Máfia do lixo: Esquema de lixões clandestinos em Jardim Gramacho cobrava taxas sob influência do CV, diz delegado
Uma operação da Polícia Civil do Rio deflagrada nesta sexta-feira mira um esquema de descarte clandestino de lixo que operava na região de Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. As investigações apontam que o grupo explorava lixões ilegais e contava com a cobrança de taxas por traficantes ligados ao Comando Vermelho (CV) para permitir que caminhões despejassem resíduos na área. Até a última atualização, duas pessoas haviam sido presas em flagrante por crimes ambientais. Ao todo, agentes cumprem 86 mandados de busca e apreensão em diferentes municípios do estado e também em São Lourenço.
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A ação é coordenada pela Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente (Dpma) e faz parte de uma investigação que apura o funcionamento de uma espécie de “máfia do lixo”, estruturada para lucrar com o descarte irregular de resíduos. Os mandados são cumpridos na capital, em Magé, Belford Roxo, Mesquita, São João de Meriti, São Gonçalo, Paracambi, Seropédica, Resende e Paty do Alferes. Entre as empresas citadas nos mandados de busca e apreensão está a Águia Entulhos Transportes. Na manhã desta sexta-feira, a defesa da empresa esteve na Cidade da Polícia acompanhando o andamento das diligências. Até o momento, não houve manifestação pública da empresa sobre as investigações
Segundo a polícia, os agentes identificaram uma estrutura criminosa voltada ao descarte irregular de resíduos sólidos em áreas clandestinas na região de Jardim Gramacho. Durante diligências, policiais flagraram um fluxo recorrente de caminhões realizando despejos ilegais, inclusive com abertura de acessos improvisados e avanço sobre áreas de manguezal.
Facção cobrava taxas
De acordo com o delegado Fábio Asty, as investigações indicam que traficantes passaram a explorar economicamente a atividade de descarte irregular em Jardim Gramacho, cobrando taxas para permitir a entrada de caminhões nas áreas de lixão clandestino. Segundo o delegado, os investigadores identificaram ao menos dez barricadas no entorno das áreas de descarte ilegal em Jardim Gramacho, o que indicaria controle territorial por criminosos e reforça a suspeita de que caminhões pagavam para acessar os pontos clandestinos de despejo.
Segundo ele, a facção percebeu o potencial financeiro do esquema e passou a atuar como uma espécie de “gestora” do território, permitindo a atividade mediante pagamento.
— O Comando Vermelho tem observado e expandido financeiramente essas atividades ilícitas no Jardim Gramacho. Eles perceberam que isso poderia ter um potencial econômico, à medida que passam a cobrar taxas para que seja feito o descarte no local — explicou o delegado.
Agora, a investigação tenta identificar como funcionava esse fluxo de pagamentos, qual era o valor cobrado e quais empresas de transporte ou geradoras de resíduos participavam do esquema.
— A investigação vai verificar qual era exatamente o valor dessas taxas, quais empresas faziam o descarte e se estavam pagando aos narcotraficantes — afirmou Asty.
Áreas de manguezal
As apurações da Dpma identificaram um fluxo recorrente de caminhões despejando resíduos em áreas não licenciadas de Jardim Gramacho, inclusive em regiões de manguezal — ecossistemas considerados estratégicos para o equilíbrio ambiental da Baía de Guanabara.
Para facilitar a entrada dos veículos, os investigadores mapearam acessos improvisados abertos na vegetação, além da derrubada de áreas verdes.
Segundo a polícia, a prática funcionava como uma alternativa ilegal para reduzir custos logísticos, já que o transporte até um aterro licenciado pode exigir deslocamentos de até 70 quilômetros.
O local regular mais próximo para destinação do lixo fica a cerca de 70 km de distância, com um tempo estimado de cerca de uma hora. De acordo com a investigação, somente com combustível a economia poderia chegar a R$ 340 por viagem. Considerando que cada caminhão transporta cerca de seis toneladas de carga útil, o custo de um trajeto até um destino regular seria de aproximadamente R$ 654. No esquema investigado, o descarte irregular era cobrado por cerca de R$ 25 por caminhão.
Durante a investigação, os agentes também localizaram três áreas diferentes utilizadas como lixões clandestinos na região de Jardim Gramacho.
CTR
Um Centro de Tratamento de Resíduos (CTR) da região também foi alvo da operação. De acordo com a polícia, há suspeitas de que o local estivesse recebendo resíduos fora da área licenciada e aceitando lixo doméstico, o que não estaria previsto nas autorizações ambientais.
Peritos estiveram no local para avaliar as condições da operação e levantar possíveis irregularidades. Segundo o delegado Fábio Asty, os laudos técnicos ainda estão sendo produzidos e serão fundamentais para o avanço da investigação.
— Os peritos criminais estiveram nessas localidades e os laudos ainda vão ser produzidos. Esses documentos vão servir de base para verificar se houve depósito ilegal de resíduos sólidos na área — explicou.
Durante o cumprimento dos mandados, os policiais buscam principalmente documentos ligados ao transporte de resíduos, como:
romaneios de carga
manifestos de transporte
registros de movimentação de caminhões
licenças ambientais
Além disso, celulares, notebooks e outras mídias eletrônicas também estão sendo apreendidos para análise.
Apreensão de animais silvestres
Durante as diligências, agentes também apreenderam duas araras-canindés e um papagaio em uma casa na região de Bonsucesso, na Zona Norte da capital.
Animais apreendidos durante a operação
Divulgação/Polícia Civil
O morador não possuía autorização para manter as aves em cativeiro e foi encaminhado à delegacia para prestar esclarecimentos.
A Polícia Civil segue com as buscas. A suspeita é que o sistema envolvesse empresas de transporte, geradores de resíduos e operadores locais, além da cobrança de taxas por traficantes que controlam a região.
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