Mãe de pet é mãe? Entenda a polêmica que envolve sentimentos ‘maternos’ por animais de estimação e os direitos das mulheres

 

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A história entre a fonoaudióloga Maria Eduarda Lovato, de 35 anos, com o gato Tunico, de 3, começou de forma despretensiosa. O felino apareceu no prédio de um então namorado, em 2024, em uma noite chuvosa. Com seu jeito carinhoso, conquistou os moradores, e ela em especial. “Tunico era magrinho, arisco e tinha sarna. Sentia-me mal de vê-lo daquele jeito, e decidi levá-lo ao veterinário para tratar e castrar. Criamos um vínculo”, explica. A ideia era que, após o tratamento, o gato se tornasse comunitário, mas acabou ganhando a casa e o coração de Maria Eduarda, que não pretende ter filhos. “Eu o defendo, dou carinho, como se fosse um humano. É um amor muito grande, e sinto que realmente sou mãe dele”, diz.

Maria Eduarda Lovato e o gato Tunico

Arquivo pessoal

Mas, afinal, dona de pet é mãe? A pergunta, polêmica, provoca reações acaloradas em quem acredita que ela rouba o protagonismo da extenuante tarefa do maternar humano. Porém, não é exagero dizer que muitas famílias têm tratado os animais de estimação como se fossem filhos. O Brasil é hoje, segundo pesquisa de 2024 feita pela Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet) e pelo Instituto Pet Brasil, o terceiro país do mundo em número de pets. São 160 milhões deles, uma média de 2,2 por residência. “A tutela de um ser vivo passa por vinculação e censo de validação. Você pode cuidar, amar, proteger, amparar. O que caracteriza a relação entre seres humanos e o animal de estimação, no que se assemelha à maternidade, vai além da biologia”, explica a psicóloga e especialista em neurociência Cinthia Alves Prais. Para a profissional, há um olhar idealizado e romântico em relação à maternidade. “É uma atribuição de significado absolutamente individual e íntimo. Ser mãe de pet pode sim ser considerada uma experiência legítima”, acredita. A relação com os bichinhos, diz ela, ativa áreas do cérebro relacionadas ao apego e empatia, semelhantes às interações que temos com outros seres humanos.

Tutora do shih tzu Pingo, de 9 anos, a coordenadora de tecnologia Sheyla Watanabe, de 41, diz que o pet foi, muitas vezes, sua única companhia em momentos difíceis. “Amor de mãe não diz respeito apenas à biologia. É amar, cuidar, proteger. O Pingo me trouxe uma perspectiva tão diferente de carinho, que ocupa um lugar especial na minha vida. Transmite segurança emocional e amorosa, que não tive com outro ser humano”, pontua. Na rotina do pet, estão fisioterapia uma vez por semana, e consultas frequentes com endocrinologia e cardiologista. “ Não meço esforços nesses cuidados. Gasto mais na saúde dele do que comigo”.

Sheyla Watanabe e o shih tzu Pingo

Arquivo pessoal

Mesmo com tanto amor é preciso ponderação, acredita Tatiana Generali, de 40 anos, idealizadora do projeto “Mamãe acolhe”, que traz debates sobre infância e adolescência. “Tive um gato antes do meu filho, Miguel, de 8 anos, nascer. Tenho um amor enorme pelo meus pets, mas não dá para comparar”, acredita ela. Há uma preocupação, também, sobre os direitos das mulheres que são mães. “Se você adota um animal, não corre o risco de ser demitida depois, como acontece após o nascimento de um bebê. A responsabilidade com o filho é muito superior.”

Para a veterinária Míriam Cheung, cães e gatos possuem sensibilidade aguçada, capazes de reagir às demandas dos donos. “Há pessoas que fazem uma comunicação intuitiva com os pets. Trabalho com acupuntura, área mais energética, então, acredito que isso realmente exista”, afirma. Se antes os animais tinham uma função de serviço ou trabalho, hoje estabelecem-se como membros da família. “Eles nos dão amor, trazem bem-estar e felicidade. E ainda nos consolam sem julgar”, finaliza Míriam.