'Mães de UTI' falam de laços de amizade e de transformações após experiências diversas em hospitais

 

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José, santo celebrado pela Igreja Católica como o guardião das famílias, inspirou Alexandra Silva a batizar seu filho, José Miguel, com quem hoje passará seu primeiro Dia das Mães. Era a ele que a paraibana de 33 anos clamava quando temia pela saúde de seu bebê, que nasceu de seis meses e com 800g no Instituto Fernandes Figueira (IFF), da Fiocruz. O prematuro passou meses internado. Não fosse o acolhimento de profissionais de saúde e de outras “mães de UTI”, ela teria enfrentado a fase mais difícil de sua vida sozinha no hospital.

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— Me separei do pai do Miguel em agosto do ano passado. Eu estava grávida de três meses. Hoje, ele não quer saber do menino, não paga pensão — diz ela, que engravidou durante o relacionamento de dez anos e separou por ter descoberto, gestante, uma traição.

Olhar sensível

Durante a gravidez, já separada, ela passou por procedimentos cirúrgicos para manter a gestação, tomou remédios e teve que fazer uma cesárea de emergência.

— Foi difícil. Depois disso, meu filho passou meses internado. Eu não tive resguardo, não fiquei um dia em casa, ia sozinha para o hospital. Miguel foi intubado, depois foi para o Setup (setor de controle térmico e respiratório), parava de respirar... Ele teve apneia. Quem me acolhia eram as enfermeiras, a psicóloga. A a doutora Viviane foi maravilhosa e esteve comigo desde o comecinho até o dia da alta. O dia mais feliz da minha vida foi quando vi meu filho sem os aparelhos — lembra Alexandra, que vai passar o primeiro Dia das Mães grudadinha no amado Miguel.

Nos meses de convivência com equipes de saúde do IFF, a moradora da Ilha do Governador fez amizade com outra mãe de UTI, Fabiola Santos, de 30 anos. A moradora do Morro da Coroa, em Santa Teresa, teve as gêmeas Maria Livia e Maria Liz também sem apoio do pai das crianças e viveu a prematuridade com o suporte de Alexandra e de cerca de nove outras mães que trocam palavras de apoio pessoal ou virtualmente.

A ajuda mútua entre as mães é observada há décadas no IFF, que existe há mais de cem anos. Letícia Villela, pediatra e neonatologista do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira conta que dezenas de mães enviam mensagens orgulhosas das conquistas dos filhos após a alta.

Fernandes Figueira. Na maternidade da Fiocuz, Fabiola Santos e as gêmeas prematuras Maria Livia e Maria Liz recebem os cuidados de Letícia Villela, Laura Vitorino e Debora Ferreira (de óculos)

Marina Calderon / Agência O Globo

— Com prematuro, é muito importante não perder os momentos. Então, o contato é fundamental. A gente vê a necessidade não só das crianças, mas da família como um todo. As mães de bebês que saíram de unidades neonatais muitas vezes estão sobrecarregadas, ansiosas, deprimidas — conta Letícia. — A equipe é sensível com esse olhar. Quando chega uma mãe, procura-se saber como ela está mental e fisicamente, qual é o contexto da casa. A relação fica mais forte e mais segura, elas se sentem confiantes. É importante elas se sentirem, verdadeiramente, parte de um cuidado.

Além dos protocolos comuns ao dia a dia da áreas de saúde, um projeto chamado Cuidadoria de Mães já ofereceu, desde o ano passado, cem atividades para mulheres que acompanham os filhos nesta situação: de seminários de direitos humanos a massagens e acupuntura. Na próxima quarta, haverá um bolo com sorteio de brindes.

Em outros hospitais do Rio, já existem práticas semelhantes. Centros hospitalares e projetos sociais promovem conscientização sobre a realidade multifatorial da prematuridade e a grande necessidade de atendimento humanizado para as famílias.

— Minha filha nasceu 13 anos atrás com 23 semanas e um dia, chegando a pesar 480 gramas. Ela ficou seis meses na UTI. Eu fiquei dois meses internada, corremos risco. Trabalho no SUS há 20 anos e, naquela época, decidi: continuaria e teria que oferecer suporte informacional técnico de qualidade para famílias que não tiveram as mesmas possibilidades que eu tive — revela ela, que faz parte do Centro de Neurodesenvolvimento da Policlínica Dr. Guilherme Romano, do Instituto Idomed, na Barra, e dá aula para profissionais que também trabalharão no SUS.

Transformada pela dor

A Acip promove no Rio, em São Paulo e em outras cidades do país mutirões de informação e avaliações de neurodesenvolvimento. As orientações se justificam porque a prematuridade, em grande parte das vezes, exige acompanhamento de anos a fio por equipes multidisciplinares.

Teresa Ruas, da Acip, com uma das mães já assistidas pelo projeto

Arquivo pessoal

— A gente acolhe famílias que não têm chances de ter seus filhos tratados por fonoaudiólogo, fisioterapeuta, nutricionista. Sabemos qual é a realidade do nosso país. Ainda há uma escassez de programas que se destinam ao acompanhamento integral desses bebês e de suas famílias — afirma Teresa.

O olhar da friburguense Mariana Dopazo para a vida também foi transformado com a experiência de mãe de UTI. Durante a gestação, foi constatado um erro de avaliação médica em seu pré-natal, no interior do Rio. A jovem, então, foi encaminhada à capital, ao Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe), da Uerj, para acompanhar o fim da gravidez. Maitê nasceu prematura e era cardiopata.

Durante o acompanhamento da internação de alta complexidade, Mariana pôde dar banho, segurá-la no colo e sentir a intensidade de sua passagem de quatro meses. A bebê partiu em setembro de 2023. Ela descreve às lágrimas o cuidado e a sensibilidade da equipe do Hupe, que incluiu as enfermeiras Carla Pina e Marcelle Campos e a fisioterapeuta Lia Brasil, e a completa modificação de seus planos depois do que viveu.

No Pedro Ernesto. Mariana Dopazo pôde dar banho e sentir a intensidade do amor de mãe. Ela se despediu de Maitê em 2023

Arquivo Pessoal

— Fiquei 120 dias no hospital. Se tenho a cabeça de hoje, é graças a elas que me abraçaram — emociona-se. — Construímos um vínculo desde o primeiro dia de vida da Maitê. Eu participava da rotina, dava banho, trocava fralda, à noite eu recebia fotos, sempre respeitando o que era permitido, claro. Hoje escutamos falar muito sobre tratamentos “humanizados”, mas vemos enganos e absurdos. Eu vi a real prática da humanização. Pude me despedir, segurá-la no colo. Existe uma Mariana antes e outra depois da Maitê. Ela veio para me ensinar muito. Comecei a fazer Enfermagem e me formo este ano. Quero fazer pelas pessoas o mesmo que fizeram por mim.