Mãe de Paulo Gustavo, Déa Lúcia consola fãs dele todos os dias: 'Rio, brinco, mas também me solidarizo com a dor'
"Cuidado pra não amassar o meu cabelo!", alerta Déa Lúcia Amaral, com seu jeito peculiarmente efusivo, ao receber um abraço apertado desta repórter. Ela explica que dormiu de bobes para que o penteado ficasse impecável para as fotos do EXTRA.
— Eu durmo de rolos na cabeça há anos. Outro dia, meus netos viram na estante uma foto de Paulo Gustavo caracterizado como Dona Hermínia. Gael me perguntou: “Vovó, papai Paulo usava roupa de mulher, né?”. Pensei: “Ai, meu Deus do céu! O que eu posso responder que não contrarie o Thales (Bretas)?”. Afinal, eu não gosto de desrespeitar a educação que meu genro dá aos filhos... Não é porque sou avó que posso tudo. Antes mesmo que eu dissesse qualquer coisa, Romeu se manifestou: “É porque ele imitava você, né, vovó?”. Fiquei aliviada! — relata Dona Déa, de 78 anos, citando a famosa personagem nela inspirada, protagonista de “Minha mãe é uma peça”.
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No momento, os meninos de 6 anos, filhos do humorista com o médico dermatologista estão encantados pela figura de Michael Jackson, ela conta:
— Não sei se os dois já assistiram ao filme, mas eu os levei para ver o espetáculo do Rodrigo Teaser (sósia brasileiro do Rei do Pop). Eles ficaram paralisados, quiseram tirar foto com ele. Eu achei que estavam acreditando que era o próprio Michael, mas depois me falaram: “Não é ele, vovó! Michael Jackson já morreu, igual ao papai Paulo”.
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Déa recebeu a equipe do EXTRA em seu apartamento no Leblon, na Zona Sul do Rio, na última segunda-feira, quando se completaram exatos cinco anos da partida de seu primogênito para outro plano. Em 4 de maio de 2021, o Brasil dava adeus a um de seus maiores artistas, e ela chorava a perda de seu filho muito amado para a Covid, durante uma pandemia devastadora. Sensível, Déa não segurou a emoção ao relembrar o fatídico dia.
— Para uma mãe, não existe dor maior do que a de perder um filho. Quem me ajudou está lá em cima (ela faz referência a uma força divina). Sou espiritualista, por isso sempre lidei com a morte com mais facilidade. Acredito que a gente vem, vive e tem a hora de ir embora. Que bom que tenho conseguido deixar um legado de amor para as mães que também batalham por seus filhos, como eu fiz com o meu — diz ela, com os olhos marejados: — Quantas mulheres já vieram me agradecer: “A senhora me ensinou muito, Dona Déa, me ajudou a unir minha família”. Os filhos gays também: “Obrigado, tia, você é maravilhosa! Eu fui aceito pelos meus pais, meus avós, meus padrinhos”. Não falo isso como um sinal de vaidade, mas ando na rua e vem todo mundo com esse carinho.
Diariamente, em todos os lugares a que vai, Déa é relembrada de seu luto. Aos prantos, fãs lhe falam sobre a dor pela ausência do ídolo. E, na maioria das vezes, é ela quem os consola.
— Se eu sirvo de exemplo para rir e brincar, também me solidarizo com a dor das pessoas. Outro dia, chamei a atenção da Ju (Juliana Amaral, de 45 anos, sua filha caçula): “Você conhece alguém que está vivo desde a criação do mundo? Não sabemos qual é o nosso tempo. Você não é a única que perdeu um irmão” — diz, firme.
Déa Lúcia e o filho, Paulo Gustavo
Reprodução de Instagram
Mãe e filha uniram forças e saudades para prestar uma homenagem grandiosa a Paulo Gustavo: no próximo dia 28, estreia “Meu filho é um musical”, no Teatro Multiplan VillageMall, na Barra da Tijuca, Zona Sudoeste do Rio. A superprodução no estilo Broadway revisita toda a trajetória do humorista, da infância em Niterói à consagração nacional. No palco, Dona Déa é interpretada por Stella Maria Rodrigues, atriz que viveu Ana, “a vaca”, sogra de Juliano (representação de Paulo Gustavo feita por Rodrigo Pandolfo) na trilogia “Minha mãe é uma peça” nos cinemas.
— Eu choro o tempo todo vendo os ensaios. Quando Stella pega o chinelo e vai atrás dos filhos, penso: “Meu Deus, é igual a mim!”. Foi o próprio Paulo quem a escolheu para ser eu quando colocou na Stella a peruca e disse que no ano seguinte quem faria Dona Hermínia seria ela, já que ele estaria ocupado. Postei esse vídeo no meu Instagram (em que soma 1,7 milhão de seguidores). Tinha que ser ela! — sublinha Déa, que foi convidada para fazer a abertura do musical, quando sua agenda permitir: — Mas não sei se eu vou conseguir, por conta da emoção... Eu travo em cena.
Déa Lúcia e os netos, Romeu e Gael
Reprodução de Instagram
Déa Lúcia já é mais do que “a mãe de Paulo Gustavo” e “musa inspiradora de Dona Hermínia”. Integrante do elenco fixo do “Domingão com Huck” há quatro anos, ela vem construindo a sua própria carreira como artista desde “Filho da mãe” (2019), o último espetáculo de Paulo Gustavo. Junto com ela nos palcos do Brasil, ele apresentou a faceta cantora da então dona de casa, que por muitos anos soltou a voz em festas e bares de Niterói. A certa altura, Déa teve que abrir mão do sonho de se profissionalizar na vida artística.
