Maior exposição de Vik Muniz chega ao CCBB: veja 5 obras imperdíveis, comentadas pelo artista
“Estou muito contente, porque a pessoa que entrar ali vai sair com a cabeça muito zoada”, brinca Vik Muniz sobre a maior retrospectiva de sua carreira, em cartaz no CCBB após temporadas em Recife e Salvador. Com mais de 220 obras, “Vik Muniz — A olho nu” une famosas séries fotográficas como “Imagens de lixo” (tema do premiado documentário “Lixo extraordinário”) e “Imagens de sucata” (que inspirou a abertura da novela “Passione”), a outras pouco vistas no Brasil, além de suas esculturas iniciais e obras criadas para a montagem carioca.
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— Uma obra se conecta à outra pelo conceito. Tanto as esculturas quanto as fotografias têm humor, uso de materiais comuns e referências a imagens conhecidas — resume o curador, Daniel Rangel. — Você fica sempre se questionando sobre o que é real.
Distribuídas por onze salas, as fotografias e esculturas exploram o uso de materiais e símbolos cotidianos, de comidas a células, da Monalisa ao Mickey Mouse, para brincar com a percepção do público.
— A exposição tem uma coisa lúdica, convida a um olhar infantil, que vê através dos símbolos — diz o artista.
É com esse olhar ativado que Vik Muniz selecionou cinco das obras que considera imperdíveis na retrospectiva, escolhidas pela forma como resumem seu projeto artístico, ou por questões afetivas. Confira a seguir.
1. 'Dois pregos' (1988-2017)
Não é à toa que a obra "Dois pregos" está localizada logo na entrada de "Vik Muniz — A olho nu", junto ao texto de apresentação, mas a ausência de cor e seu tamanho diminuto podem fazer com que muitos visitantes passem despercebidos por ela. O artista garante que vale a pena observar com atenção. Parte da coleção do MoMA, a obra consiste numa folha de papel com a imagem de um prego impressa e um prego de verdade acoplada. Assim como em muitas de suas obras, a peça brinca com a percepção do espectador.
— É talvez a obra mais simples que já fiz na vida, e a primeira fotografia que vendi na minha vida. E se você olhar aquela obra, vai vê-la em todas as outras. Todas têm essa tensão entre o físico e o simbólico — afirma o artista. — A ilusão é a única estratégia que a gente tem para entender a realidade. E essa obra te faz se perguntar como que você cai por uma ilusão tão pobre.
'Dois pregos' (1988-2017), Vik Muniz
Divulgação
2. 'Crianças de açúcar' (1996)
O trabalho "Crianças de açúcar" surgiu a partir de uma viagem a Saint Kitts, nas Antilhas, quando Vik conheceu um grupo de crianças que costumavam brincar na praia, que depois descobriu serem filhas de trabalhadores da cana-de-açúcar. Comovido pela situação de vulnerabilidade das famílias, o artista recriou com açúcar, em grande escala, fotografias que tinha feito dos meninos e meninas.
"Valentina, a mais veloz" (1996), da série "Crianças de açúcar", de Vik Muniz
Divulgação
Além de ser considerada um marco em sua trajetória, por ser uma das primeiras em que usou materiais não convencionais para tensionar imagem e suporte, a série também tem forte significado pessoal.
— Naquele momento eu estava quase desistindo de fazer arte. Mas, com essas fotografias, que tiveram uma crítica super positiva no New York Times, fui convidado para fazer parte da exposição anual New Photography, do MoMA, e me tornei um fotógrafo — relembra Vik.
3. 'Multidão em Coney Island, 32º C' (2009)
Parte da série "Imagens de papel", a foto "Multidão em Coney Island, 32ºC", de 2009, reúne alguns dos principais elementos da obra de Vik Muniz: a ilusão de ótica e a referência a obras de outros artistas. A partir de um registro do verão de 1940 feito pelo fotógrafo Weegee (1899–1968) nos Estados Unidos, o artista recriou a imagem complexa da multidão com recortes de papéis de cinco tonalidades.
— Tenho muito orgulho de ter feito essa foto. Ela revela como nosso cérebro preenche essas lacunas que o olho não consegue captar plenamente. Se você olha a uma certa distância, parece uma cena fotográfica, mas quando chega perto, vê que é tudo facetado, quebrado — comenta o artista.
Em 2025, Vik Muniz à frente da obra “Multidão em Coney Island, 32º C” (2009)
Fernando Lemos / Agência O Globo
A ideia da série, que recria diversas fotografias icônicas do século XX, é tensionar temas como permanência, materialidade e memória visual diante da evolução tecnológica, que popularizou a fotografia digital em detrimento dos registros analógicos. No CCBB, também está exibida "Fila do pão durante a enchente em Kentucky, 1937", a partir de Margaret Bourke-White.
4. 'Imagens de lixo' (2008)
Um de seus trabalhos mais célebres, a série fotográfica "Imagens de lixo" não poderia ficar de fora da seleção. Realizada no aterro sanitário de Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro que por anos foi o maior aterro sanitário da América Latina, a série retrata os trabalhadores do local em grande escala. O processo foi registrado no documentário "Lixo extraordinário" (2010), dirigido por Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley, que chegou a ser indicado ao Oscar e foi premiado em diversos festivais internacionais.
— Essa foi a primeira vez que pude documentar uma série do começo até o fim, e entender, através da da montagem do filme, como funciona o meu próprio processo de trabalho — comenta.
"A cigana (Magna)" e "Atlas (Carlão)", duas obras da série "Imagens de lixo", de Vik Muniz
Divulgação
5. 'Medusa marinara' (1997)
Suspensa sob a famosa rotunda do CCBB, está uma escultura inédita em forma de 8,20m em forma de pterossauro, feita com cinzas do Museu Nacional, parte de uma das séries que se somaram à retrospectiva na montagem carioca. No chão logo abaixo, um tapete estampado com a foto “Medusa marinara”, de 1997, dá um gostinho do que está por vir nas onze salas que compõem a mostra.
— Essa é engraçada. Fiz em cinco minutos e poucos dias depois estava em três quartos de página do New York Times. É muito divertido pensar que uma coisa que fiz por acaso no meu prato de comida foi parar na página do jornal — relembra o criador.
"Medusa marinara", obra de 1997
Divulgação
Extra: “Ferrari Berlinetta” (2014/2026)
Localizada logo na entrada no museu, em frente à bilheteria, está a escultura “Ferrari Berlinetta”, obra dotada de valor sentimental para o artista, exibida pela primeira vez no Brasil. Trata-se de uma versão em escala real — quatro metros de comprimento e 650 quilos — da miniatura com que Vik brincava na infância, com direito aos desgastes na tinta produzidos pelo tempo.
— Aqueles carrinhos da Matchbox são feitos para, quando a criança ficar mais velha, querer ter um carro. Só que quando você cresce e pode ter um carro de verdade, volta a ter vontade de brincar de carrinho. Aí você percebe que na verdade queria era ter um brinquedão gigante — finaliza.
Vik Muniz com 'Ferrari Berlinetta' (2014) no CCBB
Guito Moreto
Serviço
Onde: CCBB, Centro.
Quando: qua a seg, das 9h às 20h. Até 7 de setembro.
Quanto: grátis.
