Mãe África, de Clara Nunes, exaltou o bastão de Xangô e o caxangá de Oxalá

 

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Em 1982, Clara Nunes eternizou uma das mais belas homenagens à ancestralidade africana gravadas na música brasileira. A canção Mãe África, composta por Sivuca e Paulo César Pinheiro, fez parte do álbum Nação, lançado pela EMI-Odeon, e marcado como o último disco lançado pela cantora.

“Mãe África” é uma autêntica ‘àdúrà tí a kọrin’, uma oração cantada. É memória viva. É um chamado para que o Brasil nunca esqueça quem ajudou a construir sua alma, sua cultura, sua fé e sua força. Na voz de Clara, cada verso ganha verdade, respeito e emoção. Ela não apenas interpreta a canção. Parece conversar com os ancestrais através do canto.

Quando Clara canta que “mãe preta me ensinou tudo, aqui nós que construiu”, ela devolve dignidade a uma história muitas vezes silenciada. Sua voz firme e doce transforma a música em um abraço espiritual que atravessa gerações e desperta orgulho das raízes africanas presentes em cada canto do nosso país.

A composição ainda carrega símbolos sagrados poderosos. O bastão de Xangô, seu Oṣé Mímọ́, o grande machado sagrado de duas lâminas, representa autoridade, justiça, equilíbrio, e também o poder de cortar o mal e manter a ordem através da sabedoria.

E quando a canção cita o caxangá de Oxalá, a poesia ganha um brilho ainda mais profundo. Na beleza musical criada por Sivuca e Paulo César Pinheiro, o termo surge como um símbolo sagrado ligado ao mistério da criação, como a bolsa simbólica carregada por Oxalá para moldar o mundo e espalhar a vida. Independentemente das diferentes interpretações linguísticas da palavra, a força poética da obra permanece intacta, conduzindo o ouvinte para um lugar de respeito, ancestralidade e encantamento.

“Mãe África” continua atual porque fala de identidade, pertencimento e gratidão. Clara Nunes cantou África com a alma aberta, sem medo de exaltar a herança negra que pulsa no coração do Brasil. Talvez seja exatamente por isso que sua voz continue tão viva, tão necessária e tão emocionante até hoje.

Quem ouve “Mãe África” não escuta apenas uma música. Escuta um chamado para lembrar de onde viemos e compreender que um povo sem memória perde a conexão com a própria essência.

Letra da música Mãe África

No sertão, mãe que me criou

Leite seu nunca me serviu

Preta Bá foi que amamentou

"Fio" meu e o "fio" de meu "fio"

No sertão, mãe preta me ensinou

Tudo aqui nós que construiu

"Fio", tu tem sangue Nagô

Como tem todo esse Brasil

Oiê, pros meus irmãos de Angola, África

Oiê, pra Moçambique-Congo, África

Oiê, pra toda a nação Bantu África

Oiê, do tempo do Quilombo, África

Pelo bastão de Xangô

E o caxangá de Oxalá

Filho Brasil pede a bênção Mãe África

Pelo bastão de Xangô

E o caxangá de Oxalá

Filho Brasil pede a bênção de Mãe África

Oiê, pros meus irmãos de Angola, África

Oiê, pra Moçambique-Congo, África

Oiê, pra toda a nação Bantu África

Oiê, do tempo do Quilombo, África

Pelo bastão de Xangô

E o caxangá de Oxalá

Filho Brasil pede a bênção Mãe África

Pelo bastão de Xangô

E o caxangá de Oxalá

Filho Brasil pede a bênção de Mãe África

Oiê, pros meus irmãos de Angola, África

Oiê, pra Moçambique-Congo, África

Oiê, pra toda a nação Bantu África

Oiê, do tempo do Quilombo, África

Pelo bastão de Xangô

E o caxangá de Oxalá

Filho Brasil pede a bênção Mãe África

Pelo bastão de Xangô

E o caxangá de Oxalá

Filho Brasil pede a bênção de Mãe África

Pelo bastão de Xangô

E o caxangá de Oxalá

Filho Brasil pede a bênção Mãe África

Pelo bastão de Xangô

E o caxangá de Oxalá

Filho Brasil pede a bênção de Mãe África

Pelo bastão de Xangô

E o caxangá de Oxalá

Filho Brasil pede a bênção Mãe África

Ẹnití bọ̀wọ̀ fún àwọn ésà rárá kaṣẹ̀ láìsí ìtọ́sọ́nà. (Quem reverencia os ancestrais, não caminha sem direção.)

Axé para todos!