Maior navio mercante medieval já encontrado, com 600 anos e 300 toneladas, é descoberto na Dinamarca
Os restos de um raro “super navio” medieval foram descobertos na costa da Dinamarca e já são considerados um marco da arqueologia marítima. Trata-se da maior coca — principal embarcação de carga da Idade Média — já encontrada no mundo, com cerca de 28 metros de comprimento, nove metros de largura e capacidade estimada para transportar até 300 toneladas de mercadorias. O navio tem aproximadamente 600 anos e data do início do século XV.
Batizado de Svælget 2, em referência ao canal onde foi localizado, o naufrágio está excepcionalmente bem preservado graças a uma camada de areia que o manteve protegido das correntes e da ação do tempo, a uma profundidade de 13 metros. A conservação permitiu identificar detalhes estruturais raramente observados, como vestígios do cordame e as extensas ruínas de um castelo de popa — uma espécie de convés coberto que oferecia abrigo à tripulação.
Vida a bordo e avanços tecnológicos
Durante as escavações, mergulhadores encontraram objetos pessoais como pratos de madeira pintados, sapatos, pentes e terços, além de utensílios domésticos, oferecendo um retrato direto do cotidiano dos marinheiros no século XV. Também foram identificados restos de provisões, como peixe e carne, e peças de madeira finamente cortadas que podem ter sido usadas na preparação de bacalhau seco.
Uma das descobertas mais surpreendentes foi a cozinha de tijolos do navio, considerada a mais antiga desse tipo já encontrada em águas dinamarquesas. Composta por cerca de 200 tijolos e 15 telhas, a estrutura permitia cozinhar em fogo aberto. No local, arqueólogos localizaram panelas de bronze, tigelas de cerâmica e utensílios de mesa. Segundo o líder da escavação, Otto Uldum, do Museu de Navios Vikings, a presença da galera indica um nível de conforto e organização incomum para a época, aproximando a alimentação a bordo da rotina em terra firme.
Uma panela encontrada nos destroços de um navio medieval. Especialistas descreveram a descoberta como um "marco para a arqueologia marítima"
Divulgação/Viking Ship Museum
“A descoberta é um marco para a arqueologia marítima. É a maior coca que conhecemos e nos dá uma oportunidade única de entender tanto a construção quanto a vida a bordo dos maiores navios mercantes da Idade Média”, afirmou Uldum. Ele destacou ainda que os castelos — plataformas de madeira nas extremidades do navio — eram conhecidos apenas por ilustrações históricas e nunca haviam sido documentados arqueologicamente.
Especialistas explicam que as cocas eram embarcações eficientes, capazes de transportar grandes volumes de carga com tripulações relativamente pequenas. Esses navios eram fundamentais nas rotas comerciais que ligavam a atual Holanda, contornavam a região de Skagen e seguiam pelo Estreito de Øresund até as cidades do Mar Báltico.
Mergulhadores descobriram até mesmo pratos de madeira pintados, sapatos, pentes e terços, oferecendo um vislumbre da vida da tripulação a bordo
Divulgação/Viking Ship Museum
Apesar da dimensão do navio, nenhum vestígio direto da carga foi encontrado. Os pesquisadores acreditam que mercadorias como sal, tecidos ou madeira teriam se dispersado no momento do naufrágio, já que o porão não era coberto. A ausência de lastro sugere que o Svælget 2 estava carregado até o limite, reforçando sua função estritamente mercante, sem indícios de uso militar.
Os componentes do navio passam agora por um processo de conservação no Museu Nacional de Brede. Para Uldum, o achado confirma que as cocas podiam atingir proporções muito maiores do que se imaginava. “O Svælget 2 nos oferece uma peça tangível do quebra-cabeça e ajuda a entender como tecnologia e sociedade evoluíram juntas em uma época em que o transporte marítimo era a espinha dorsal do comércio internacional”, concluiu.
