Mais do que Neymar: colunistas do GLOBO mostram o que lista de Ancelotti revela sobre seleção da Copa

 

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A convocação do técnico italiano Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo confirmou algo que já parecia inevitável: a lista não seria analisada apenas pelos nomes escolhidos, mas principalmente pelo que ela revela sobre a seleção brasileira às vésperas do Mundial. Entre a volta de Neymar, a ausência de alguns jovens promissores e as dúvidas defensivas, os colunistas do GLOBO identificaram uma lista marcada por pressão, concessões e interrogações.

Para Fernando Kallas, um dos sinais mais claros da lista está justamente nos cortes.

— Difícil de entender a ausência da dupla do Chelsea, Andrey e João Pedro, que foram jogadores que o Ancelotti parecia confiar bastante durante todo esse mini-ciclo de um ano. Dois jogadores que podem ter perdido essa vaga pelo mau momento do time deles na Inglaterra — analisou.

Na visão dele, a ausência dos jovens representa também uma oportunidade perdida pensando além de 2026.

— Pra seleção brasileira ter dois jovens que já estão no mais alto nível da Europa na Copa seria muito importante não só pra essa competição, mas principalmente para o futuro, para ganhar uma experiência tão importante e irrepetível que é estar em uma Copa do Mundo. Acho um erro e uma pena.

A ausência de João Pedro também chamou atenção de Carlos Eduardo Mansur.

— João Pedro, o grande derrotado da lista, tem suas razões para se sentir injustiçado. Viu sua carreira crescer no ciclo da Copa, foi brilhante no Mundial de Clubes, ganhou espaço no Chelsea, e deu lugar a um astro que pouco jogou nos últimos anos.

O “astro” em questão naturalmente domina o debate da convocação. Neymar virou o centro gravitacional da lista — dentro e fora do campo. Para Kallas, Ancelotti fez um movimento coerente com a trajetória de sua carreira.

— Ancelotti cedeu à enorme pressão que existia de todos os lados pela chamada do Neymar e isso não deveria ser surpresa pra ninguém. Se for olhar a trajetória dele como treinador, ele passou praticamente toda a carreira sabendo ceder aqui e ali os caprichos de donos poderosos como Berlusconi e Florentino pelo bem do ambiente e do equilíbrio. Não surpreende levar o Neymar pra compor grupo, o que seria uma preocupante surpresa é se Neymar jogar.

Marcelo Barreto enxergou no próprio ambiente da convocação um retrato do que espera Ancelotti nos próximos meses.

— A convocação de Neymar foi saudada com gritos na plateia do Museu do Amanhã. Foi o primeiro barulho dos muitos que Carlo Ancelotti ouvirá. O próximo tem tudo para ser o pedido de entrada em campo do camisa 10, caso não comece como titular no amistoso contra o Panamá.

Para ele, a discussão sobre Neymar não termina na convocação — ela apenas começa.

— Não é muito difícil imaginar os questionamentos que envolverão Neymar após a convocação. Chamou para ser reserva mesmo? O jogo está apertado, por que ele não entra logo? Fulano não está jogando nada, por que não mudar o time titular? Isso caso não haja uma surpresa ainda maior e Ancelotti esteja planejando um 11 inicial com o camisa 10 das três últimas Copas.

A polarização causada pelo atacante também apareceu na leitura de Gustavo Poli.

— Ancelotti não resistiu e convocou o melhor jogador brasileiro dos últimos quinze anos. O Brasil polarizado comemorou ou descurtiu a convocação de Neymar? A se julgar pela festa na convocação... comemorou. Agora vamos descobrir se quem vai a Copa é Ney ou o Ex-Ney. E vamos descobrir também se o craque será solução ou problema.

Mas, para além de Neymar, outro ponto aproximou as análises: a sensação de que os maiores problemas da seleção podem estar longe do ataque. Poli destacou a falta de renovação defensiva.

— A convocação de Ancelotti deixou evidente a falta de renovação nas laterais. O treinador italiano preferiu levar três veteranos já no lado B da carreira (Danilo, Douglas Santos e Alexsandro) e um jovem (Wesley) que vem jogando de ala na Roma. Dos três, apenas Wesley tem vigor ofensivo e velocidade. Os outros são experientes e bons defensores. Sinal de que a seleção vai jogar o tal futebol reativo? Ou optará pela chamada posse de bola apoiada? Veremos...

Marcelo Barreto seguiu linha parecida ao analisar os nomes do setor defensivo.

— Em posições questionadas, Ancelotti só mudou um goleiro — o terceiro. Os dois laterais esquerdos serão mesmo os mais velhos. E na lateral direita entra um zagueiro improvisado, Ibáñez, no lugar de outro, Éder Militão. Depois de tanta discussão sobre Neymar, talvez caia a ficha de que o problema não será montar o ataque da seleção, onde já havia boas opções, e sim a defesa.”

No fim, a primeira lista de Ancelotti parece ter produzido um efeito raro: mais do que indicar os 26 jogadores da Copa, ela escancarou os dilemas da seleção brasileira. Entre o peso de Neymar, a dificuldade de renovação e as dúvidas defensivas, a convocação virou menos um ponto final — e mais o começo oficial do debate sobre o Brasil de 2026.