Mães relatam tripla jornada, mas inspiram filhos enquanto equilibram trabalho e família

 

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De Maceió, a psicóloga Camilla Monteiro é uma das muitas mulheres brasileiras que vivem na tentativa de equilibrar o cuidado com os filhos entre os afazeres domésticos e o trabalho remunerado.

Enquanto as crianças estão na escola, Camilla aproveita para atender os pacientes no consultório. Mais tarde, com os filhos já em casa, é preciso dar conta de fazer a comida, lavar a roupa, limpar a casa e ainda administrar a empresa que ela tem com o marido.

“Tenho dois filhos pequenos, um menino de 4 anos e uma menina de 2, e minha rotina é bastante puxada: ela se divide entre os cuidados com as crianças, as tarefas da casa e o trabalho fora. Nos fins de semana, a sobrecarga aumenta com as demandas de limpeza geral e o preparo das refeições da semana. Para lidar com tudo isso, conto com o apoio do meu marido", conta.

O casal conseguiu alinhar a divisão de tarefas dentro de casa, assim como a diretora de escola, Angela Bertoli. De São Paulo, além de tocar a instituição, ela também é dona de uma loja de brinquedos adaptados para crianças com deficiência visual.

Família da Angela, com os filhos Gabriel e Julia; marido Ivan; e a mãe, dona Esther

Arquivo pessoal

Em meio a correria dos trabalhos e com dois filhos, ela adequa a rotina para se dedicar também à própria mãe, que hoje em dia mora com ela e depende dos seus cuidados. “A gente também acaba assumindo um pouco o papel de filha, comprando remédios e levando os pais ao médico. Tenta ser mãe, esposa e dar conta de tudo ao mesmo tempo. Além disso, a escola também ocupa os fins de semana, com atividades, festas e reuniões. Até o fim de junho, por exemplo, não tenho nenhum sábado livre — todos já estão comprometidos”, relata.

Angela conta que desde sempre procurou ensinar para os filhos a importância de ter a ajuda deles nas tarefas de casa — responsabilidade que o marido também assume.

A 'escala 7x0' das mulheres brasileiras

Camilla e Angela, felizmente, escapam das estatísticas: a realidade é que o trabalho de cuidado dentro de casa costuma pesar de forma desproporcional nas costas das mulheres. De acordo com dados do IBGE, divulgados em 2022, elas dedicam, em média, 21 horas semanais — um total de dez horas a mais que os homens, para cuidar da casa e da família.

Essa divisão das tarefas de acordo com o gênero resulta numa dupla ou tripla jornada de trabalho. Em meio à discussão sobre o fim da escala 6x1 no Brasil, muitas mulheres vivem na pegada 7x0: quando finalmente chegam em casa, o trabalho ainda não acabou.

Entre os estados do país em que elas mais dedicam o próprio tempo para os afazeres domésticos e cuidado com os filhos, Alagoas ocupa a primeira posição: as mulheres gastam uma média de 25 horas semanais; já os homens, 13 horas. Em seguida, vem Sergipe, Ceará, Rio Grande do Norte e Pernambuco.

Do Cariri cearense, a advogada familiarista e professora universitária Lívia Palhano explica que o trabalho de cuidado limita a inserção das mulheres no mercado formal. “Inclusive, uma tese que a gente sempre sustenta é a do capital invisível investido na maternidade. Esse valor está relacionado ao tempo dedicado ao cuidado dos filhos, o que inevitavelmente impacta a vida financeira das mulheres [...]. A maioria das mulheres, quando chega em casa — momento que deveria ser de descanso — enfrenta uma terceira jornada, cuidando dos filhos, acompanhando atividades e administrando a rotina da casa. É um trabalho ininterrupto", afirma.

"O tempo gasto nesse trabalho de cuidado poderia estar sendo investido na ascensão profissional e na melhoria da renda obtida com o trabalho remunerado. Por isso, falamos em tripla jornada de trabalho", diz a advogada.

A dedicação que atravessa gerações

E todo o esforço durante muitos anos para cuidar da família mais para frente pode ser refletido nas conquistas desses filhos, que agora reconhecem a dedicação da mãe. Aos 30 anos, Junior Azuos conta que, numa infância de relacionamento mais conturbado com o pai, a mãe dele foi fundamental para que ele conseguisse ir à escola, ter acesso à leitura e fizesse cursos extras que tivesse vontade.

Junior Azuos com a mãe, Edna

Arquivo pessoal

Hoje músico e educador, Júnior reconhece a importância do papel de Dona Edna para que ele seja bem-sucedido atualmente. “Minha mãe trabalhava em escala 6x1, naquela rotina muito intensa de shopping. Ela tinha dificuldade de estar presente o tempo todo, mas, ao mesmo tempo, precisava dar conta de todo o resto. Apesar disso, sempre foi muito incentivadora. Desde cedo, me estimulou a estudar e apoiou minhas escolhas. Quando quis começar a estudar música, por exemplo, ela me ajudou bastante", reflete.

"Tudo isso fez muita diferença para o meu desenvolvimento acadêmico e profissional", completa Junior ao falar da dedicação da mãe.

Esse cuidado das mulheres, que foram cuidadas por outras mulheres, vem com muita sobrecarga e esgotamento, e deve ser reconhecido como um trabalho que constrói os filhos e filhas que movem a nossa sociedade graças à dedicação de anos, dentro e fora de casa, das próprias mães.