Dados do Cadastro Único (CadÚnico) registram 1.015 pessoas em situação de rua atualmente em Niterói.
O tema ganhou destaque entre as reclamações de moradores da Zona Sul, que, com 58,23% dos votos, apontaram este como o principal problema da região em enquete realizada pelo GLOBO.
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A prefeitura afirma que mantém uma política específica para esse público por meio do Programa Recomeço, voltado ao acolhimento e à reinserção social, com serviços que incluem educação, acesso ao mercado de trabalho e moradia.
Segundo o secretário municipal de Assistência Social, Elton Teixeira, mais de 740 pessoas foram encaminhadas de volta a seus locais de origem desde a implantação do programa, no início de 2025.
— Essa é uma questão sensível, que precisa de um olhar mais amplo.
Em Niterói, conseguimos encaminhar mais de 740 pessoas para seus locais de origem, sempre levando em conta contatos prévios com familiares e acompanhamento em todas as etapas.
Cerca de 80% das pessoas nessa situação são de fora da cidade — disse.
O secretário, porém, ressalta que o número do CadÚnico não representa de forma precisa a realidade desse grupo.
A professora da Escola de Serviço Social da UFF Mônica Senna participou, em 2023, do projeto “População em situação de rua em Niterói: subsídios para a construção de uma política municipal”, elaborado para contribuir com as políticas públicas destinadas a esse grupo.
O levantamento ouviu 157 pessoas: 118 homens, 34 mulheres e quatro pessoas trans.
Para a pesquisadora, ainda existem lacunas para um levantamento censitário capaz de dimensionar essa população.
O CadÚnico é uma das principais bases utilizadas para estimar o número de pessoas em situação de rua, mas pode deixar de fora quem não conseguiu acessar os serviços públicos.
Outro fator é a mobilidade desse grupo, que não necessariamente permanece em um único ponto da cidade.
— Existem estimativas, mas não um censo.
O IBGE começou a estudar o assunto.
Esse ponto é importante para evidenciar de forma mais concreta o entendimento sobre essa questão, fruto da desigualdade social e da crise econômica.
A pandemia também contribuiu para tornar ainda mais vulnerável quem já estava nessa situação.
Mas podemos perceber, de maneira geral, que o perfil da população em situação de rua mudou.
Hoje são famílias inteiras nessas condições.
É comum colocarmos todos no mesmo padrão, mas esse é um grupo heterogêneo, com diferentes singularidades — afirmou.
Mônica também chama a atenção para a concentração dessa população em áreas de maior circulação, comércio e serviços, como a Zona Sul — e especialmente Icaraí.
Segundo ela, parte dos moradores em situação de rua encontra na informalidade uma forma de geração de renda.
O levantamento coordenado pela professora ajuda a traçar esse perfil.
Entre os entrevistados, 56% disseram trabalhar com reciclagem, 37% atuavam como vendedores de rua e 9% como guardadores de veículos.
Vagas em hotéis
Em Icaraí, as reclamações de moradores quanto à a presença de pessoas em situação de rua é recorrente.
Em maio, durante uma conversa no grupo de WhatsApp Rua Segura, que reúne mais de 260 moradores de Niterói e gestores públicos, o titular da Subsecretaria Operacional da Secretaria de Ordem Pública chegou a sugerir a um morador que “vendesse ou alugasse o seu imóvel” para comparar a realidade do município com a de outras cidades.
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A declaração ocorreu após o morador reclamar da presença de pessoas em situação de rua na região.
O episódio gerou repercussão no grupo.
Procurado, o morador Eric Meyer afirmou que continua preocupado com a situação em Icaraí e bairros próximos.
Segundo ele, há relatos de pessoas vivendo embaixo do viaduto da Avenida Ary Parreiras e sob marquises da Rua Ator Paulo Gustavo e da Rua Gavião Peixoto, além de outros pontos da cidade.
— Eles sujam as ruas, depredam patrimônio público e privado, intimidam as pessoas, depreciam os imóveis próximos de onde ficam, atrapalham o comércio, invadem residências e lojas e furtam fios e metais por onde passam.
Também colocam fogo em fios, gerando fumaça e poluição, e brigam entre si.
Comércio e proprietários de imóveis acabam tendo prejuízos, e o direito de ir e vir é prejudicado — afirmou.
Outra medida anunciada pela prefeitura é a contratação de 148 vagas em hotéis para atendimento à população em situação de rua.
De acordo com Elton Teixeira, a iniciativa ainda está em fase de licitação, e a empresa responsável pela operação deverá ser definida até o fim deste mês.
A medida faz parte de uma política que, segundo a prefeitura, busca ampliar as alternativas de acolhimento.
O desafio, porém, vai além da oferta de vagas: envolve identificar o tamanho real da população, compreender os diferentes perfis e ampliar ações de moradia, trabalho, saúde e reinserção social.
