Mais da metade das famílias brasileiras vive no limite das contas; Norte sente queda no consumo
Mais da metade dos lares brasileiros está no limite da insolvência, aponta pesquisa da NielsenIQ (NIQ). O levantamento Homescan, obtido pelo Valor Econômico, mostra que 54% das famílias ainda conseguem pagar as contas, mas vivem em situação financeira considerada crítica, enquanto quase 75% afirmam estar desconfortáveis com a própria condição econômica.
Os dados revelam ainda um cenário mais delicado nas regiões Norte e Nordeste, onde a renda média mensal segue abaixo da média nacional e o consumo apresenta desaceleração. Segundo informações preliminares do Censo 2022, divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o rendimento médio dos trabalhadores no Norte é de R$ 2.238 e no Nordeste, R$ 2.015, ambos inferiores à média brasileira de R$ 2.851.
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Norte e Nordeste têm maiores dificuldades
O Nordeste concentra 24,3% dos lares em pior situação financeira do país, percentual acima da participação da região entre os domicílios considerados confortáveis financeiramente, que é de 14,3%. Já no Norte, indicadores econômicos recentes também apontam perda de dinamismo no consumo.
Levantamento do Valor Econômico, com base na Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, mostra que cinco dos dez estados com menor crescimento nas vendas do varejo acumuladas em 12 meses até março estão nas regiões Norte e Nordeste: Pará, Amazonas, Roraima, Tocantins e Piauí.
No Pará, a desaceleração do comércio ocorre em meio ao avanço do custo de vida e da pressão sobre o orçamento das famílias. A pesquisa da NIQ mostra que consumidores de menor renda, com ganhos de até dois salários mínimos, destinam mais de 60% da renda para alimentação e itens de higiene. Já famílias com rendimento entre três e cinco salários mínimos passaram a comprometer mais da metade do orçamento apenas com despesas domésticas.
Nélio Bordalo Filho (Reprodução/ Leandro Corrêa)
Para o economista Nélio Bordalo Filho, conselheiro do Conselho Regional de Economia dos estados do Pará e Amapá, a economia paraense já sente os efeitos da perda do poder de compra da população. “O orçamento doméstico está cada vez mais comprometido com despesas básicas, como alimentação, energia elétrica, aluguel, transporte e pagamento de dívidas acumuladas. Com isso, sobra menos renda para o consumo de bens e serviços considerados não essenciais, o que afeta diretamente o comércio e o setor de serviços, especialmente os pequenos empreendedores”, afirma.
Segundo ele, a desaceleração do varejo na região Norte está relacionada a uma combinação de inflação persistente, juros elevados e renda instável. “Quando os preços sobem, especialmente em produtos básicos, o consumidor muda seu comportamento e passa a comprar apenas o necessário. Além disso, os juros elevados dificultam o acesso ao crédito e encarecem financiamentos e parcelamentos”, explica.
O economista destaca ainda que fatores regionais ampliam os impactos no Norte do país. “No Pará e na região Norte, o custo logístico é mais elevado por causa das distâncias e da dependência de transporte fluvial e rodoviário para abastecimento. Isso aumenta o preço final dos produtos. Soma-se a isso um mercado de trabalho ainda marcado pela informalidade e pela renda instável”, pontua.
Baixa renda e inflação pressionam consumo
O levantamento também identificou redução nos chamados gastos secundários, como lazer, alimentação fora de casa, internet, telefone e vestuário. Em 2025, essas despesas perderam participação no orçamento familiar, enquanto aumentaram os gastos com saúde, contas da casa e pagamento de dívidas.
A inflação voltou a aparecer como principal preocupação dos consumidores brasileiros, superando temas como violência e segurança pública. O estudo aponta ainda que o receio relacionado à capacidade de pagar contas e manter qualidade de vida ocupa o terceiro lugar entre as maiores preocupações das famílias.
Enquanto isso, uma parcela menor da população afirma viver situação confortável financeiramente. Os maiores percentuais de lares nessa condição estão concentrados na região Sul e no eixo formado por Minas Gerais, Espírito Santo e interior do Rio de Janeiro, áreas onde o poder de consumo permanece acima da média nacional.
Diante do aumento do endividamento, o governo federal lançou a segunda edição do Desenrola Brasil, programa voltado à renegociação de dívidas com descontos que podem chegar a 90%. Segundo estudo do BTG Pactual, o programa renegociou R$ 1 bilhão em dívidas na primeira semana, com cerca de 200 mil pedidos de acordo.
Apesar disso, analistas avaliam que os efeitos do programa sobre a melhora imediata da renda das famílias ainda são limitados. Segundo o banco, a experiência da primeira edição do Desenrola reduziu parte da inadimplência, mas não ampliou significativamente o acesso ao crédito mais barato para a população de baixa renda, mantendo a pressão financeira sobre os consumidores.
Para Nélio Bordalo Filho, o cenário deve manter o comércio em ritmo de cautela nos próximos meses. “O consumidor paraense deve continuar mais seletivo, pesquisando preços, reduzindo compras por impulso e priorizando promoções e produtos mais baratos. Isso pode afetar o faturamento das empresas e desacelerar a circulação de renda na economia local”, avalia.
Controle de gastos e renegociação de dívidas
Diante do avanço do endividamento e da pressão sobre o orçamento das famílias, o economista Nélio Bordalo Filho orienta que a principal medida é ter maior controle sobre os gastos domésticos.
Segundo ele, muitas famílias ainda não registram as despesas mensais, o que dificulta identificar excessos e desperdícios. “Organizar o orçamento, separar despesas essenciais e estabelecer limites de consumo ajuda a recuperar o equilíbrio financeiro”, afirma.
O economista também recomenda priorizar o pagamento de dívidas com juros mais altos, como cartão de crédito e cheque especial, além de buscar renegociação sempre que possível. “Atualmente, muitos bancos e instituições oferecem condições mais acessíveis para renegociar débitos. O próprio governo lançou o Novo Desenrola Brasil, criando oportunidades para acordos”, destaca.
Outra orientação é evitar compras por impulso e o uso excessivo do parcelamento. Segundo Nélio Bordalo Filho, apesar de as parcelas parecerem pequenas, o acúmulo de prestações compromete a renda futura e reduz a capacidade de enfrentar emergências financeiras. “Planejar as compras, pesquisar preços e, sempre que possível, formar uma pequena reserva financeira são atitudes importantes. Pequenas mudanças de hábito, como evitar desperdícios e consumir de forma consciente, podem fazer diferença significativa na estabilidade financeira das famílias ao longo do tempo”, conclui.
*Thaline Silva, estagiária de jornalismo, sob supervisão de Keila Ferreira, coordenadora do núcleo de Política e Economia
