'Macho alfa' e 'fêmea beta obediente': as conversas que incriminam o tenente-coronel acusado de matar Gisele Santana
O tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto, preso desde quarta-feira (18) sob a acusação de matar a soldado Gisele Santana, há um mês, tem um longo histórico de humilhações e falas machistas proferidos contra a esposa. O conteúdo das mensagens foi extraído do celular do oficial da Polícia Militar e periciado pelo Instituto de Criminalística (IC).
De posse do material, tanto a Polícia Civil (no relatório de inteligência, que tem 82 páginas e foi obtido pelo GLOBO,) quanto o Ministério Público pediram a prisão de Neto, o que foi aceito pela Justiça (comum e a militar). Além disso, o tenente-coronel foi tornado réu por feminicídio e fraude processual.
Ele está detido no presídio Romão Gomes, na Zona Norte de São Paulo.
Segundo o material periciado, o oficial da Polícia Militar mantinha uma rotina de ameaças e de controle excessivo das atividades e relações da esposa. As redes sociais de Gisele, por exemplo, eram acessadas pelo marido e houve reclamações da vítima de que ele teria excluído contatos de pessoas em suas páginas no Instagram e Facebook.
"Não tenho ninguém nos meus contatos (...) Você excluiu todos", disse a esposa. Ainda em relação às páginas de Gisele, Geraldo Neto se incomodou com o fato de a esposa não usar a foto do casal no perfil pessoal dela." "Pode desativar aquele seu perfil de Instagram que você está sozinha na foto", disse Neto.
Desde que começou a ser investigado sob suspeita de feminicídio, Geraldo Neto negou que a esposa tivesse pedido divórcio e, segundo os investigadores, tentou inverter a narrativa alegando que Gisele era ciumenta e que teria criado um perfil na rede social para monitorá-lo.
Porém, pelas mensagens, os policiais afirmam, no relatório, que violência psicológica e agressões físicas faziam parte da rotina do acusado, sempre contra sua esposa. Para isso, incluíram no documento uma série de prints com termos como "macho alfa", "fêmea beta obediente" e "Rua é lugar de mulher solteira à procura de macho".
Conversa entre acusado e vítima
Polícia Civil de SP
Conversa entre acusado e vítima
Reprodução Polícia Civil
Cinco dias antes de ser morta em casa, Gisele Santana mandou a seguinte mensagem ao marido: "Praticamente solteira". Na sequência, a resposta: "Jamais! Nunca Será!".
Print de conversa entre Gisele e o marido, acusado de assassiná-la
Reprodução Polícia Civil
Nos dias anteriores, a vítima também havia deixado claro que a relação de ambos havia terminado e enviou mensagens como "acabou a admiração", "acaba tudo", "vamos separar" e "não tem como viver assim".
"A reação de Geraldo a qualquer menção ou atitude de Gisele que remeta a uma vida de solteira é sempre pautada por controle, proibições e chantagem financeira. O indiciado impunha regras de submissão nas redes sociais, declarando em mensagens: 'Se você quer ter liberdade pra seguir quem você quiser você tem que ficar solteira (...) Enquanto você for casada comigo não admito seguir outros homens e ficar de conversa com outros homens'", diz trecho do relatório da Polícia Civil.
Humilhações financeiras
As trocas de mensagens entre Gisele e Geraldo Neto também mostraram que o marido promovia uma "mercantilização da relação", dizendo que pagava as contas da casa e humilhando a vítima por isso, ainda segundo o relatório da Polícia Civil.
De acordo com os documentos, o marido utilizava o fato de pagar as contas da casa como uma arma constante de humilhação e cobrança. "O investigado acredita que o sustento financeiro lhe dá o direito de exigir contato físico. Nesse ponto, o investigado expõe à Gisele seus gastos (aluguel, condomínio, luz) e cobra a 'contrapartida' de Gisele: 'Eu contribuo com o dinheiro, sou o provedor. Você contribui com carinho, atenção, amor e sexo'. Ele também reclama: 'Eu só gasto dinheiro [...] e mais 1600 reais pra vc e não tenho nada em troca... Muito menos sexo'".
Na sequência, Gisele diz que quer se separar.
"Por mim separamos, não vou trocar sexo por moradia e ponto final", diz a vítima.
Descontrole emocional, agressão e "berro no sofá"
As conversas do casal dias antes da morte de Gisele mostram que o tenente-coronel teve vários episódios de descontrole emocional e uma "escalada de violência", com xingamentos, ofensas e agressão física.
Em outro print anexado pelos investigadores, a vítima relatou que foi agredida pelo marido.
Conversa entre acusado e vítima
Polícia Civil de SP
"A análise demonstra uma escalada na violência, inclusive Gisele relata episódios de descontrole, dizendo que Geraldo 'começou a berrar no sofá descontrolado' e que é ignorante e intolerante. Geraldo também a ataca verbalmente, e ela relata que ele a chama de 'lixo' e 'sem teto', e joga piadas para rebaixá-la, chamando-a de 'burra' e inferiorizando sua patente militar. Nesse sentido, o investigado se posiciona superior dentro da relação com uma necessidade de afirmação de superioridade", diz o relatório.
Conversa entre acusado e vítima
Polícia Civil de SP
Defesa recorre ao STJ
Em nota, a defesa do tenente-coronel afirma que as duas jurisdições da investigação (Justiça comum e a Militar) são contrárias à lei e que pediu ao Superior Tribunal de Justiça a liberdade de seu cliente.
Veja na íntegra abaixo:
"Ante o recente decreto dúplice de prisão do tenente-coronel pelos mesmos fatos tanto perante a Justiça Militar quanto pela Justiça Comum, a defesa encontra-se estarrecida pela manutenção da competência de ambas as jurisdições. Informa que sabedor dos pedidos de prisão em seu desfavor desde a data do dia 17/3 não só não se ocultou, como forneceu espontaneamente comprovante de endereço perante a Justiça, local onde foi cumprido o mandado de prisão, ato ao qual, embora manifestamente ilegal pois proferido por autoridade incompetente, não se opôs, tendo mantido a postura adotada desde o início das apurações de colaboração com as autoridades competentes.
Informa, por fim, que já ajuizou reclamação perante o STJ contra o decreto oriundo da Justiça castrense e que estuda o manejo de habeas corpus quanto à decisão da 5ª Vara do Júri da Capital. Reitera que seguem sendo divulgadas informações e interpretações que alcançam aspectos de sua vida privada, muitas vezes por meio de conteúdos descontextualizados, ocasionando exposição indevida e repercussões que atingem sua honra e dignidade.
A intimidade, a vida privada, a honra e a imagem constituem direitos fundamentais assegurados pela Constituição Federal (art. 5º, X), razão pela qual a divulgação de elementos pertencentes a essas esferas encontra limites nas garantias constitucionais, sendo certo que, no momento oportuno, sua equipe jurídica irá reprochar toda e qualquer divulgação ou interpretação que venha vilipendiar tais direitos em relação ao tenente-coronel. Por fim, o escritório reafirma sua confiança na atuação das autoridades responsáveis pela condução das investigações e reitera que o tenente-coronel aguarda a completa elucidação dos fatos."
