Mais críticos, residentes de medicina tentam unir excesso de informação com cuidado adequado ao paciente

 

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Os dados mais recentes da residência médica no país, fruto da pesquisa “Demografia Médica no Brasil”, mostram que em 2024 cerca de 19,5 mil profissionais estavam no primeiro ano de especialização, outros 17,7 mil avançavam ao segundo ano, 10 mil estavam no terceiro e outros cerca de 370 finalmente alcançavam os terceiro e quarto anos de estudo e prática. Esses profissionais, contam especialistas ouvidos pelo GLOBO, trazem novas potencialidades ao mercado, como o tino para a comunicação de saúde e facilidade para acompanhar a inovação em tempo recorde, mas também são desafiados pela força das redes sociais, onde as fake news médicas correm livremente.

Trata-se de uma geração, mostra o levantamento, com grande presença feminina — o Brasil, aliás, teve mais mulheres do que homens médicos pela primeira vez em 2024, com elas representando 50,9% do total de profissionais. Para se ter uma ideia, em 2014 essa representação era de 41%. Na residência médica, a tendência é ainda mais forte: 58,2% das estudantes são mulheres. Essa turma está dividida entre as 55 áreas de formação disponíveis.

— Hoje existe uma identificação das mulheres como grupo cada vez mais frequente nas áreas de atuação. Há 10, 15, 20 anos, tínhamos um predomínio masculino na medicina, hoje temos a inversão disso, com mais mulheres do que homens médicos. E essa tendência é aumentar ainda mais — afirma Renato Carrera, gerente médico de programas internos e coordenador da comissão de residência médica do Ensino Einstein.

Mais informados

Ele acredita que a turma que chega à residência médica hoje tem um aspecto pessoal que pode ser um trunfo ao se especializar: o espírito mais questionador.

— São pessoas que têm um perfil muito mais crítico do que era no passado e que têm acesso à informação de maneira muito maior. Isso é interessante porque esses residentes têm mais oportunidade de comparar programas e instituições. Podem avaliar melhor as trajetórias que eles podem ter para si — pondera. — A meu ver, essas capacidades produzem especialistas mais preparados para o futuro.

Ou seja, é uma turma que está apta a questionar rotinas que não são muito “eficientes”, como diz o especialista, ou cargas excessivas que não traduzam um “propósito de formação”.

Silvana Vertematti, coordenadora da Residência de Pediatria do Hospital Edmundo Vasconcellos, diz que é justamente no contraste do altíssimo volume de informação com a necessidade de aprender a cuidar que está a questão.

— O grande desafio da residência atual é essa conjunção entre o cuidado com o paciente e ser capaz de trazer essa informação, traduzir esse material todo que chega de uma forma aplicável ao paciente — afirma a médica. — Se eu fosse comparar com a geração de 20 anos atrás, também poderia dizer que há um maior imediatismo, mais pressa. Mas isso é geracional.

A especialista lembra que é uma geração bastante avaliada para chegar às vagas da residência. Isso porque o volume de formandos é bem maior do que a quantidade de posições disponíveis para esse tipo de formação. Aqui convém explicar que a residência médica é um modelo de pós-graduação para especializar-se com base em treinamentos e aprendizado na prática. Esse estudo pode ser praticado em instituições públicas e privadas, credenciadas pela Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM), ligada ao Ministério da Educação.

— A residência médica é o ideal da formação médica; cerca de 80% dos formandos afirmam que pretendem fazê-la. A grande verdade é que hoje não temos vagas suficientes pra todos os formandos em medicina no Brasil. Porque as vagas de graduação aumentaram, mas as posições de residência não surgiram na mesma proporção — diz Eduardo Moura, Diretor do Research and Innovation Center da Afya, que oferece cursos preparatórios para a seleção de residência. — Nesse sentido, temos visto uma maior busca por (outros) programas de pós-graduação médica. Elas não garantem título de especialista ao profissional. Ele precisa se submeter a uma prova de proficiência junto à sociedade médica de sua especialidade para obter seu título. Diferente da residência, que, quando você conclui, já obtém o título.

O diretor técnico do Hospital Santa Catarina, Renato José Viera, diz que, mesmo com escassez de vagas, ainda há posições de residência que não são ocupadas pelos estudantes. E as razões são diversas. Uma delas é a bolsa fixa em R$ 4,1 mil pelo regime especial de treinamento por 60 horas semanais.

— Existe um paradoxo importante. Apesar de ainda termos um número insuficiente de vagas de residência, nem todas acabam sendo preenchidas. Isso ocorre por vários fatores, entre eles a lógica financeira da profissão. Muitos médicos optam por cursos de pós-graduação lato sensu, que não oferecem a mesma intensidade nem a mesma qualidade da residência, mas permitem uma inserção mais rápida no mercado de trabalho — explica. — Com o tempo de prática, esses profissionais podem buscar o título de especialista por outras vias.

De acordo com a “Demografia Médica no Brasil”, o volume de vagas de residência em 2024 representava cerca de metade do número de estudantes formados em medicina no ano anterior. Ou seja, na melhor das hipóteses, apenas 50% dos formados poderiam partir para a especialização tão logo pegassem o canudo em mãos. A mesma pesquisa dá conta de que 54,3% das vagas disponíveis estão no Sudeste do país, enquanto 17,7% estão no Nordeste, 16,7% estão no Sul, 7,7% no Centro-Oeste e 3,6% no Norte. A maior parte dos estudantes que chegaram às vagas de residência (62,8%) cursou a graduação em uma faculdade privada. A entrada em uma residência ocorre por meio de editais e processos seletivos e os cursos duram de 2 a 5 anos.

Novo mundo

A velocidade em que são desenvolvidos novos tratamentos e tecnologias, dizem os especialistas, também figura como um desafio para esses estudantes. Na oncologia, onde há o maior investimento da indústria farmacêutica em novos tratamentos, pesquisas com novas terapias e moléculas aparecem em grande quantidade. O chefe da área na Rede São Camilo, Raphael Brandão, costuma orientar os residentes com uma receita que abriga o novo e o que já é estabelecido.

— A primeira coisa é aceitar uma verdade que traz humildade e serenidade: ninguém estará 100% atualizado o tempo todo. Na oncologia, isso é estrutural. O médico se atualiza a cada paciente. Cada doente “puxa” um conjunto de estudos, diretrizes e decisões. E, nesse campo, a percepção correta é: tudo pode ser mudado. Não porque seja caos, mas porque a ciência é viva — afirma Raphael. — O que funciona não é ansiedade, é método. Costumo recomendar uma combinação: diretrizes e consensos (de entidades médicas) como coluna vertebral, para não se perder em novidade irrelevante. Reuniões clínicas para transformar teoria em decisão aplicada. Journal clubs com leitura crítica, entendendo desenho de estudos. Congressos e resumos, mas com curadoria, poucos temas e bem escolhidos. E ferramentas digitais, incluindo IA, para organizar referências e revisar com eficiência, sem substituir raciocínio.

Embora os tempos atuais inspirem novos desafios e potencialidades, quem está há décadas na profissão vê que há aspectos fundamentais da medicina que não mudam nem mesmo com o passar dos anos. Quem os explica é o médico infectologista David Uip, professor da Faculdade de Medicina do ABC, onde também foi reitor. O especialista, que também foi secretário de saúde de São Paulo, é médico há 50 anos.

— O compromisso é uma palavra muito séria e esse aspecto profissional se mostra de diferentes formas. Para ter compromisso é preciso estar sempre atualizado, estar disponível. E, para todos nós, é preciso ter resiliência — conclui.