Macron quer UE unida para desafiar a hegemonia do dólar e critica acordo com Mercosul: 'mau negócio'
O presidente francês Emmanuel Macron afirmou nesta terça-feira que as “ameaças” comerciais e as “intimidações” dos Estados Unidos não “terminaram”, e ressaltou que a União Europeia precisa se unir para desafiar a hegemonia do dólar. Macron falou ainda sobre o acordo de livre-comércio com o Mercosul, que classificou como um “mau negócio”, “antigo” e “mal negociado”.
Em entrevista concedida no Palácio do Eliseu a um grupo de jornais internacionais, entre eles El País, The Economist, The Financial Times, Le Monde e Süddeutsche Zeitung, ao abordar alguns dos pontos que pretende propor na reunião informal dos líderes da UE na quinta-feira, voltada para a revitalização da economia do bloco, Macron renovou seu apelo para que a UE avance em um maior endividamento conjunto, a fim de ajudar o bloco de 27 países a investir em grande escala e desafiar a hegemonia da moeda americana.
—Os mercados globais estão cada vez mais desconfiados do dólar dos EUA. Eles estão em busca de alternativas. Vamos oferecer a eles dívida europeia —afirmou o presidente francês, acrescentando que as instituições democráticas da Europa são um grande trunfo para os investidores em um momento em que os EUA estariam “se afastando do Estado de Direito”.
De acordo com a agência Reuters, o bloco europeu recorreu à dívida conjunta em 2020 para reimpulsionar a economia europeia após a pandemia de Covid-19, mas as tentativas francesas de tornar esse instrumento permanente enfrentaram forte resistência da Alemanha e de outros Estados-membros do norte.
Duplo desafio
Macron reforçou que a Europa precisa ser mais resiliente diante de um duplo desafio representado pelos Estados Unidos e pela China:
—Temos o tsunami chinês no front comercial e, do lado americano, uma instabilidade minuto a minuto. Essas duas crises representam um choque profundo — uma ruptura para os europeus.
Ele voltou a afirmar que a UE precisa adotar uma postura mais dura diante do presidente Donald Trump, que, segundo ele, está promovendo o “desmembramento” do bloco. E referiu-se a uma “espécie de alívio covarde” dos dirigentes europeus quando se saiu do “pico da crise” por causa das tarifas de Trump.
— Quando saímos do pico da crise, quando se negociou um acordo sobre as tarifas, houve uma espécie de alívio covarde. Mas não acreditem nem por um segundo que isso acabou — advertiu, antes de acrescentar:
— Vejam o que vai acontecer com as tarifas sobre os produtos farmacêuticos e tudo o que vem pela frente. Todos os dias, todas as semanas, haverá ameaças.
Segundo ele, “quando há uma agressão manifesta, não devemos nos dobrar nem tentar chegar a um acordo”.
— Testamos essa estratégia durante meses e ela não dá resultados. Mas, sobretudo, leva estrategicamente a Europa a aumentar sua dependência — afirmou.
Acordo UE-Mercosul
Enquanto nesta semana os dirigentes europeus debaterão sobre competitividade e indústria, o mandatário francês defendeu a simplificação, o aprofundamento do mercado interno da UE e a diversificação dos acordos comerciais.
Ele pediu a proteção da indústria europeia sem cair no protecionismo, por meio de uma “preferência europeia” em certos setores estratégicos como tecnologias limpas, química, aço, automotivo ou defesa.
— Caso contrário, nós, europeus, ‘seremos varridos’ — advertiu.
Questionado pelos jornalistas sobre o fato de que, ao mesmo tempo em que defende a visão de soberania europeia e apoia a diversificação de alianças, se opõe ao acordo com o Mercosul, o presidente francês explicou o motivo pelo qual classificou o tratado com Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai de ''mau acordo'':
— A estratégia é boa, o sinal geopolítico é correto. Por isso também intensifiquei minhas viagens a essa região. O problema do Mercosul é que seu mandato está muito desatualizado. Defendo cláusulas espelho, o que significa impor aos produtores não europeus as mesmas restrições que imponho aos meus próprios, o que é justo se não quero desindustrializar. Defendo acordos justos e, portanto, acordos que incluam salvaguardas e respeitem o clima, ao mesmo tempo em que alcancem o que queremos para a economia. É um acordo antigo, mal negociado.
