O presidente da França, Emmanuel Macron, criticou nesta quarta-feira as declarações de líderes estrangeiros sobre os distúrbios que atingiram o país no fim de semana, definindo as falas como “inaceitáveis” e “estúpidas”. Em referência ao presidente americano, Donald Trump, e a outros dirigentes internacionais, Macron acusou políticos de explorarem a crise social francesa em benefício de suas próprias campanhas eleitorais e denunciou o que chamou de “manipulação estrangeira da informação” após os episódios de violência.
— Quando vejo líderes que estão em plena campanha eleitoral, seja na região ou do outro lado do Atlântico, que às vezes repetem ingenuamente conteúdos gerados por inteligência artificial ou disseminam narrativas que determinados grupos claramente tentam promover sobre o que aconteceu na França, eles estão usando o nosso país para suas próprias campanhas políticas — afirmou Macron. — E não precisamos disso. O que está acontecendo na França? Quatro perguntas para entender os protestos que tomaram o país Quer morar fora? Veja guia interativo do GLOBO que reúne informações sobre 36 países Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp A declaração foi feita após Trump responsabilizar, sem provas, migrantes, jihadistas e comunistas pelos distúrbios registrados em diversas cidades francesas. Durante um comício no Kansas na segunda-feira, o americano descreveu a França como uma nação que já foi grandiosa, mas que havia sido “conquistada, saqueada e reduzida a cinzas por migrantes”. O republicano exibiu imagens da destruição no país para defender suas políticas migratórias e mobilizar apoiadores às vésperas das eleições legislativas de novembro.
— Se vocês querem ver o que está em jogo nesta eleição, basta olhar para o que está acontecendo na França. É isso que está acontecendo com a França, e eles querem que aconteça com o nosso país. Isso nunca vai acontecer aqui — declarou Trump, provocando aplausos da multidão de apoiadores reunidos no Kansas, estado fortemente republicano onde o senador Roger Marshall enfrenta uma disputa surpreendentemente acirrada contra o democrata Adam Hamilton. Retórica da extrema direita Mais cedo, Trump havia repetido a alegação infundada de que migrantes haviam “tomado o controle” da França, escrevendo na rede Truth Social que líderes franceses precisavam “fechar as fronteiras” rapidamente, antes que “seja tarde demais”. Na Casa Branca, Trump afirmou ter alertado Macron de que ele estava “cometendo um grande erro” e que Paris poderia se tornar “uma cidade muçulmana muito em breve”.
— Nós fechamos nossas fronteiras. Ele não. Após protestos: França contabiliza destruição de lojas e prédios públicos, e distúrbios viram instrumento eleitoral Em Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu também afirmou que a França havia se tornado um refúgio do “islamismo extremista”. A declaração, feita em meio à campanha para as eleições de 27 de outubro no país, ilustra a perspectiva predominante em Israel sobre a violência na França e em outros países europeus, publicou o jornal francês Le Monde. As críticas do premier são ainda mais contundentes porque a França liderou uma onda de reconhecimento do Estado da Palestina em setembro de 2025.
— A Europa é um continente exausto. Eles não têm vontade de lutar e sucumbem a essas bases islâmicas e à esquerda progressista — disse Netanyahu. — Se não detivermos o Hamas aqui, vocês os verão nas ruas de Paris. É exatamente o que está acontecendo agora.
A retórica ecoa a do partido francês de extrema direita Reagrupamento Nacional (RN), cujo presidente, Jordan Bardella, descreveu a violência como uma convergência entre o extremismo de ultraesquerda e populações envolvidas com a criminalidade nos subúrbios. Oficialmente, autoridades francesas atribuem os distúrbios a “pequenos grupos de ultraesquerda”, aos quais teriam se juntado “criminosos oportunistas”. Artigo: O que os vândalos nos dizem, às vezes sem perceber, por Édouard Louis ‘Comentários inaceitáveis’ As manifestações na França começaram quando estudantes do ensino médio passaram a protestar contra a falta de professores, a deterioração das salas de aula e contra um sistema pouco transparente de admissão às universidades. A CGT, uma das maiores centrais sindicais do país, apoiou o movimento e reivindicou preços mais baixos, aposentadorias mais altas e melhores salários. Desde então, a insatisfação passou a incluir os preços dos combustíveis, que subiram desde o início da guerra dos EUA e de Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro.
