa um lugar no Parlamento, o que o impede de concorrer ao menos neste momento. Outros nomes são ventilados, como os de Ed Milliband, líder trabalhista entre 2010 e 2015; Yvette Cooper, atual chanceler; e Shabana Mahmoud, secretária do Interior que tem um discurso duro sobre imigração.

Ministro da Justiça, David Lammy, fala com repórteres em Downing Street

JUSTIN TALLIS / AFP

Embora o fervor por uma troca em Downing Street seja impossível de ignorar, forçar a saída de Starmer é um risco de grande porte, sem garantias de que seu sucessor ou sucessora trabalhista resolverá a crise de confiança nas ruas e nas urnas. A convocação de eleições gerais é hoje uma possibilidade remota, já que depende do aval da maioria do Parlamento (sob controle trabalhista), mas as forças do Reform UK demonstraram ser capazes de obter uma votação considerável e até formar um Gabinete quando elas acontecerem.

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No ano passado, Farage disse que, caso assuma o poder, irá promover uma deportação em massa, e seus assessores apontam para um plano de governo que prevê o abandono de metas climáticas, a ênfase na indústria pesada, reformas nos sistemas de pensões e benefícios, cortes de gastos em governos locais e a adoção de uma pauta conservadora de costumes, similar à de Donald Trump nos EUA. No discurso de segunda-feira, em um ataque direto ao Reform UK, Starmer lembrou que o líder de extrema direita foi alçado à fama graças à campanha pela saída do Reino Unido da União Europeia, decisão hoje rejeitada pela maioria dos britânicos.

— Quero lembrar a vocês o que Nigel Farage disse sobre o Brexit. Ele disse que nos tornaria mais ricos. Errado, nos tornou mais pobres… ele não é apenas um vigarista, ele é um oportunista.