Malhação de Judas na Cremação, em Belém, terá feminicídio como tema central em 2026
Uma das manifestações culturais mais tradicionais de Belém, a Malhação de Judas no bairro da Cremação já começa a mobilizar moradores e associações locais para a edição deste ano, marcada não apenas pela celebração popular, mas também por um forte apelo social. Em 2026, o evento terá como tema central o feminicídio, escolhido de forma conjunta entre os grupos participantes.
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Ao todo, sete associações devem participar da programação, que ocorre durante a Semana Santa, mantendo viva uma tradição que atravessa gerações e transforma as ruas do bairro em palco de cultura, crítica e diversão. As atividades ocorrem na avenida Fernando Guilhon. Segundo Ednilson Santos, representante da Associação de Judas da Cremação (Ajoc), os preparativos já começaram, mesmo diante das dificuldades enfrentadas todos os anos. “Temos um pontapé inicial com muita dificuldade, mas já começamos a trabalhar para fazer mais um evento maravilhoso”, afirmou.
A Ajoc, que tem 45 anos de atuação, deve levar quatro bonecos para a programação. Neste ano, porém, mais do que a criatividade na confecção dos “judas”, o destaque será a mensagem. “A gente vai abordar o feminicídio, um tema muito relevante. Conseguimos fechar com todas as associações para que todo mundo fale só disso”, explicou Ednilson.
De acordo com ele, a decisão representa um momento raro de união entre os grupos, que tradicionalmente mantêm uma rivalidade considerada saudável. “Todo ano tem aquela disputa de quem faz melhor, mas dessa vez a gente se uniu. É um tema que precisa ser debatido. Tem que dar um basta nisso. Todo dia tem um caso novo. É de lá de cima pra baixo e de baixo pra cima e alguém precisa fazer alguma coisa. A gente vai tentar colaborar dessa forma, chamando atenção das autoridades”, afirmou.
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Em 2026, o evento terá como tema central o feminicídio, escolhido de forma conjunta entre os grupos participantes (Foto: Igor Mota | O Liberal)
Rivalidade dá lugar à conscientização
A mesma avaliação é compartilhada por José Ricardo Nascimento, representante da associação Cheiro Cheiroso, que há cerca de 35 anos participa das manifestações culturais no bairro, dos quais 15 na malhação. Ele explicou que a rivalidade entre as associações sempre existiu, mas de forma positiva, baseada na criatividade e no efeito surpresa das apresentações. São 7 associações. E não podemos deixar de falar do nosso amigo Quincas, que é o precursor, que começou lá no início dos anos 60 essa brincadeira, que era diferente, não era como é hoje. Hoje virou uma produção de eventos muito grande no bairro da cremação. E, graças a Deus, todo ano com muita gente, muito êxito. É muito legal”, disse.
Segundo ele, a rivalidade entre as associações é “sadia”. “A gente fica em segredo com os nossos temas. Todo ano é isso. Mas, desta vez, resolvemos nos unir para falar de algo muito sério, que está chocando a sociedade”, afirmou. Para ele, o feminicídio é um problema que ultrapassa fronteiras. “Não é só uma questão nacional, é mundial. Então decidimos dar esse destaque, cada associação com seu estilo, mas com a mesma mensagem”, completou. Apesar do tema comum, cada grupo deve apresentar sua abordagem própria, mantendo a característica criativa da tradição. “O tema é o mesmo, mas cada um vai dar seu toque especial. A gente sempre prepara surpresas para o público”, informou.
Programação une reflexão e cultura popular
A programação da Malhação de Judas na Cremação começa na Sexta-Feira Santa, dia 3 de abril, com atividades culturais e recreativas ao longo da noite. No sábado (4), ocorre o ponto alto da festa: a tradicional malhação dos bonecos, que deve reunir moradores e visitantes desde as primeiras horas da manhã. No sábado começará 8 e vai até 12 horas.
Além do aspecto simbólico, o evento também se destaca pela diversidade de atrações culturais, com brincadeiras populares como corrida do saco, quebra-pote, atividades para crianças e apresentações musicais. “Quem vier vai encontrar um evento diferente, que faz refletir sobre o tema, mas também proporciona diversão. Tem comida típica, tem espaço para ambulantes, para quadrilhas juninas, tem muita brincadeira e música. Tudo aquilo que a gente precisa para fazer uma grande festa. Quem vier vai curtir”, destacou José Ricardo.
A Malhação de Judas na Cremação tem origem nas décadas de 1960, sendo atribuída a iniciativas pioneiras de moradores do bairro que transformaram a prática em um grande evento comunitário. Ao longo dos anos, a manifestação cresceu e se consolidou como uma das mais importantes expressões culturais da cidade. Hoje, além de preservar a tradição, o evento também se reinventa ao incorporar temas sociais relevantes, aproximando a cultura popular de debates contemporâneos.
Para os organizadores, portanto, a edição deste ano reforça esse papel. Mais do que manter viva a tradição, a proposta é usar a visibilidade do evento para promover reflexão e conscientização. Entre bonecos, críticas sociais e momentos de confraternização, eles disseram que o bairro da Cremação se prepara, mais uma vez, para transformar cultura em mensagem e tradição em instrumento de mudança.
