A Schaeffler, fornecedora da Volkswagen, planeja fechar cinco unidades na Europa, em mais uma rodada de cortes de empregos, enquanto reduz suas operações de alto custo na Alemanha. A empresa eliminará 3.460 postos de trabalho na Europa, cerca de três quartos deles na Alemanha, informou nesta terça-feira a fabricante de rolamentos de esferas e sistemas de transmissão híbrido-elétricos.
Quatro unidades serão fechadas em seu país de origem e outra na Bélgica. Reestruturação da montadora: Volkswagen aprova plano para cortar mais 50 mil empregos em ampla reestruturação
Corrosão em parafusos: Volks e Audi fazem recall de 2,8 milhões de veículos em todo o mundo Ao mesmo tempo, metalúrgicos alemães estão intensificando as paralisações em todo o país, enquanto representantes sindicais reivindicam aumentos salariais e garantias mais robustas de proteção aos empregos, ampliando um conflito trabalhista que envolve cerca de 3,7 milhões de trabalhadores.
Nesta terça-feira, as ações Schaeffler recuaram até 4,5%, elevando as perdas acumuladas neste ano para quase 30%, depois que a fabricante também divulgou resultados do terceiro trimestre abaixo das expectativas. A Schaeffler, que fornece componentes para a General Motors e a BMW, entre outras montadoras, afirmou que a medida é uma resposta à desaceleração do mercado automotivo e ao acirramento da concorrência.
Entre os fatores estão a forte queda na demanda por veículos com motores a combustão, além do atraso na expansão da mobilidade elétrica. A companhia também afirmou que precisa reduzir seu quadro de funcionários na Alemanha, onde os custos por empregado são cerca de duas vezes e meia superiores aos de outras regiões da Europa.
Crise sem fim na indústria automobilística alemã: Número de trabalhadores é o menor em 20 anos Os fornecedores europeus de componentes automotivos enfrentam pressão crescente em razão da fraca demanda por veículos, do avanço da concorrência chinesa e da transição para os veículos elétricos, que está ocorrendo em ritmo mais lento do que o esperado.
O CEO Klaus Rosenfeld afirmou que as condições para a indústria automobilística alemã pioraram significativamente desde que a Schaeffler anunciou seu programa anterior de reestruturação, em 2024. Os volumes de produção estão caindo de forma mais acentuada do que o esperado.
Klaus Rosenfeld, CEO da Schaeffler Liesa Johannssen/Bloomberg
— Precisamos ajustar nossas estruturas aqui para que possamos continuar operando de forma competitiva no futuro — disse Rosenfeld em entrevista. — Não basta esperar que as coisas melhorem.
Precisamos enfrentar os problemas ativamente, e um deles são os custos com pessoal significativamente mais elevados que temos aqui. A indústria automobilística alemã está eliminando dezenas de milhares de empregos e reduzindo sua capacidade produtiva, enquanto as fabricantes enfrentam dificuldades decorrentes da fraca demanda, dos custos elevados e da concorrência de rivais chineses.
Mais baixas: Porsche eliminará 5.000 empregos até 2035 em acordo com trabalhadores na Alemanha Em setembro, a Volkswagen anunciou que irá dobrar os cortes de empregos, para 100 mil postos, com uma parcela significativa das demissões prevista para ocorrer na Alemanha.
A BMW, por sua vez, chegou a um acordo para eliminar cerca de 8 mil postos de trabalho, enquanto outras montadoras e fornecedoras estão implementando medidas adicionais de redução de custos. A Schaeffler emprega cerca de 109 mil pessoas em todo o mundo.
Na terça-feira, a empresa informou que as medidas anunciadas reduzirão em aproximadamente 9% seu quadro de funcionários na Alemanha, que, segundo a companhia, era de 31.957 empregados, até 2028. Considerando também a rodada anterior de cortes em massa de empregos, realizada apenas dois anos atrás, a redução acumulada do quadro de funcionários da empresa na Alemanha chegará a cerca de 18%, informou a companhia.
Carros híbridos: CEO da Renault considera um 'marco histórico' acordo UE-China O sindicato IG Metall e o conselho de trabalhadores do grupo Schaeffler criticaram o novo plano de reestruturação, afirmando que as sucessivas rodadas de cortes de empregos e fechamentos de unidades estão enfraquecendo a base industrial da empresa na Alemanha.
