Macarrão instantâneo, mais conhecido no Brasil como miojo, foi inventado pelo empresário japonês Momofuku Ando
Arte/EN
Ele é barato, rápido de preparar e está presente em praticamente todo o mundo, com diferentes sabores.
Estamos falando do macarrão instantâneo, que se tornou um dos símbolos da comida prática ao ser preparado, em poucos minutos, apenas com água quente.
Para se ter uma ideia da popularidade deste tipo de refeição, em 2025, foram consumidas 124,2 bilhões de porções no mundo, segundo a World Instant Noodles Association (WINA).
Mas a história dessa invenção começa bem longe da praticidade.
O macarrão instantâneo surgiu no Japão, pós-guerra, em meio à escassez de alimentos e à busca por uma maneira de produzir uma refeição acessível, durável e fácil de preparar.
Em 1945, o país estava devastado pela Segunda Guerra Mundial e enfrentava dificuldades para alimentar sua população.
Isso chamou a atenção do empresário Momofuku Ando, que mais tarde fundaria a Nissin Foods.
Enquanto passava perto da estação de Osaka, ele viu pessoas fazendo longas filas no frio à espera de uma tigela de ramen -- ou lámen, como é conhecido no Brasil---, um macarrão servido em caldo.
Naquela época, o governo japonês recomendava que as pessoas consumissem refeições preparadas com o excedente de trigo americano.
No entanto, essas refeições eram quase sempre pão ou biscoitos, e Ando se questionou do porquê de o governo não recomendar o macarrão, um prato muito popular entre os japoneses e que poderia ser feito com o mesmo trigo.
Ando passou a imaginar um alimento que pudesse ser armazenado por bastante tempo, fosse fácil de preparar e pudesse chegar a mais pessoas.
Invenção no quintal de casa
Macarrão instantâneo foi inventado no Japão
Pexels
Segundo o Nissin Group, em 1957, a cooperativa de crédito em que Ando trabalhava como diretor faliu.
Ele perdeu praticamente tudo.
Então, ele decidiu se dedicar à ideia de criar um macarrão que pudesse ser armazenado e preparado rapidamente, apenas com água quente.
Ele começou a se dedicar ao projeto em um pequeno galpão instalado nos fundos de sua casa.
Durante um ano, ele fez experimentos para encontrar uma maneira de conservar o macarrão sem que o alimento perdesse sabor e textura.
Ele tinha cinco metas, que eram criar algo que fosse saboroso, seguro, tivesse longa duração, fosse barato e pudesse ser preparado rapidamente.
Certo dia, Ando entrou na cozinha enquanto sua esposa fritava tempurá, um empanado muito comum no Japão.
Ele percebeu que a camada de farinha colocada no óleo quente liberava umidade.
Ando experimentou fritar alguns macarrões no óleo e descobri que isso retirava a água da massa e criava microespaços em sua estrutura.
Quando água quente era adicionada novamente, ela conseguia penetrar nesses espaços e reidratar o macarrão em poucos minutos.
Foi assim que, em 25 de agosto de 1958, foi lançado o “Chikin Ramen" -- que também ficou conhecido internacionalmente como Chicken Ramen--, considerado o primeiro macarrão instantâneo e apelidado de “ramen mágico”.
Primeiro macarrão instantâneo
Reprodução/Nissin Group
Mas ele não era barato.
Quando foi lançado, o preço era de ¥35 por porção, enquanto um pacote de macarrão udon, por exemplo, custava ¥6.
Por isso, os donos de atacadistas de alimentos relutavam em estocar o produto, com a preocupação de que não venderia.
No entanto, o Chicken Ramen foi ganhando espaço e se tornou um sucesso tão grande que uma longa fila de caminhões de atacadistas se formava em frente à fábrica, aguardando a produção, informou o Nissin Group.
Como o macarrão instantâneo virou "miojo"
O macarrão instantâneo chegou ao Brasil em 1965, quando foi criada a Miojo Produtos Alimentícios para produzi-lo localmente.
O nome acabou virando sinônimo do produto e ganhou popularidade.
Sete anos depois, a Ajinomoto comprou 55% da companhia.
E, em 1975, a Nissin, empresa japonesa fundada por Momofuku Ando, entrou no negócio e comprou os 45% restantes, formando uma sociedade com a Ajinomoto, que durou até 2015, quando a Nissin comprou a participação da Ajinomoto e passou a controlar integralmente a operação brasileira.
Em 2025, o Brasil apareceu na 11ª posição dos países que mais consumiram macarrão instantâneo, com 2,65 bilhões de porções, segundo a WINA.
Macarrão no copo descartável
Ando não parou no macarrão instantâneo tradicional.
Em 1971, ele lançou o Cup Noodles, que levava o macarrão para dentro de um copo descartável, usado tanto para o preparo quanto para o consumo.
