Malu Galli estrela peça baseada em Édouard Louis e fala de misoginia no Brasil: 'Estamos chegando a uma calamidade'
Sensação da literatura mundial, o francês Édouard Louis ganhou mais uma adaptação de suas obras para o teatro. Baseada nos livros de autoficção “Lutas e metamorfoses de uma mulher” (2021) e “Monique se liberta” (2024), “Mulher em fuga”, com Malu Galli e Tiago Martelli, estreia hoje no Teatro Firjan Sesi Centro, no Rio de Janeiro, após temporada em São Paulo. Com dramaturgia de Pedro Kosovski e direção de Inez Viana, a montagem apresenta a história da mãe do autor, mulher da classe trabalhadora que passou por três casamentos abusivos.
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— A peça traz vivências comuns às brasileiras, como gravidez precoce, interrupção dos estudos, dependência econômica, violência nos casamentos — enumera Tiago, que idealizou a adaptação e interpreta o autor.
Os livros narram a trajetória de libertação de Monique e seus processos de reinvenção. Partindo do reencontro entre o filho, que passou anos distante após ascender socialmente, e a mãe em crise em meio ao terceiro divórcio, a dramaturgia entrelaça passado e presente para tratar de busca por autonomia e reconciliação.
Tiago Martelli e Malu Galli em cena de "Mulher em fuga", baseada em obras de Édouard Louis
Divulgação/Leonardo Bonato
— Nos deparamos não só com a difícil relação entre eles, mas com o momento em que recuperam o vínculo mãe e filho. Louis precisava contar a história de Monique, uma mulher extraordinária, contraditória, humana, porque, falando dela, busca em si toda a misoginia que desferiu na adolescência, incentivada pelo pai — destaca a diretora Inez Viana.
Estreando a montagem logo após o Dia da Mulher e em meio a uma onda de casos de violência que chocam o país, Malu Galli se sente tocada pela possibilidade de tratar de temas urgentes no palco.
— Logo que começamos a ensaiar, aconteceram atos no país inteiro pelo fim do feminicídio. Agora parece que estamos chegando a um ponto de calamidade pública com essa questão do discurso misógino e da incitação à violência. Fazer essa peça neste momento me mobiliza, e me dá a sensação de estar com o discurso ajustado à realidade — reflete.
O dramaturgo Pedro Kosovski complementa:
— A peça funciona como uma denúncia, mas, mais do que isso, também propõe caminhos de desconstrução dessa cultura de violência. Esses debates são colocados no campo das emoções, e a dimensão da ficção permite que a gente se indigne e, ao mesmo tempo, tenha força para transformar a realidade a partir não só de ideias, mas dos afetos.
É justamente esse lado mais poético das obras de Louis que inspiram Malu.
— A Monique faz o Édouard rir em vários momentos. Ela tem vocação para a alegria como forma de resistência, algo com que me identifico — finaliza.
Serviço
Onde: Teatro Firjan Sesi Centro.
Quando: Qui e sex, às 19h. Sáb e dom, às 17h. Até 5 de abril. Estreia quinta (12).
Quanto: R$ 40.
Classificação: 14 anos.
