Mais do que uma atriz: Jacqueline Sato transforma cuidado animal em projeto de vida
Existe, na rotina de Jacqueline Sato, uma pragmática do cuidado que antecede o instante em que as câmeras se acendem. Multifacetada, ela transita entre a atuação, o debate público e o trabalho silencioso do resgate animal sem fragmentar essas frentes; ao contrário, é justamente aí que se revela sua coerência. Antes de emprestar o corpo a personagens ou conduzir discussões sobre identidade na televisão, a atriz de 37 anos já se orienta por uma bússola ética bastante concreta: o cuidado como eixo. Longe da imagem simplificada da "celebridade que adota pets", seu envolvimento com o acolhimento animal não é um apêndice, mas o ponto de convergência onde suas diferentes dimensões se encontram.
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Esse senso de responsabilidade começou cedo, como um instinto de resolução. Aos nove anos, ao encontrar um filhote abandonado, ela não apenas o levou para casa, mas mapeou o entorno para encontrar a mãe e acabou resgatando a ninhada inteira. Aquele gesto foi o passo inicial que estruturou o que hoje é a House of Cats. O projeto, nascido na sala de estar da família, já reescreveu o roteiro de mais de 2.800 felinos.
É um trabalho de formiga, sem glamour, pautado por triagens rigorosas, castrações, vacinas e pela paciência de quem entende que a reabilitação de um ser vivo exige método e tempo.
"O resgate de um animal é um exercício que nos ancora na realidade material e nos ensina o quanto o cuidado transforma vidas. Numa metrópole onde as relações podem ser tão efêmeras e utilitárias, por exemplo, lidar com a vulnerabilidade de um ser de outra espécie, ou apenas se permitir ter uma conexão real com ele te puxa para o agora e te relembra que a 'lógica' humana não é a única existente e nem a que prevalece, por mais que as vezes pareça que somos o centro do mundo. Eles não pedem que você seja brilhante ou super produtiva, nem pedem atenção o tempo todo; pedem presença e compromisso. Reabilitar um gato que sofreu abandono é um processo silencioso de devolver a ele a confiança no ambiente e no outro. E, ao fazer isso, nós mesmos reaprendemos a confiar", afirma.
O que o resgate de 2.876 gatos ensinou a Jacqueline Sato
Divulgação Andrea Dematte
Foi essa visão fincada na realidade que a fez remar contra a maré do entusiasmo cego durante a pandemia. Quando a House of Cats viu a procura por adoções saltar 50%, viabilizando 185 novos lares, e ao mesmo tempo o número de abandono também saltou 70%. A atriz acendeu um alerta sobre saúde mental coletiva. Ela questionou abertamente o risco de nos relacionarmos com cães e gatos como se fossem objetos que podem ser "descartados" ou como amortecedores para o isolamento social.
"Existe uma linha ética muito fina entre abrir espaço na sua vida para um animal e usá-lo de forma provisória para te fazer bem ou como depósito para as suas próprias angústias" pontua. Para ela, o afeto não comporta caráter emergencial, o que está em jogo vai muito além: adotar é assumir uma responsabilidade que precisa continuar mesmo quando a vida muda; é um comprometimento entre duas vidas, não um entretenimento para durar enquanto fizer sentido para o humano.
O que o resgate de 2.876 gatos ensinou a Jacqueline Sato
Divulgação Andrea Dematte
Essa lente analítica não divide o mundo de Jacqueline em compartimentos isolados. A proteção animal dialoga diretamente com o consumo consciente e a preocupação climática, ambos sendo princípios que transbordam para o seu ofício. E, nos últimos anos, a atriz assumiu a necessidade de não apenas habitar histórias alheias, mas de arquitetar espaços para conversas que o audiovisual brasileiro ainda relutava em ter. Assim nasceu "Mulheres Asiáticas", programa idealizado e conduzido por ela. O projeto, hoje disponível na Universal+, dentro do Prime Video, funciona como um espaço franco onde mulheres nipo-brasileiras debatem preconceito, mercado de trabalho e o lugar histórico que ocupam no país.
Esse movimento de apropriação da própria narrativa ecoou em seu trabalho como Yuki, recentemente, na novela "Volta por Cima", da Globo. A personagem, que precisou romper as amarras de um relacionamento abusivo, fugiu do confinamento do estereótipo da mulher asiática dócil ou decorativa. O arco de Yuki, reconhecer a violência, resgatar a própria autonomia e recalcular a rota, conversa diretamente com a ética de reconstrução que Jacqueline pratica fora da ficção.
"No fim das contas, o ofício da atriz e o trabalho com os animais exigem alto nível de empatia, presença e conexão com o outro", comenta.
O que o resgate de 2.876 gatos ensinou a Jacqueline Sato
Divulgação Andrea Dematte
Ao projetar os próximos passos de sua carreira, que incluem projetos como o vindouro "Uma Praia em Nossas Vidas", ambientado no Brasil dos anos 80, no período pós-ditadura militar, ela conclui:
"Acolher o que foi marginalizado, oprimido ou ferido, seja a dignidade de uma personagem como a Yuki ou um animal que conheceu a rua, é um ato prático de reestruturação. O audiovisual, por muito tempo, nos empurrou para a invulnerabilidade, para o que é polido e blindado, mas eu entendi que a minha vocação opera na via oposta. A minha ferramenta de trabalho e a minha forma de estar no mundo dependem, essencialmente, dessa disposição contínua para lidar com o que é vulnerável, imperfeito e que só precisa de espaço e cuidado para voltar a existir de forma mais equilibrada."
