Madeira ilegal da Amazônia abastece hotéis de luxo nos EUA, segundo relatório

 

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Estruturas de um circuito de Fórmula 1 e de hotéis de luxo nos Estados Unidos podem ter sido erguidas com madeira extraída ilegalmente da Amazônia. A conclusão é de uma investigação do Environmental Investigation Agency (EIA), grupo internacional que pesquisa crimes ambientais na floresta amazônica e que identificou evidências de irregularidades em fazendas e exportadoras no Pará. A cadeia desse comércio, na mira também do Ministério Público, começa em propriedades privadas na floresta e passa por serrarias brasileiras até chegar a empresas estrangeiras que fornecem o material para os empreendimentos finais de alto padrão.

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Nos casos analisados pelo EIA, o volume de madeira declarado por fazendas autorizadas era muito acima da quantidade de árvores legalmente derrubadas no local — fato comprovado por imagens de satélite. A equação não fecha e indica a possibilidade de “lavagem de madeira”, já que o produto só pode ter sido extraído de outras áreas. A origem real dessas madeiras “esquentadas” nas fazendas é desconhecida, mas uma das hipóteses é que venham de terras indígenas (TIs), como a Munduruku (PA), que sofre com desmatamento, abertura de estradas ilegais e exploração garimpeira. Imagens de satélite da ONG internacional, conhecida por denunciar crimes ambientais no mundo, revelaram 60km de estradas clandestinas no território e 1.200 m³ de toras empilhadas ao longo dessas vias abertas.

O Ministério Público do Pará também vem investigando as fraudes nessa cadeia. Em setembro do ano passado, o órgão organizou uma oficina com a Secretaria estadual de Meio Ambiente, o Ibama, o Ministério Público Federal (MPF), especialistas e representantes da sociedade civil — incluindo o próprio EIA — para discutir soluções. Ao final, uma nota técnica recomendou a criação de um sistema digital de rastreabilidade em tempo real do comércio de madeira no Pará, integrado à plataforma federal do Ibama. Ao lado de Mato Grosso, o Pará é o único estado do Brasil que mantém um sistema autônomo de rastreio, à parte do padrão federal, que tem mais capacidade de identificar fraudes.

Multados pelo Ibama

No ano passado, o EIA publicou a primeira parte de sua investigação sobre o comércio de madeira no Pará. Como mostrou O GLOBO na ocasião, 53 mil metros cúbicos do produto, o suficiente para encher 1.828 contêineres marítimos, foram vendidos após graves evidências de extração ilegal, entre 2019 e 2024, tal qual apontava o relatório. Essas negociações envolveram 19 serrarias, 16 exportadores — muitos deles multados pelo Ibama — e 30 importadores nos Estados Unidos e na União Europeia.

Desta vez, a nova análise identificou 25 mil m³ de madeira, cerca de 830 contêineres, vendidos com sinais de ilegalidade. Somados aos dados anteriores, o volume total de madeira contaminada identificada ultrapassa 78 mil m³, o equivalente a 31 piscinas olímpicas. As espécies de ipê e cumaru são as mais negociadas.

Em uma dessas rotas comerciais a partir das fazendas paraenses, a madeira foi adquirida pela Global Florest Lumber Company, uma importadora americana, que tem marcas próprias de madeiras nobres. A Maximo, uma dessas afiliadas, vendeu ipês para a instalação de deques para um resort da rede Marriott, em Pompano, uma praia da Flórida, para um Hotel Hyatt em Miami e para uma área VIP do Grande Prêmio de Fórmula 1 de Miami, em 2023.

Todos os negócios entre a Maximo e esses empreendimentos foram comprovados em publicações das próprias marcas ou de fornecedores parceiros nas redes sociais. As imagens foram anexadas no relatório do EIA.

Em nota, a Global Forest assegurou que leva as denúncias a sério e que opera dentro da legislação, com auditorias e controle de custódia. A empresa afirmou estar à disposição das autoridades para garantir a transparência do setor.

Outras negociações reveladas pela ONG ligam importadoras europeias a projetos arquitetônicos na Itália e na Bélgica. Diante das revelações, o governo da Holanda multou uma importadora do país por violar o Regulamento Europeu da Madeira, que exige que empresas adotem sistemas rígidos de diligência.

‘Compras de alto risco’

Chris Moye, gerente do programa EIA América Latina e coautor do relatório, explica que, apesar de não ser possível provar que a madeira das obras de luxo seja exatamente a mesma retirada ilegalmente da Amazônia, o importante é revelar a ligação comercial entre grandes empresas estrangeiras e importadoras acusadas de ilegalidades.

