Mais floresta, mais diversidade: pesquisa revela como sementes se espalham na Mata Atlântica

 

Fonte: Bandeira



A quantidade de floresta preservada ao redor de um fragmento e o volume de chuva recebido ao longo do ano são fatores decisivos para determinar como as sementes se espalham pela Mata Atlântica e, consequentemente, como a floresta se regenera. A conclusão é de um estudo inédito que reuniu dados coletados ao longo de mais de três décadas em diferentes regiões do bioma e identificou, pela primeira vez, padrões de dispersão de sementes em escala ampla, abrangendo praticamente toda a extensão da Mata Atlântica brasileira.

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Publicado na revista científica Journal of Ecology, o trabalho analisou a chamada "chuva de sementes", termo usado por ecólogos para descrever o conjunto de sementes que chega ao solo em determinada área, seja por queda direta das árvores, seja transportado por aves, mamíferos, vento ou outros agentes naturais. Trata-se de uma etapa fundamental para a renovação das florestas, pois define quais espécies terão condições de germinar e ocupar os espaços disponíveis ao longo do tempo.

Apesar de sua importância para a dinâmica dos ecossistemas, os estudos sobre o tema costumam se concentrar em áreas reduzidas, o que dificulta compreender como fatores climáticos e características da paisagem influenciam o processo em escalas maiores. Para superar essa limitação, uma rede formada por 60 pesquisadores de diferentes instituições brasileiras compilou informações produzidas entre 1987 e 2021 em 52 fragmentos florestais distribuídos ao longo da Mata Atlântica.

Ao todo, foram reunidos dados de 1.905 armadilhas de sementes instaladas em áreas do bioma ao longo de mais de três décadas de pesquisas de campo. O levantamento contabilizou mais de 1,3 milhão de sementes e permitiu identificar 1.029 táxons, classificados ao menos até o nível de família botânica.

A análise revelou que a cobertura florestal e a chuva aparecem como os principais fatores associados à diversidade de sementes encontradas nos fragmentos estudados. Em áreas mais úmidas e com maior quantidade de vegetação nativa preservada, os pesquisadores observaram uma presença mais elevada de espécies dispersas por animais. Nesses ambientes, a produção de frutos carnosos tende a ser maior, favorecendo a atuação de aves, primatas e outros vertebrados que carregam sementes para diferentes partes da floresta.

— Nossos resultados destacam a cobertura florestal, em conjunto com a chuva, como um fator-chave para a diversidade de sementes em florestas tropicais fragmentadas, embora locais fragmentados também possam apresentar maior disponibilidade de sementes, provavelmente devido à ocorrência de espécies pioneiras associadas às bordas florestais. Compreender esses padrões é essencial para prever como as florestas se regeneram e como esses ecossistemas altamente fragmentados podem se transformar no futuro — afirmou Luis Felipe Daibes de Andrade, pesquisador do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e primeiro autor do estudo.

Fragmentação aumenta chegada de sementes

Os cientistas verificaram ainda que a densidade de sementes aumenta conforme cresce o número de fragmentos florestais na paisagem. O resultado sugere que áreas mais fragmentadas podem receber maior quantidade de sementes, especialmente em suas bordas, onde costumam prosperar espécies pioneiras capazes de produzir grandes volumes de frutos e sementes.

Segundo os autores, muitas dessas plantas são importantes fontes de alimento para a fauna dispersora e conseguem se estabelecer com facilidade em ambientes alterados. A presença dessas espécies ajuda a explicar por que locais mais fragmentados podem registrar um fluxo maior de sementes.

Os pesquisadores ressaltam, porém, que o aumento da quantidade de sementes não significa necessariamente uma melhora das condições ecológicas. Embora a fragmentação possa favorecer a dispersão em determinadas situações, a diversidade de espécies continua fortemente associada à existência de grandes áreas de vegetação nativa. Os resultados mostram que a cobertura florestal da paisagem teve influência maior sobre a riqueza de espécies do que o tamanho individual dos fragmentos analisados.

Outro achado foi a relação entre cobertura vegetal e variedade de espécies encontradas na chuva de sementes. Áreas mais preservadas apresentaram maior riqueza e maior renovação de espécies entre diferentes pontos de coleta. Já regiões mais desmatadas e secas mostraram sinais de homogeneização florística, fenômeno em que poucas espécies passam a dominar a paisagem e reduzem a diversidade do ecossistema.

Segundo os pesquisadores, esse processo está ligado ao desaparecimento gradual de interações ecológicas importantes. Em florestas degradadas, animais de maior porte responsáveis pelo transporte de sementes costumam ser os primeiros a desaparecer em razão da perda de habitat e da pressão humana. Sem esses dispersores, muitas espécies vegetais têm sua capacidade de regeneração reduzida.

A Mata Atlântica é considerada um dos principais hotspots de biodiversidade do planeta. Originalmente, o bioma ocupava uma área entre 1 milhão e 1,6 milhão de quilômetros quadrados ao longo da costa brasileira e também avançava sobre partes da Argentina e do Paraguai. Atualmente, restam cerca de 23% a 24% de sua cobertura original, concentrada principalmente em pequenos fragmentos isolados.

Para os autores, compreender os fatores que determinam a dispersão de sementes em uma floresta tão fragmentada pode ajudar a orientar políticas de conservação e restauração ambiental. O estudo indica que preservar e ampliar a cobertura florestal da paisagem, mantendo a conectividade entre remanescentes, pode ser mais importante para a regeneração da Mata Atlântica do que focar apenas na proteção de fragmentos isolados.