Make borrada, corpo esquálido e cigarro em punho: por quê
a estética heroin chic está de volta?

Make borrada, corpo esquálido e cigarro em punho: por quê a estética heroin chic está de volta?

 

Fonte: Bandeira



Olhos pretos borrados e maquiagem dramática deram o tom do desfile da coleção cruise 2027 da Gucci, na Times Squares, em Nova York. Na última apresentação da Prada, na Semana de Moda de Milão, as modelos surgiram com uma aparência “messy” e cansada. Já nas redes sociais, a trend da #cigarettegirl transforma o cigarro e o vape em acessório de moda. O estilo junkie e “heroin chic”, consagrado por Kate Moss e popularizado por olheiras, androginia e modelos supermagras na década de 1990, volta a dar as caras em 2026, como resposta ao uso desenfreado de canetas emagrecedoras, à obrigatoriedade da performance e ao culto do movimento wellness. “É uma crônica visual do esgotamento coletivo que vivemos”, analisa o estilista e crítico de moda Dudu Bertholini. “Estamos em um mundo cada vez mais adoecido pela ansiedade e pela depressão, que cobra e performa nas redes uma vida impecável, pautada por dietas restritivas, conteúdos de autoajuda e rotinas exaustivas de skincare”.

Modelo na passarela da grife Namilia, com camiseta com crítica às canetas emagrecedoras

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Crises econômicas e momentos de instabilidade, aponta a professora Patrícia Diniz, dos hubs de Luxo e de Beleza e Wellness da ESPM, tendem a produzir estéticas “menos polidas”. “Isso aconteceu no fim dos anos 1990, voltou a aparecer após 2008, com o indie sleaze (visual desleixado com inspiração grunge) e reaparece agora em um contexto de inflação, incerteza e desencanto com a vida on-line.” É também um chega pra lá nas clean girls, cheias de disciplina e visual sóbrio e impecável. Não à toa, toda estética dominante gera uma oposição. “Quando o ideal exige tanto esforço, parte do público busca uma imagem que o libere da opressão. O corpo cansado, o cabelo desfeito, o cigarro na mão, a maquiagem suja e a pele pálida funcionam como uma recusa ao roteiro perfeito do wellness”, completa a professora.

Modelo na passarela de John Galliano em 1994: cigarro volta à cena

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Embora o fumo, segundo Patrícia, apareça mais como um objeto cênico e não como hábito, ele reflete uma atitude hedonista em meio ao futuro não tão promissor. “Se o mundo está pegando fogo e os bilionários achando que mandam em mim, talvez eu não tenha emprego, não queira filhos e possa viver menos e loucamente”, brinca a analista de tendências Iza Dezon. Além disso, com as redes sociais, temos uma noção mais acelerada do tempo, desconexão com o corpo e com momento presente. “A vida se confunde com a tela”, afirma Iza. E o cenário é aterrorizante.