Madame Satã: As histórias de um ícone do submundo da noite no Rio

 

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Madame Satã foi um habitante lendário no submundo da boemia carioca no começo do século XX. Pernambucano abandonado pela mãe, negro, gay, artista marginal e malandro capoeirista do tipo que nunca fugiu de uma briga, ele protagonizou histórias que percorreram as ruas do lado mais decadente da Lapa e produziram uma extensa ficha criminal com o seu nome.

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Andando sempre no fio da navalha, e sempre com uma navalha no bolso, Madame Satã passou um total de 27 anos na cadeia, entre idas e vindas. Ele ficou tanto tempo no antigo presídio da Ilha Grande, em Angra dos Reis, que, depois de cumprir suas penas, continuou morando na região. Quando morreu, no dia 12 de abril 1976, há 50 anos, foi enterrado no cemitério da Vila do Abrão, na Ilha Grande.

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Agora, meio século depois, o túmulo do Madame Satã pode se tornar o primeiro patrimônio cultural LGBTQIA+ tombado pelo Instituto Nacional de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O pedido de tombamento, registrado pelo pesquisador e turismólogo Baltazar de Almeida, já está em análise no órgão, mas ainda deve levar alguns anos até a conclusão do processo.

Madame Satã na entrada de casa na Vila Abraão, na Ilha Grande

Jorge Peter/Agência O GLOBO

João Francisco dos Santos, o icônico Madame Satã, viveu durante uma época em que o moralismo e o conservadorismo não eram sequer contestados na sociedade. Homofobia e racismo eram regra. Mas ele impunha respeito na base da força e não aceitava esculacho nem de policial. Numa entrevista ao GLOBO, em 1972, o malandro disse que policial fardado só o levava para a cadeia desmaiado.

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Madame Satã nasceu na Zona da Mata Pernambucana, em meio a 17 irmãos. Quando tinha 8 anos, depois de perder o pai, sua família passava tanta miséria que a mãe dele o trocou por uma égua. O menino, então, viveu em regime de semi-escravidão numa fazenda até fugir para o Rio com a dona de uma pensão. Só que ele continuou numa rotina de trabalhos forçados, e aí foi morar nas ruas da Lapa.

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Analfabeto, sobrevivendo de biscates e pequenos furtos, o pernambucano entrou na mira da polícia e ganhou fama de briguento. Ele chegou a fazer segurança de prostitutas e de figuras marginalizadas, era chamado de Carangueijo da Praia das Virtudes. O apelido, que mais tarde virou música da banda Nação Zumbi, fazia referência a uma praia que existia no Centro do Rio, mas também era uma alusão ao soco de esquerda que era capaz de derrubar muito marmanjo nos inferninhos cariocas.

Madame Satã

Walter Firmo/Divulgação

Madame Satã era um artista transformista conhecido nos cabarés da Lapa. Em 1928, a vida sorriu quando ele foi chamado para o espetáculo "Loucos em Copacabana", interpretando a Mulata do Balacochê no antigo da Casa do Caboclo, que ficava na Praça Tiradentes. Pioneiro da cultura queer no Rio, o ator e dançarino se sentiu realizado, mas essa fase durou pouco tempo.

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Numa noite, depois de brilhar no palco, Madame Satã estava comendo em um boteco na Lapa quando um guarda civil chamado Alberto chegou lá puxando briga. Ele xingou o pernambucano com ofensas homofóbicas e abriu o supercílio do artista com um golpe de cacetete. O malandro, conhecido por não levar desaforo para casa, reagiu dando um tiro no agente, que caiu morto no chão.

A partir de então, o malandro passou mais tempo no presídio de Ilha Grande do que em liberdade. Até porque, toda vez que voltava ao Rio, acabava se envolvendo em confusão. Em 1955, numa briga no bar Capela, derrubou com um soco o sambista Geraldo Pereira, que acabou morrendo horas depois, no hospital. Numa entrevista ao GLOBO em 1972, o malandro contou a sua versão para o caso:

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"O Geraldo cismou que eu tinha que beber cerveja no copo dele. Eu eismei que não tinha. Era, até, meu amigo. Aí, ele me atirou a cerveja dele na cara. Mandei a esquerda, e ele caiu com a cabeça no meio-fio. Foi morrer de manhã, às 9 horas. Isso ocorreu às duas da madrugada. Fui eu?".

Nelson Gonçalves em "A Rainha Diaba", filme de 1974 inspirado em Madame Satã

Reprodução

Sobre a prisão, ele contou que viveu "coisas boas e ruins. Fui cozinheiro particular do diretor, e isso foi bom. Mas sofri muito. Apanhei muito. O preso é um cara sempre sem proteção. Então, imagina que deve matar o inimigo, antes que ele o mate. Fica noites a fio sem dormir, esperando a morte. E mata um sujeito que às vezes nem tinha arma, nem intenções assassinas. Uma vida de terror."

Depois de cumprir suas penas, Madame Satã decidiu morar na Vila do Abraão, na Ilha Grande mesmo, e estava lá trabalhando como cozinheiro, numa vida tranquila, até que deu uma entrevista pro jornal "O Pasquim", em 1971, contando as suas histórias, e virou uma espécie de celebridade carioca.

No ano seguinte, foi lançado um livro com as memórias dele, narrado ao escritor Sylvan Paezzo. Já em 1974, estreou o filme "Rainha Diaba", inspirado na vida do artista, com Milton Gonçalves no papel principal, e, em 1975, o próprio Madame Satã atuou no musical "Lampião no Inferno", ao lado de Elba Ramalho e Tania Alves, no Teatro Miguel Lemos, hoje chamado Briggite Blair, em Copacabana.

Mesmo assim, em fevereiro de 1976, com a saúde debilitada, ele estava internado em um hospital de Angra dos Reis como indigente. Foi o cartunista Jaguar, do Pasquim, que providenciou a transferência do amigo para uma unidade de saúde em Ipanema, no Rio. Madame Satã fez 75 anos no hospital e morreu de câncer no dia 12 de abril daquele ano. Foi enterrado no cemitério da Vila do Abraão.