“Um programa de reestruturação vem logo após o outro, antes mesmo que as consequências do anterior tenham sido enfrentadas”, afirmou Thomas Höhn, representante do IG Metall na Schaeffler. “Essa não é uma estratégia para o futuro da Alemanha como polo industrial.”
Corte salarial Os principais executivos da empresa abrirão mão de 10% de seus salários-base, afirmou Rosenfeld.
A companhia também planeja eliminar dois níveis hierárquicos de gestão. Segundo o executivo, reduções salariais menores nos escalões inferiores da estrutura organizacional poderão ajudar a diminuir os custos com pessoal e reduzir a quantidade de postos de trabalho que precisarão ser eliminados.
As medidas deverão gerar aproximadamente € 300 milhões (US$ 336 milhões ou R$ 1,8 bilhão) em economias anuais a partir de 2030 e resultar em cerca de € 480 milhões (US$ 537 milhões ou R$ 2,9 bilhões) em despesas não recorrentes. Sede da fabricante alemã de componentes automotivos Schaeffler em Herzogenaurach, no sul da Alemanha
Daniel Karmann/DPA/AFP Os cortes têm como objetivo reduzir o excesso de capacidade produtiva e a complexidade das operações, além de ajustar os níveis mais baixos de investimento em pesquisa e desenvolvimento.
As medidas mais recentes foram anunciadas apenas algumas semanas depois de a Schaeffler informar que havia concluído antecipadamente um programa anterior de reestruturação. O plano, anunciado em novembro de 2024, previa a eliminação de 4.700 postos de trabalho na Europa e uma economia anual de aproximadamente € 290 milhões (US$ 324,6 milhões ou R$ 1,7 bilhão) até 2029.
Ônibus elétrico avança nas cidades brasileiras: Ao menos 12 fabricantes estão de olho nesse mercado Enquanto isso, a Schaeffler busca novas áreas de crescimento além de seu negócio automotivo, em uma estratégia de diversificação para outros mercados.
A empresa está ampliando sua atuação no fornecimento de componentes para robôs humanoides e para o setor de defesa. Paralisações por melhores salários
Além da Schaeffler , empresas como a Audi, divisão da Volkswagen, e Mercedes-Benz Group foram afetadas por paralisações na segunda-feira e nesta terça-feira, após o término, no fim de outubro, do período obrigatório de trégua nas negociações trabalhistas. Em setembro, milhares de trabalhadores em toda a Alemanha realizaram protestos, em busca de proteção para empregos e fábricas, depois de a Volkswagen reduzir suas projeções financeiras pela segunda vez neste ano.
O sindicato alemão IG Metall reivindica um aumento salarial de 5% ao longo de 12 meses, além de medidas para proteger os empregos e as unidades de produção. Na mais recente rodada de negociações, os empregadores ofereceram um pagamento único em 2027, equivalente a 1% da remuneração bruta anual, e um reajuste salarial de 1,3%, com vigência a partir de julho de 2028.
As negociações ocorrem em um momento particularmente desafiador para a indústria automobilística alemã. As montadoras buscam reduzir custos enquanto enfrentam a fraca demanda na China e o acirramento da concorrência no mercado doméstico.
Representantes dos empregadores alertaram, durante a mais recente rodada de negociações, que novos cortes significativos de pessoal serão inevitáveis, a menos que a Alemanha consiga reduzir substancialmente os custos da mão de obra por hora. Segundo o IG Metall, uma terceira rodada de negociações deverá começar na quinta-feira.
As tensões são particularmente acentuadas na Audi, sediada em Ingolstadt, onde trabalhadores preocupados com o aumento do custo de vida, especialmente dos preços da energia e dos combustíveis, participaram de uma breve paralisação na noite passada. O CEO da empresa, Gernot Döllner, tem sido alvo de críticas após participar, no mês passado, de um evento de campanha ao lado do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Durante o evento, Döllner anunciou planos para a construção da primeira fábrica da Audi nos Estados Unidos, enquanto os sindicatos reivindicam garantias de longo prazo para as unidades da montadora na Alemanha.
O Globo