— O alerta é que importadores e exportadores de ipê do Pará, já expostos pela EIA por compras de alto risco, reaparecem nessa investigação, o que levanta dúvidas sobre a devida diligência exigida pelo Lacey Act (lei dos EUA que proíbe a importação de produtos florestais extraídos ilegalmente do país de origem) e pelas normas europeias — frisa Moye, que chama a atenção para a degradação na TI Munduruku, próxima às fazendas investigadas. — É plausível que parte da madeira ilegal gerada na região, inclusive de terras indígenas, possa ser canalizada por mecanismos desse tipo.

As duas fazendas investigadas no relatório, que será publicado na próxima terça-feira, são a Pinheiros e a Odila. A segunda faturou cerca de US$ 2 milhões na venda de madeira com sinais de irregularidade, entre 2021 e 2022. Naquele período, o proprietário da fazenda, multado pelo Ibama em um processo de 2018, foi autorizado a explorar 16.921 m³ de madeira. No entanto, imagens de satélite não mostram sinais de exploração em escala industrial, registrando apenas uma pequena estrada, insuficiente para explicar o volume autorizado, equivalente a um trem de carga de três quilômetros.

Segundo os documentos, a madeira foi vendida a 11 serrarias, das quais dez já foram multadas pelo Ibama ou pelo governo do Pará em processos anteriores. Entre 2022 e 2025, as serrarias revenderam a produção a seis exportadores brasileiros, todos também já multados pelo Ibama anteriormente, que, por sua vez, exportaram para quatro importadores nos Estados Unidos e três na União Europeia.

A Fazenda Pinheiros já havia sido investigada pela comercialização de mais de 11 mil m³ de madeira apesar da detecção de garimpo ilegal no local em 2022 pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Em 2024, o Ibama embargou a área, mas a maior parte da madeira já havia sido vendida a serrarias e, ao final, a 14 importadores, incluindo a Global Forest Lumber, ligada aos empreendimentos de luxo.

A nova investigação destrinchou a autorização para a comercialização de quase 38.516 m³ de madeira, cerca de 1.284 cargas de caminhão. Foi declarada a existência de uma quantidade de ipê-roxo por área até 16 vezes maior do que o que realmente há no Pará, cuja média é de apenas meio metro cúbico por hectare, contra mais de 3 metros cúbicos alegados.

Mesmo após embargo do Ibama, mais de 9.570 m³ de toras foram transportados para três serrarias. Além dessa sanção, uma multa foi aplicada no CPF de uma mulher registrada como dona, mas ela morreu em 2023, outro sinal de falta de controle sobre os dados. No ano passado, responsáveis pela Fazenda Pinheiros responderam que a extração era legal e que o garimpo era fruto de “invasões de terceiros”.

‘Problema sistêmico’

A promotora Eliane Moreira, da 5ª Promotora de Justiça Ambiental de Marituba (PA), destaca que muitas serrarias identificadas já são investigadas pelo MP-PA. Segundo ela, os problemas contaminam todo o país, com madeiras encontradas em Pernambuco e na Bahia. Moreira relata que encontrou serrarias que eram verdadeiros “portos de exportação”:

— Identificamos autos de infração dos órgãos ambientais bastante recorrentes e buscamos entender o problema estrutural. O sistema do Pará tem muitas falhas, é um problema sistêmico.

Na avaliação da promotora, a principal causa das fraudes é o próprio sistema estadual — Sisflora — usado no Pará, cujas falhas motivaram um inquérito. Há um ano, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que todos os estados integrassem seus sistemas ao nacional, o Sinaflor. Além de ser quase todo autodeclaratório, o modelo estadual tem prazos de transporte de até 60 dias, o que facilita fraudes, enquanto no federal a duração é de três a sete dias.

— Não tem justificativa para os estados com maiores níveis de desmatamento estarem fora do sistema nacional. Até os documentos têm denominação diferente; então, quando as toras circulam o Brasil, há dificuldade de identificar, cruzar dados. O Sisflora-PA não é plenamente acessível a todos os entes da cadeia. Quem está em campo nos narrou essas dificuldades — narra Eliane Moreira.

Por nota, o Ibama afirmou que as autorizações de comercialização vieram do governo do Pará e que as irregularidades são alvo de fiscalização. Em 2025, o instituto lavrou mais de cinco mil autos de infração de flora na Amazônia.

Já a Secretaria de Meio Ambiente do Pará informou que a Fazenda Pinheiro II é alvo de processo administrativo e apura a situação da Fazenda Odila. A pasta destaca que, desde 2023, apreendeu mais de 15 mil m³ de madeira e que seus sistemas de monitoramento (Simlam e Sisflora) operam integrados ao Sinaflor federal desde 2022. Os demais citados não responderam.