'Macron preso em armadilha', 'aprovação com vencedores e perdedores': a repercussão do acordo Mercosul-UE

 

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Uma maioria qualificada de países da União Europeia aprovou nesta sexta-feira (9) o acordo de livre comércio com o Mercosul, negociado há mais de 25 anos.

Com a aprovação, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, está autorizada a viajar a Assunção, no Paraguai, onde deve assinar o acordo na próxima segunda-feira. O tratado estabelece um marco comercial entre a União Europeia e os países do Mercosul — Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai.

Negociado desde 1999, o acordo cria uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, reunindo a União Europeia e os países do Mercosul — Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai —, um mercado de mais de 700 milhões de consumidores. O tratado prevê a eliminação de grande parte das tarifas e deve impulsionar exportações europeias de automóveis, máquinas, vinhos e queijos, ao mesmo tempo em que facilita a entrada na Europa de produtos sul-americanos como carne bovina, aves, açúcar, arroz, mel e soja, dentro de cotas isentas de impostos.

Após a maioria dos países da União Europeia aprovar o acordo de livre comércio com o Mercosul, o governo alemão declarou nesta sexta-feira (9) que o tratado ‘envia um sinal importante’ ao cenário internacional. Em comunicado, o ministro das Finanças da Alemanha, Lars Klingbeil, afirmou que a iniciativa reforça a aposta do bloco em cooperação econômica em um contexto de avanço do protecionismo. A declaração se soma às manifestações de apoio de outros países, como a Espanha, que defendem o acordo com o Mercosul como uma forma de ampliar mercados e impulsionar a economia europeia, além de contrabalançar a concorrência chinesa e as tarifas impostas pelos Estados Unidos.

Agricultores iniciaram protestos em toda a União Europeia, bloqueando rodovias francesas e belgas e realizando marchas na Polônia. O acordo enfrenta resistência de setores agropecuários europeus e do governo francês, que alegam preocupações relacionadas à concorrência e a padrões ambientais. Mesmo assim, o aval dos países-membros permite o avanço formal do processo de ratificação no bloco europeu. Confira as reações pelo mundo ao avanço do acordo histórico:

O jornal francês Le Monde publicou um artigo de opinião com o título "Emmanuel Macron e o governo estão presos na armadilha do Mercosul". No texto, a articulista Mariama Darame diz que "a raiva dos agricultores e a instabilidade política o deixaram de mãos atadas". Ela ainda diz que a oposição ao Mercosul na França "é uma das poucas questões que transcende as divisões dentro da Assembleia Nacional, a ponto de provocar pedidos de censura tanto da direita quanto da esquerda".

O jornal alemão Süddeutsche Zeitung publicou texto com o título "A Itália arrisca, a França perde na votação" sobre o acordo com o Mercosul, destacando que "a geopolítica se sobrepõe aos interesses dos agricultores". "Acima de tudo, a assinatura pretende ser uma declaração geopolítica: a Europa , guardiã dos remanescentes de uma ordem mundial outrora baseada em regras, está forjando novas parcerias enquanto antigas alianças se desfazem", diz o artigo assinado por três jornalistas.

O espanhol El País publicou uma análise sobre quem são os "perdedores" e os "vencedores" com a aprovação do acordo, e destacou que a decisão "era aguardada com grande expectativa pela indústria alimentícia espanhola, que necessitava urgentemente desse tratado para mitigar os prejuízos causados ​​pelas tarifas impostas pelo governo dos Estados Unidos".

Já o jornal americano The Washington Post publicou o editorial "Com políticas comerciais protecionistas, os Estados Unidos correm o risco de isolamento", citando o acordo entre Mercosul e União Europeia como "um exemplo disso". "O seu protecionismo está a incentivar outros países a unirem-se para garantir o acesso aos mercados."