A ideia surgiu depois de uma viagem aos Estados Unidos em 1966.
Ele viu os gerentes de um escritório dividirem um pacote de macarrão instantâneo Chicken Ramen, colocarem o macarrão em copos, adicionarem água quente e começarem a comer com garfos.
Quando terminaram, jogaram os copos no lixo.
Isso mostrou que, para a expansão internacional do produto, não bastava adaptar o alimento, também era preciso adaptar a maneira de consumi-lo.
Além disso, o copo eliminava ainda mais etapas.
Não era necessário ter uma panela, uma tigela ou mesmo um prato.
A embalagem, portanto, passou a fazer parte da invenção.
Ele precisava de um recipiente com tamanho e formato adequados para ser segurado com uma só mão.
Ando com o produto final do Cup Noodles
Reprodução/Nissin Group
Após a produção e análise de quase quarenta protótipos, chegou-se a uma opção: o material escolhido foi espuma de poliestireno, que é leve, oferece bom isolamento térmico e é econômico.
No entanto, era um material incomum no Japão na época, e processá-lo em folhas finas e moldá-lo em recipientes que coubessem com uma só mão não era uma tarefa fácil.
Assim, Ando introduziu uma tecnologia americana e lançou um projeto interno de produção de recipientes, informou a Nissin.
Linha de produção do Cup Noodles
Reprodução/Nissin Group
A criação do copo estava resolvida, mas ainda havia um desafio: como colocar o bloco de macarrão dentro dele sem que a massa se quebrasse durante o transporte.
Ando encontrou uma solução: em vez de colocar o macarrão dentro do copo, colocou o copo de cabeça para baixo sobre o bloco de macarrão e depois virou os dois juntos.
A técnica mantinha o macarrão centralizado e permitiu automatizar o processo, abrindo caminho para a produção em massa do Cup Noodles.
O novo produto resultante desse processo, batizado de Cup Noodles para facilitar a compreensão em todo o mundo, foi lançado em 18 de setembro de 1971.
O Cup Noodles também enfrentou resistência.
A ¥100 por porção, quatro vezes o preço do macarrão instantâneo tradicional em saquinho, ele era considerado caro, e havia ainda a ideia de que comer em pé era falta de educação.
Para driblar a resistência dos varejistas, a empresa criou máquinas de venda que ofereciam água quente para preparar o produto no próprio local e promoveu degustações em áreas movimentadas.
Máquina para fazer Cup Noodle, que forneciam água quente
Reprodução/Nissin Group
Segundo o Nissan Group, o impulso decisivo veio em fevereiro de 1972, durante o incidente de Asama-Sanso.
Nele, um grupo armado revolucionário japonês foi cercado em uma casa de campo nas montanhas.
O incidente foi transmitido ao vivo diariamente pela televisão, e cenas de membros da tropa de choque do Departamento de Polícia Metropolitana de Tóquio comendo Cup Noodles durante o cerco à casa deram uma exposição inesperada ao produto em todo o país — e as vendas dispararam.
O Cup Noodles foi lançado no mercado americano em 1973 com o nome de Cup O'Noodles.
Posteriormente, bases comerciais foram estabelecidas rapidamente no Brasil, Singapura, Hong Kong, Índia, Holanda, Alemanha, Tailândia e outros países.
Apesar da popularidade, o macarrão instantâneo também trouxe críticas.
Embora seja prático e barato, o produto costuma ter alto teor de sódio e, dependendo da formulação, bastante gordura saturada e poucas fibras, vitaminas e minerais.
Por isso, a recomendação é de um consumo moderado e que o alimento não seja tratado como substituto habitual de uma refeição.
Rumo ao espaço
Ando continuou experimentando mesmo na velhice.
Aos 91 anos, decidiu desenvolver um macarrão que pudesse ser consumido no espaço e liderou pessoalmente a equipe responsável pelo projeto.
O resultado foi o Space Ram, adaptado para as condições de gravidade zero.
Ele tinha um caldo engrossado para evitar que escapasse, e o macarrão recebeu um formato que permitia comê-lo em uma única mordida.
Em julho de 2005, o produto foi levado ao espaço pelo ônibus espacial Discovery e o astronauta Soichi Noguchi se tornou o primeiro humano a comer macarrão instantâneo no espaço.
Ando morreu em janeiro de 2007, aos 96 anos, depois de permanecer ativo na Nissin até os últimos dias de vida.
Mais de seis décadas depois, o macarrão instantâneo deixou de ser apenas uma solução para preparar comida rapidamente e passou a fazer parte do cotidiano e da cultura de diferentes países.
Cada lugar incorporou o produto à sua maneira, com sabores, receitas e hábitos próprios.
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