Outros países: Da França à Albânia, onda de protestos liderada por jovens se espalha pela Europa contra o custo de vida No sábado, porém, houve saques e confrontos com a polícia durante as manifestações. Mais de 3 mil estabelecimentos comerciais foram saqueados, incluindo redes internacionais e pequenas lojas independentes, enquanto vários prédios públicos foram atacados. As autoridades, que reconheceram que a resposta policial foi insuficiente diante da mobilização, disse que 2,5 mil pessoas foram presas e que reforçará o policiamento no país.
Macron, que classificou a violência como uma “vergonha nacional” e chegou a prometer uma “linha dura” contra os responsáveis, disse nesta quarta que “houve manipulação estrangeira na informação” após os saques ocorridos no país — o que, por sua vez, deu origem ao que definiu como “comentários tão inaceitáveis quanto estúpidos”. Questionado por um jornalista se estava se referindo a Trump, Macron respondeu, sem citar nomes: “entre outros”.
— Vimos imagens geradas por inteligência artificial retratando cenas que nunca aconteceram de fato na França. Tivemos pessoas afirmando que fomos invadidos por hordas de migrantes e islamistas, o que é completamente falso. O fato é que todas as pessoas que estão falando mal do nosso país neste momento são pessoas que não amam o nosso país — afirmou Macron. — Então, essas pessoas realmente me incomodam. Toque de recolher e greve geral Enquanto isso, autoridades francesas decretaram nesta quarta-feira um toque de recolher em alguns bairros de Paris pela terceira noite consecutiva. A medida, que entrará em vigor às 23h e permanecerá ativa até as 6h, no horário local, afeta duas pequenas áreas da capital: a Praça da República, um dos epicentros dos confrontos, e a região comercial de Les Halles. A Prefeitura de Polícia de Paris também proibiu aglomerações a partir das 20h em áreas estratégicas mais amplas, como a Avenida Champs-Élysées e as estações ferroviárias. Análise: Extrema direita na França capitaliza onda de violência para impulsionar campanha eleitoral A França se prepara para uma nova jornada de manifestações no próximo sábado. Sob pressão, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu anunciou uma mobilização policial “em massa” para evitar novos distúrbios. Em uma tensa sessão na Assembleia Nacional na terça-feira, Lecornu voltou a acusar, sem provas, grupos de “ultraesquerda” e disse que não vai “tolerar que pequenos grupos facciosos possam marchar sobre o Eliseu [e] sobre o Matignon”, em referência às sedes da Presidência francesa e de seu próprio gabinete. Ao mesmo tempo, nesta quarta, a líder do CGT, Sophie Binet, convocou a intensificação dos protestos, com uma greve nacional marcada para 5 de novembro. O anúncio ocorreu após uma reunião com Lecornu, que, segundo a sindicalista, não apresentou “nenhuma medida” para atender às reivindicações dos trabalhadores e estudantes. A paralisação já havia sido convocada pelas principais organizações sindicais no início do mês. — Chegou o momento de subir o nível da mobilização; a greve deve assumir o protagonismo — afirmou Binet, ao defender a ampliação da pressão sobre o governo. O líder da Confederação Francesa dos Trabalhadores Cristãos (CFTC), Cyril Chabanier, também criticou a ausência de respostas concretas, embora tenha destacado que Lecornu “abriu as portas” para discutir o salário mínimo. Segundo ele, medidas para atender às reivindicações sociais seria “a melhor maneira de acalmar as manifestações”.
(Com AFP)
O Globo