Maior roubo de arte do Brasil ocorreu há 20 anos no carnaval e levou quadros de Dali, Picasso e Monet
A semana foi marcada pelos 20 anos de um roubo cinematográfico que nunca foi solucionado no Brasil. O maior roubo de arte, no Museu da Chácara do Céu, em Santa Teresa, na região central do Rio, prescreveu, e os responsáveis podem até admitir participação sem sofrer punição.
O caso ocorreu numa sexta-feira de Carnaval. Em 24 de fevereiro de 2006, enquanto o bloco das Carmelitas lotava as ladeiras do bairro, quatro homens armados invadiram o museu e renderam seguranças e visitantes.
Eles levaram quatro das pinturas mais valiosas que já passaram pelo Brasil: "A Dança", de Picasso; "O Jardim de Luxemburgo", de Matisse; "Dois Balcões", de Salvador Dalí; e "Marinha", de Monet, além de um livro com gravuras de Picasso.
"Marinha", de Monet
Reprodução/Wikimedia Commons
"A Dança", de Pablo Picasso
Reprodução/Wikimedia Commons
Com as ruas cheias de foliões, a polícia demorou a chegar. A CBN estava atenta, nesse dia, e registrou tudo.
As obras foram avaliadas, na época, em cerca de 50 milhões de dólares, o equivalente hoje a mais de 260 milhões de reais. Isso faz desse o maior roubo de arte da história do Brasil e um dos dez maiores do mundo, segundo o FBI.
O inquérito ficou com a Polícia Federal, mas as telas nunca reapareceram e nenhum bandido foi identificado.
A jornalista Cristina Tardáguila mergulhou no caso para escrever o livro "A arte do descaso", lançado em 2016. Ela cita falhas na investigação e lembra que os quadros de Matisse e Dalí já haviam sido roubados e recuperados em 1989.
"É óbvio que houve falhas gravíssimas durante as investigações. O inquérito se perdeu entre idas e vindas de pedidos de extensão de prazo de investigação, entre a PF e o Ministério Público. A linha que eu trago no livro é uma conexão com o crime que o museu também teve em 1989. Faltou à polícia fazer a conexão entre essas duas pontas da história", afirma.
As peças faziam parte da coleção Castro Maya, adquirida pela família de empresários entre os séculos XIX e XX e incorporada ao patrimônio da União nos anos 1980.
Para a presidente da Associação Brasileira de Críticos de Arte, Alessandra Simões, o roubo representa uma grande perda para cultura mundial.
"Um país que consegue manter, não apenas ter, mas manter essas obras entre seus acervos é um país que pode ser visto como um país que detém um patrimônio cultural de relevância universal, mundial. Quando uma obra de arte some de um acervo, que é o lugar por excelência da preservação da memória e da arte de um país ou do mundo, com essa obra some também uma parte da história."
"Dois Balcões", de Salvador Dalí
Reprodução/Wikimedia Commons
Dois negociadores de arte franceses chegaram a figurar como suspeitos de encomendar o crime, mas nenhuma prova contra eles foi encontrada. Apenas o motorista de uma kombi chegou a ser preso, após afirmar que foi rendido pelos criminosos, mas acabou liberado.
Até hoje, os únicos vestígios são pedaços de molduras encontrados queimados dias após o crime. Outro quadro também teria sofrido danos. Um dos homens que faziam a segurança do museu no dia do crime disse que a tela do Picasso caiu e rasgou.
Jardim de Luxemburgo
Reprodução / X
Apesar da prescrição, o especialista em direito Penal Pedro Simões do escritório Veirano Advogados explica que a polícia pode voltar a esse caso, já que ele pode envolver outros crimes, ainda não prescritos. Além disso, as obras continuam pertencendo ao museu e poderiam voltar ao acervo caso fossem localizadas.
"A aquisição de uma obra de arte roubada implica um novo crime, que é o crime de receptação. Eu também posso ter, na transferência de objetos roubados, o crime de lavagem de dinheiro. Eu também posso ter exportação ilegal, a importação ilegal de obras de arte. Eu posso ter o crime de contrabando de obra de arte. Então, o fato de que o crime antecedente prescreveu não impede o cometimento de um novo crime. E falando aqui especificamente da possibilidade de alguém ter adquirido essas obras, eu não consigo enxergar uma hipótese em que se defenda uma aquisição de boa fé."
Procurado, o Museu Chácara do Céu afirmou que a ausência das obras ainda é sentida e que reforçou os protocolos de segurança. A Polícia Federal disse que indiciou o motorista, mas admitiu que o caso foi arquivado por falta de provas.