— Eu já cantei ao lado do Herivelto Martins, o que você quer mais? Fui criada e criei meus filhos nesse ambiente de música, de alegria. Cantei na noite para ajudar no sustento dos dois. Eu fazia quentinha para vender, porque não tinha dinheiro para pagar uma babá. Aí botava Paulo Gustavo e Juliana para entregar as embalagens com comida. Ele dizia: “Vou de patins!”. Eu agarrava ele pela camisa e ameaçava: “Se você derrubar uma quentinha que seja, sua cara vai ficar quentinha!” — recorda-se, saudosa.
Déa Lúcia e a filha, Juliana Amaral
Reprodução de Instagram
Adepta dos gritos e palavrões (“Perto dos meus netos, eu fico mais contida”, confidencia), Dona Déa está longe de ser uma mãe conservadora.
— Não mesmo! Sempre acompanhei a vida dos meus filhos e dos amigos deles. Não sou aquela que nasceu em 1947 e parou no tempo. Paulo Gustavo me ensinou a ser mãe. Que amor é esse que as mulheres dizem ser o maior da vida, mas, quando os filhos são gays ou lésbicas, como os meus, não aceitam? Querem que se casem na igreja... Nem eu me casei com Júlio na igreja! Só no civil. E me separei cinco anos depois. Hoje, estou solteira, graças a Deus! — exalta ela, contando que ser mãe, sim, era a sua maior vontade: — A maternidade era o meu sonho dourado. Vou ser sincera: só me casei para poder ter filhos. Na época, mãe solo era malfalada.
Foi num Dia das Mães, aliás, que Déa Lúcia recebeu a notícia mais especial de sua vida:
— Eu e Paulo Gustavo fomos apresentar o espetáculo “Filho da mãe” num sábado, em Belo Horizonte (MG). E estavam lá Juliana, Júlio (pai de seus filhos), Penha (mulher do ex-marido)... Aí, no domingo, fomos almoçar na casa dos pais do Thales. E lá, eles fizeram o anúncio: “Você vai ser vovó!”. Eu quase morri do coração! Só chorava...
Déa Lúcia caracterizada como Dona Hermínia: musa inspiradora do filho
Reprodução de Instagram
Se avó é mãe duas vezes, Déa garante que não mima Romeu e Gael em dobro.
— Com crianças é bom fazer trato, porque elas cumprem. Avisei aos dois que não compraria coisas caras pra eles toda vez que a gente se encontrasse. Numa hora dou o que eles querem, em outra dou uma coisinha baratinha. Eles precisam ter noção que a vida não é fácil. Mas eles ficam desesperados para vir pra minha casa! — conta, babona, a vovó que trocou Niterói pelo Rio justamente para ficar perto dos netos.
Preto Zezé, Dona Déa, Ed Gama, Evelyn Castro, Luciano Huck e Lívia Andrade no "Domingão com Huck"
Manoella Mello/Rede Globo/Divulgação
'Meu filho é um musical'
O espetáculo reúne 32 atores em cena, acompanhados por uma orquestra de 13 músicos e o maestro. São 25 cenários e cerca de 300 figurinos na montagem, com texto de Fil Braz, colaboração dramatúrgica de Beatriz Coelho e direção de Ju Amaral e João Fonseca.
Três crianças se revezam no papel de Paulo Gustavo na infância (Gabriel Gentil, Guilherme Baleixo e Miguel Venerabile), enquanto dois atores fazem o homenageado adulto (João Pedro Chaseliov e Pierre Baitelli).
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O roteirista Fil Braz relata ao EXTRA sua convivência com o homenageado:
"Conheci Paulo Gustavo quando eu tinha 15 anos. Nossas avós moravam no mesmo prédio, eu o via de longe. Mas nos aproximamos mesmo numa boate que frequentávamos, a Madame Kaos (que está no espetáculo). Escrever o musical foi ao mesmo tempo difícil e facílimo. Eu enrolei pra começar; pensava 'meu Deus! A mãe e a irmã serão as primeiras pessoas a ler'! É muita responsabilidade! E nós temos uma relação de muito afeto; imagina se elas não gostassem, não se emocionassem, não se reconhecessem e reconhecessem o Paulo Gustavo... Tudo isso me assustava. Mas quando já não podia mais procrastinar, confesso que o texto nasceu rápido. Eu realmente era uma pessoa que podia fazer esse trabalho. Sou escritor de fato, roteirista, e amigo, testemunha, parceiro, personagem dessa jornada. Eu sabia muito, conhecia detalhes. Usei coisas que PG me contou quando a gente tinha 16 anos e coisas que Juju me contou na época, sobre os momentos finais, no hospital, na intimidade mais dolorosa e profunda da família. Nenhum dos dois me contou para que eu escrevesse um dia essa peça; me contaram porque somos amigos, irmãos, porque dividíamos a vida. No entanto, estava tudo dentro de mim, no meu coração, nas minhas lembranças. Quando superei o medo da responsabilidade e também o medo de mexer nesse luto, o texto veio. E veio bonito, forte, potente, cheio de amor e verdade. Todos gostaram! Na primeira leitura, entre risos e lágrimas, Déa gritou 'é tudo verdade'!".
O roteirista Fil Braz e Paulo Gustavo, como Dona Hermínia
Arquivo pessoal/Divulgação
A temporada vai até 19 de julho: quartas, quintas e sextas, às 20h; sábados e domingos, 16h e 20h. Ingressos pela plataforma Sympla.
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