O ambiente de intensa polarização política que ajudou Donald Trump a mobilizar os americanos em torno de sua candidatura em 2024 provocou, dois anos depois, uma sensação de cansaço nos eleitores. Principalmente naqueles que não estiveram altamente engajados nas campanhas de nenhum dos candidatos nas eleições legislativas desta semana.
É o que diz Tim Dixon, cofundador da organização More in Common, dedicada a pesquisas de opinião e a fornecer dados a governos e à sociedade sobre como lidar com temas que polarizam debates. “Há uma sensação de esgotamento, principalmente nos eleitores que não se definem por meio da orientação política - e dois terços das pessoas não se definem por meio da política”, afirmou ao Valor.
Dixon, que esteve em São Paulo antes de ir também ao Rio, lembra que o Partido Republicano, de Trump, vem perdendo apoiadores, com destaque para mulheres moderadas com formação superior. Em parte, pelo tom de constante conflito representado por Trump e aliados mais leais - o que mais divide do que une eleitores.
Dixon vê dois movimentos concomitantes: setores minoritários da sociedade se tornando mais leais a suas ideologias, enquanto uma maioria, de cerca de dois terços dos eleitores, está mais desengajada e disposta a mudar de voto. “Foi exatamente isso que vimos nas eleições dos EUA: as maiores oscilações de votos em 50 anos, mesmo com a base Maga permanecendo leal a Trump, apesar de ele ter subvertido muitas das crenças que antes definiam o Partido Republicano”, disse Dixon.
“É por isso que é tão importante compreender uma das divisões mais significativas na opinião pública: às vezes, não se trata tanto de esquerda contra direita, mas, sim, da diferença entre partidários altamente engajados e aqueles dois terços da população que muitas vezes se sentem exaustos com a divisão e o conflito na política.”
A More in Common tem equipes e produz pesquisas na Alemanha, Espanha, França, Polônia, Reino Unido, além de EUA e Brasil. Com base nas pesquisas, Dixon crava que o assunto que mais causa polarização nesses países - à exceção do Brasil - é exatamente um dos temas que marcaram o governo Trump até agora.
“Acho que a questão mais explorada politicamente em nível global é a imigração”, avalia Dixon. Trump adotou.
desde o início do segundo mandato, uma política de linha dura contra imigrantes, barrando ou reduzindo drasticamente a entrada de estrangeiros sem documento pelas fronteiras. As ações anti-imigração têm produzido cenas de brutalidade contra pessoas que estavam baseadas, havia anos, no país.
A More in Common se especializou em buscar em seus estudos pontos de vista que possam ser compartilhados por grupos adversários em debates políticos - pontos que, tantas vezes, ficam sob a névoa das divergências, mas podem ser a chave para maior grau de entendimento. São as chamadas lacunas de percepção.
No caso dos EUA, por exemplo, uma boa medida é o que os republicanos pensam sobre imigração, e o que os democratas acham que os republicanos pensam sobre imigração. E vice-versa.
Os achados da More in Common revelam quanto os dois lados - ao menos nesse caso - deduzem muito, e conhecem pouco, um ao outro. “Os republicanos acreditam que um grande número de democratas simplesmente quer fronteiras abertas.
Mas eles estimam um número duas ou três vezes maior do que o real. Por sua vez, os democratas acham que os republicanos são contra a imigração, ponto final.
Mais uma vez, eles estimam um número três vezes maior do que realmente é a posição dos republicanos. Portanto, há um mal-entendido notável entre eles.”
Para Dixon, líderes precisam ter capacidade para entender em que momentos de polarização estão efervescendo, e como desmontar falsas narrativas que turbinam esses processos. “Líderes que são comunicadores talentosos podem fazer isso, mostrar que não precisamos pertencer a este ou a aquele campo.
E que há interesses por trás das tentativas de dividir a sociedade, e que não precisamos ser divididos assim”, diz Dixon. A More in Common foi criada logo depois do assassinato, em 2016, de Jo Cox, integrante do Parlamento britânico.
Ela era uma das defensoras de que o Reino Unido permanecesse na União Europeia. O debate sobre a saída ou permanência do país no bloco consumiu os britânicos por meses até que, no voto popular, venceu a proposta de retirar o país da União Europeia, o chamado Brexit.
Cox foi morta dias antes da decisão, que dividiu, e ainda divide, o país.
Valor